sábado, 22 de julho de 2017

O velho Trabant

Thomas Hoepker - Damaged Trabant car and boy carting coal. Dresden, Saxony, RDA, 1990

Esta fotografia de 1990, o ano seguinte à queda do Muro de Berlim, é o sinal cruel da derrota do chamado socialismo real. Na verdade, as experiências socialistas iniciadas em 1917 - há um século atrás, portanto - falharam por todo o lado. Não conseguiram, enquanto vigoraram, fornecer aos cidadãos dos respectivos países dois bens essenciais segundo o credo do progresso que alimentou as crenças tanto de liberais como de marxistas. Nem a liberdade nem a prosperidade. Relativamente à liberdade, o sinal foi dado de imediato por Lenine em 1918, com a dissolução da Assembleia Constituinte democraticamente eleita e a imposição de uma ditadura, a qual se tornou o arquétipo para as outras experiências da gloriosa marcha em direcção ao homem novo e à sociedade comunista. Do ponto de vista da prosperidade, a economia planificada e estatizada foi completamente incapaz de concorrer com a economia de mercado ocidental assente na iniciativa privada e na liberdade de investimento, embora escorada, muitas vezes, num Estado social forte. O sonho de várias gerações de revolucionários adeptos do novo mundo, por muito que o neguem, acabou resumido a um velho Trabant, sem rodas, que ninguém quer ou sequer lamenta.

sexta-feira, 21 de julho de 2017

Vergílio Ferreira

Meena Rawi - Vergílio Ferreira

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Vergílio Ferreira é uma figura simbólica do quadro cultural de nosso país. Simbólica dos limites que a ditadura do professor Salazar fazia cair sobre Portugal, impondo-lhe uma grande distância cultural relativamente ao que se passava na Europa e nos Estados Unidos. Como é que Vergílio Ferreira surge como símbolo, um dos símbolos maiores, desse nosso desencontro com o tempo histórico? São as suas oposições, os seus conflitos intelectuais, que tornam isso patente. Esses conflitos são, em primeiro lugar, com o neo-realismo e, posteriormente, com o estruturalismo.

Se se atentar à biografia do escritor, ela parece, por si mesma, uma história neo-realista. A pobreza original, a ida para o seminário, a ruptura com a igreja, o curso universitário em Coimbra e, depois, o professorado no ensino liceal. E é como neo-realista que começa a sua carreira de escritor em 1939. A ruptura com o neo-realismo foi terrível e conduziu a que fosse sistematicamente ostracizado, como escritor, por uma parte da intelligentsia portuguesa afecta ao Partido Comunista, a qual tinha durante os anos sessenta, setenta e ainda em parte dos oitenta um grande poder em Portugal. Essa ruptura é feita em nome de opções estéticas e filosóficas marcadas pela influência do existencialismo filosófico e literário importado da Alemanha e de França. Na verdade, e esse era o problema cultural do país, foi a substituição de uma moda estética e cultural por outra, ambas sinais de uma dependência atávica do que vem de fora, por norma, com atraso e desligado dos contextos que animaram essas correntes.

A segunda grande polémica é com o estruturalismo, representado na figura de Eduardo Prado Coelho. O estruturalismo francês surgiu como reacção ao existencialismo e trouxe consigo a ideia da morte do homem e do autor. É contra ela que se ergue Vergílio Ferreira. O grande problema é que a Vergílio Ferreira faltava o traquejo académico, o domínio conceptual e, mais que tudo, a vivência dos grandes debates dos países democráticos. Eduardo Prado Coelho, com outra preparação teórica, era uma estrela em ascensão e tornou patente os limites do pensamento do escritor beirão. Dito isto, vale a pena voltar a ler Vergílio Ferreira? Para lá das polémicas reveladoras do nosso atraso cultural, ele é um dos principais escritores do século XX português, autor de Para Sempre, um dos grandes romances desse século. Quem nunca o leu pode começar com o popular Manhã Submersa e, depois, deitar-se à descoberta, tanto da obra romanesca como da diarística, ambas mais interessantes do que a sua obra ensaística.

quinta-feira, 20 de julho de 2017

A Flor Precária 12. Abre com a mão o portal do júbilo

Jeanloup Sieff - Queen, London, 1964

12. Abre com a mão o portal do júbilo

Abre com a mão o portal do júbilo,
o ritmo da palavra no pó do poema.
Sobre o peito, a cabeça inclinada,
um rio de sal no vendaval dos versos.

O cabelo de chuva escorre nos dedos,
água a arder na clareira da boca.
Fogos de Verão cantam-te nos lábios,
são larvas de luz na sombra do vento.

Dedilho a relva pura do teu corpo,
oiço o riso de lume na prosa da noite.
Uma serpente desliza em silêncio
e toca-te com o seu hálito de erva.

(A Flor Precária, 1979)

quarta-feira, 19 de julho de 2017

A arte

Berenice Abbott - Light through Prism, Cambridge, Massachusetts, 1958-61

Diferentemente do desvio angular da luz ao incidir num prisma, que pode ser calculado, o desvio sofrido pela luz ao incidir no homem não entra no reino da quantificação nem do cálculo. A relação do homem com a luz pertence ao domínio das coisas incertas. De tal maneira incertas que devemos evitar depositar alguma esperança no mero cálculo das probabilidades. Por isso, a humanidade inventou a arte. Para falar de si, da luz e das trevas.

terça-feira, 18 de julho de 2017

Eternidade

Cecil Beaton - Three models dressed in Ladurée macaron colours, 1948

Há fotografias que nos devolvem de imediato a sensação de passado. O mundo que nelas vemos já se retirou. Outras, porém, têm uma dimensão metafísica. Mostram-nos a eternidade. Esta fotografia de Cecil Beaton seria um belo argumento para defender que, para lá do tempo, existe a eternidade. Não é que nela não se encontrem ostensivas marcas temporais. Encontram. Aliás, tudo o que nela vemos são marcas do tempo, objectos datados, pessoas que, provavelmente, já não estão entre nós. Contudo, olhamos e o que vemos - dado por um cuidado trabalho cenográfico - é algo que ultrapassa o tempo. Ali pousa, muito ao de leve, talvez como uma sombra, a eternidade. 

segunda-feira, 17 de julho de 2017

Encenação da beleza

Rodney Smith - Two Women in Black, 1992

O que é a beleza? Esta é uma das perguntas a que se aplica a resposta dada, nas Confissões, por Santo Agostinho à questão o que é o tempo? "Se ninguém mo perguntar, eu sei; se o quiser explicar, a quem me fizer a pergunta, já não sei." A beleza como o tempo parecem escapar ao regime da explicação. Dificilmente se deixam capturar por redes conceptuais e entrar no jogo da argumentação. Contudo, ao olharmos esta fotografia de Rodney Smith não podemos deixar de cair na tentação de falar sobre a beleza. 

Se me perguntassem qual o objecto desta fotografia, do que é que trata, eu diria de imediato que trata da beleza. É um ensaio sobre a beleza. Revela uma característica que não será condição suficiente para a explicar, mas que é, por certo, uma condição necessária. A beleza é encenação. Tudo aquilo que apreendemos como belo resulta de um trabalho, mais ou menos consciente, de cenografia. A beleza é assim o fruto de uma arte dramática. 

Somos então tentados a dizer que não há beleza sem a arte da dramatização e esta pressupõe o trabalho de um cenógrafo atento e cuidadoso. É isto que a fotografia nos mostra, ao ser ela própria o resultado da encenação da beleza. Qual é o corolário da conclusão a que se chegou? Não há uma beleza natural, se entendermos por natural a ideia de uma beleza espontânea, não dramatizada, não encenada. A beleza não é um dado ou um facto. É um processo, um tornar-se, um exercício de representação, em que a beleza para ser bela tem de ficcionalizar-se como tal.

domingo, 16 de julho de 2017

Versos e civilização

Santiago Rusiñol Prats - Alegoria da poesia (1895)

Meter equals verse, equals poetry, equals culture, equals civilization.
Charles O. Hartman, Free Verse, an Essay on Prosody, p. 6

A recepção hostil da poesia escrita em verso livre – isto é, em verso que não obedece às regras métricas de distribuição dos acentos tónicos e dos limites da dimensão do verso – levou a que muitos estudiosos da poesia considerassem a emergência do verso livre, em finais do século XIX e inícios do XX, não apenas uma aberração poética como, em última análise, um ataque à civilização. É isso que Charles O. Hartman sintetiza de forma irónica na frase citada em epígrafe. A frase tem o poder de, ao falar de versos e de poesia, nos mostrar aquilo que consideramos ser uma vida civilizada, a qual é sempre erigida em contraposição com a vida dos bárbaros.

A vida civilizada, se a perscrutarmos a partir da analogia com o verso, é aquela que tem uma certa medida, tal como os diversos tipos de versos tradicionais obedecem a certas medidas, as quais impõem um limite para o tamanho do verso. Esta concepção da civilização tomada em analogia com a métrica dos versos não deixa, porém, de obedecer a uma concepção moderna de civilização. Uma ideia que se liga de imediato à civilização é a de limite. Um ser civilizado é, contrariamente a um bárbaro, alguém que reconhece limites à sua acção e à satisfação das suas faculdades de desejar e de conhecer. Ser civilizado significa reconhecer que tanto o que pode desejar quanto o que pode conhecer é limitado. Esta ideia de limite é central na modernidade e, fundamentalmente, no Iluminismo e épocas subsequentes.

O carácter moderno deixa-se compreender, talvez ainda com mais intensidade, numa outra característica presente no verso metrificado, no verso não livre. Trata-se do próprio conceito de medida. A poesia estaria aberta a uma compreensão matematizante e quantificada através da escansão das sílabas poéticas. Escandir um verso é uma forma de medir o verso, de introduzir o cálculo e a quantidade nesse elemento que, na imaginação popular, está mais próximo de uma visão qualitativa do real do que de uma visão quantitativa. É esta ligação do verso à quantidade que permite, juntamente com a ideia de limite, que se estabeleça a analogia entre verso e civilização, isto é, aquilo que nós ocidentais modernos consideramos civilização. A vida civilizada do Ocidente tem no seu fundamento o cálculo e a quantificação. Basta olharmos para o peso que a economia tem, desde há muito, na vida social e política. Basta compreender que os sistemas políticos civilizados – isto é, as democracias – fundam-se na matematização das opiniões expressas em votos e, também, em sondagens.

No âmbito da analogia entre verso e civilização, podemos, agora, perguntar o que significa a emergência do verso livre, do verso que abandonou, na sua estratégia prosódica, o cálculo das sílabas poéticas e a ideia de limite do verso, isto é, que rompeu com as convenções anteriores. A primeira coisa que é possível compreender é que uma civilização – tal como um verso – está fundada em convenções. Assim como a métrica dos versos é uma convenção, a vida civilizada é também uma vida convencional, uma vida que adoptou certo tipo de convenções e que proscreveu outras. Isto tem um impacto muito maior do que se possa pensar. Significa que a civilização ocidental não é a civilização mas uma civilização possível entre outras. Tem as suas convenções diferentes de outras convenções adoptadas por outras formas de vida civilizada. O verso livre, ao relativizar os versos métricos, diz-nos, ao mesmo tempo, que a nossa civilização é meramente relativa, um modo de vida entre outros modos de vida possíveis e civilizados.

Uma segunda consequência do verso livre, se se continuar com a analogia entre verso e civilização, é que a ideia de limite ou de fronteira foi estilhaçada. Não é que os limites ou as fronteiras tenham deixado de existir. Tornaram-se, porém, mais difusos se não mesmo mais confusos. Curiosamente, foi isso que sucedeu no mundo desde o início do século XX (e o século XX começa, efectivamente, em 1914, com a Grande Guerra) até aos dias de hoje. Neste caso, o verso livre teve a capacidade de antecipar o destino da vida civilizada, onde as fronteiras entre civilizados e bárbaros, para recorrermos à distinção grega, se tornaram completamente porosas.

Onde a analogia parece não fazer sentido é na questão do cálculo e da quantificação. Se o verso livre trocou a quantificação métrica por outras formas de prosódia para a construção do ritmo e do sentido poéticos, a vida da nossa civilização continuou – aliás, tem-se assistido a uma intensificação – dependente do cálculo e da matematização da realidade. Se o ritmo de um verso já não é dado pela quantidade métrica, a vida civilizada depende, cada vez mais intensamente, de uma compreensão quantificada da realidade, seja esta qual for. Aceitando isto, poderemos dizer que a analogia, há muito intuída, entre verso e civilização falhou completamente. Ou então, uma possibilidade sempre atraente, pode-se afirmar que o verso livre se constituiu como uma profecia, acerca da nossa civilização, ainda não realizada, uma profecia que contém a ameaça do fim de uma vida dependente continuamente do cálculo e de uma interpretação quantitativa da realidade.

sábado, 15 de julho de 2017

A Flor Precária 11. A vida é um aquário de palavras

Autor desconhecido - Cleo de Merode, 1910

11. A vida é um aquário de palavras

A vida é um aquário de palavras.
Dentro dela, peixes, limos, pedaços
de mim a arder no fundo do teu corpo.

As palavras que te dei em Dezembro
trago-as nas águas deste aquário.
São tuas. E tuas, aquelas que invento
quando os sentidos se perdem em ti.

(A Flor Precária, 1979)

sexta-feira, 14 de julho de 2017

Da infância sem fim

Toni Schneiders - Fykesunds bru im Hardanger Fjord, 1959

A espécie humana é muito cansativa na sua previsibilidade. Basta dar um pouco de atenção a uma determinada personagem para que, sem grande surpresa, se consiga antecipar comportamentos. Fundamentalmente, os que são negativos. É preciso um certo refinamento para dissimular com eficiência o desejo de praticar o mal. E refinamento é coisa que está ao alcance de poucos. Para certas pessoas, a ânsia da maldade é tão grande que não conseguem deixar de semear sinais e pistas por todo o lado. E o mais interessante é que o fazem com uma infantilidade quase comovente. O que não é de todo um prejuízo para os outros. Seria bem mais grave que à propensão para o mal se aliasse a maturidade. Por norma, essas pequenas personagens maldosas que cirandam por aí são imaturas, uma espécie de crianças perdidas num mundo cheio de ameaças imaginárias, ameaças nascidas da sua incapacidade de crescer e tornar-se adulto. Ora a quantidade de adultos que, na verdade, nunca cresceram é desanimadoramente muito maior do que se pode pensar. A ideia kantiana de que o Iluminismo é a saída do Homem da menoridade choca com essa realidade. Nem as mais intensas luzes da razão têm o poder de fazer amadurecer parte significativa do género humano, de fazê-la atravessar a ponte que liga a infância ao estado adulto.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Declínio

Paul Huet - O abismo, paisagem (1861)

A notícia de que defensores ambientais estão a ser mortos ao ritmo mais elevado de sempre (ver aqui) é sintomática de que uma luta decisiva está acontecer. O que está em jogo nesse conflito é a possibilidade ou não de, num futuro próximo, haver vida humana sobre a Terra. A incompreensão que uma parte da humanidade ostenta relativamente à degradação ambiental e aos limites do planeta é um sinal de podemos estar a aproximarmo-nos do fim. Este fim não será já o resultado do declínio do Ocidente, segundo a profecia de Oswald Spengler, mas do declínio global da responsabilidade ética do humanidade. O abismo parece atrair, de forma cada vez mais decisiva, a humanidade e, dentro desta, os mais poderosos.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Alma Pátria - 29: João Villaret - Cântico Negro (José Régio)



Hoje a Alma Pátria sai dos caminhos da canção e entra nos da declamação poética. A rádio in illo tempore passava poesia (hoje, penso que só a Antena 2 o faz). Recordo Villaret e também Manuel Lereno. João Villaret morre em 1961. Se olharmos para a capa do disco "João Villaret no São Luís" há qualquer coisa que é inconcebível. Em plena ditadura, um actor consegue encher um teatro apenas para ser ouvido a declamar poesia. Mais, esse mesmo actor tinha um programa semanal na RTP, de larga audiência, onde dizia os grandes poetas. Esse mundo acabou. Ainda David Mourão-Ferreira e Mário Viegas tiveram programas do género, mas tudo isso está definitivamente morto, no contexto cultural pós-moderno em que vivemos. A poesia tornou-se um assunto esotérico, onde os que escrevem se lêem uns aos outros, quando se lêem. No vídeo, um poema de José Régio, um poema que li muitas vezes e que ouvi também muitas vezes declamado pelo meu colega de escola e amigo Luís Filipe Pisco. Dizia-o bem, muito bem.

terça-feira, 11 de julho de 2017

A desmedida


Volto a um dos meus temas políticos preferidos, o da educação do homem político. A raiz de toda a educação do candidato a homem político deveria ser a tragédia grega. Ela forneceria ao aspirante a político a possibilidade de uma meditação sobre os limites do homem e da sua acção. O resto - aquilo que hoje em dia parece ser fundamental - é mera informação e treino nas artimanhas dos jogos partidários. A tragédia tem o papel de nos dar a ver as consequências da desmedida (hübris). A némesis, a vingança dos deuses - isto é, da realidade - não deixará de ocorrer sempre que a desmedida se faz sentir na acção política.

Veja-se o caso do governo de António Costa e a desmedida - o optimismo e o contentamento exibido como uma humilhação dos adversários - com que ele se vinha comportando nos últimos tempos. A humildade que deveria ser a tónica de um governo assente num partido que perdeu as eleições e numa coligação inabitual foi, com os resultados do campo da economia, sendo substituída pela irresistível tentação de gerir a res publica como se o governo fosse constituído por heróis divinos acima dos mortais. A vingança dos deuses não se fez esperar e mostrou que a política não é só economia. Um fogo terrível, um roubo caricato e umas contas a ajustar com a justiça tornaram de imediato patente a natureza humana - demasiado humana e demasiado portuguesa - do governo.

Quer os políticos o creiam ou não, nada há pior para a sua carreira do que a desmedida. Muitas vezes, a hübris parece ser uma condição necessária para atingir os objectivos e triunfar sobre a concorrência. Na verdade, é uma artimanha para perder o herói. Sabemos também que a virtude da humildade não é coisa que tente os egos inflacionados daqueles que se dedicam à vida política. O contacto com o poder retira-lhes o discernimento dos seus limites e leva-os, como se isso fosse a coisa mais natural, a desafiar os deuses - isto é, a realidade. A factura muitas vezes não se faz esperar e mostra que os encargos de tal ousadia não compensam o prazer de se sentir deus por alguns instantes.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

A Flor Precária 10. Anoiteceu

Adolf Rossi - Towards a end of a day, 1950’s

10. Anoiteceu

Anoiteceu.

E a casa é uma sombra
de silêncio
no lago da noite.

(A Flor Precária, 1979)

domingo, 9 de julho de 2017

Fantasmas

Nicanor Piñole - Escuchando la radio

O pintor post-impressionista asturiano Nicanor Piñole (1878-1978) fez uma série de desenhos sobre o fenómeno da escuta do rádio. O que me prendeu a atenção foi o sentido arqueológico destes desenhos. Mostram o momento em que as famílias passam de comunidades de indivíduos a locais de convívio de solidões. A comunhão de um destino começa a dar lugar ao ensimesmamento. Solicitados pela voz vinda de fora, as pessoas acabam por reforçar a sua singularidade num processo de contínua estranhamento relativamente aos que lhe são próximos. Como todos sabemos, o processo foi-se intensificando com a televisão e, hoje em dia, com a internet e as redes sociais. O discurso que vem de fora torna-se uma muralha que separa cada um do seu próximo. A destruição das relações de proximidade dentro da própria família foi um passo decisivo para que a ideia de próximo, tal como emergiu no discurso de Cristo, começasse a perder sentido. O que está próximo já não é um ser humano, mas o fantasma trazido pela mediação de um qualquer dispositivo tecnológico.

sábado, 8 de julho de 2017

A concubina infiel

Arkady Shaikhet - Express train, USSR (1939)

Para onde se dirige, tão soberbo e ufano, o comboio expresso soviético? A fotografia de Arkady Shaikhet é um hino à ideologia dominante na URSS de então. Quem conhece um pouco da história dos séculos XIX e XX é levado a pensar, num primeiro momento, que o expresso se dirige para o futuro. O comboio que vemos não é um comboio mas um deus, Hermes ou, na versão romana, Mercúrio, que corre para cumprir a sua missão de mensageiro e anunciar ao mundo e ao futuro o triunfo do progresso, que há-de chegar envolto em fumo e metalomecânica pesada. No entanto, se olharmos a data da fotografia percebemos de imediato que o comboio apenas se precipita em direcção à segunda guerra mundial e à morte. A história é uma concubina infiel que nunca deixa de trair aqueles que a amam.