quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Diário de um banhista - XIII (epílogo)

Pablo Picasso - Bañistas en la playa de la Garoupe (1957)

Não há bem que não acabe, nem mal que sempre dure. É com esta referência à cultura popular e ao são senso comum que me despeço deste diário, querido diário, que me tem acompanhado nestes dias de exílio, nesta peregrinação ao santuário de Posídon. Dirá o leitor, o eventual leitor, corrijo, que o provérbio não esclarece se esta estadia é, por mim, banhista, considerada um bem ou um mal, um exílio ou uma peregrinação. É o que sempre digo: o mal dos provérbios é a sua tendência ora para o oracular ora a contradição lógica. Seja como for, e com pesar meu, deixarei a interpretação em aberto.

Estas meditações não pretendem a glória dos tratados filosóficos. Por isso mesmo, não quero condicionar a leitura destas aventuras e impor uma significação unívoca. Estamos no domínio da polissemia das palavras e da plurivocidade dos textos. Expostas ao público estas aventuras, cada um que as interprete como quiser ou como puder. Nelas encontrará vasta matéria para meditação sobre a natureza dos homens e do mundo e, se for mais aberto ao domínio do esotérico, certamente irá passar longas horas em busca da chave cabalística que se oculta no emaranhado destas pobres narrativas. Para ajudar os amantes do esotérico deixo uma pista. Treze são os dias deste diário. Os que forem dados à numerologia terão um vasto campo de trabalho.

Saiba, porém, que hoje, o último dia desta aventura, e isto não é despiciendo para a tal chave acima referida, decidi passar a manhã na praia, a passear para cá e para lá, a sentir a areia sob os pés, a ver os mais afoitos dentro de água. Para quê, perguntar-me-ão. Para nada, respondo. O banhista ideal, ao contrário do banhista real e empírico, é perfeitamente destituído de qualquer interesse e finalidade. Faz o que faz e nada mais há a acrescentar. E eu sou, como ficou vastamente documentado nas páginas deste diário, um banhista ideal, a ideia de banhista. Trago comigo a imutabilidade e a eternidade da minha condição.

Olho para o mar e o que vejo eu? Gente a esforçar-se para ser banhista. Correm, mergulham, nadam, chapinham na água, gritam… Para quê e porquê? Porque não são verdadeiros banhistas. Esforçam-se para parecer ser aquilo que não são. É este um dos grandes pecados da humanidade. Querer ser o que não é. Eu olho-os e, confesso, sinto um desdém olímpico. Eu não preciso de parecer. Eu sou o banhista, embora não ponha um pé na água. E se o ponho na areia é apenas por condescendência, para que todos possam ver a distância que há entre mim, a ideia de banhista, e eles, os pobres banhistas empíricos. Chega, porém, de surfar a filosofia do infeliz Platão. É a hora!

Resta-me, agora, arrumar as malas, despedir-me da criançada, que tem mais que fazer do que aturar banhistas em fase de pré-senilidade, e adeus oceano tenebroso, o vasto mundo, a terra firme e o calor sufocante esperam por mim. Ite, Missa est. (averomundo, 2007/08/13)

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Rumores de Maio - 10. Fogo

Felix Vallotton - Sem título (1917)

10. Fogo

O fogo ateia
a noite na cinza
dos pinhais
no restolho
dos dedos
na onda ébria
derramada
pela caruma furtiva
do silêncio e da casa

(Rumores de Maio, 1977)

segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Diário de um banhista - XII

George Seurat - Seated Bather (1883-84)

Começo com uma máxima filosófica: o mal sempre vem. Se tivesse nascido na Grécia, há 2700 anos, seria hoje lembrado como um dos sete sábios, que seriam então oito. Não nos desviemos, porém, do essencial. Este é o diário de um banhista. Hoje, domingo, ocorreu o que temia na semana passada. Regra da casa: ao domingo, ninguém põe pé na praia, seja esta qual for. O que aconteceu, hoje, domingo, que tanta acidez me causa? Foi declarado dia de excepção. Por que motivo, Senhor, fizeste tão inconstantes as tuas criaturas? Tudo para a praia; a criançada banhante na vanguarda solar. Criançada quer dizer aqui: gente entre os 20 e os 27 anos. Mas quem será fiel às regras expressas para regulação da comunidade? No dia em que as regras não forem cumpridas por ninguém ainda serão regras? E poderá uma comunidade, pequena que seja, viver sem regras? Não, não, mil vezes não. Consola-me a imagem de Sócrates – não o glorioso engenheiro que nos pastoreia – a recusar infringir a lei de Atenas e pôr-se ao fresco, aceitando, corajoso e intrépido, a cicuta que o haveria de levar.

Eu, o banhista por antonomásia, decido abdicar do meu prazer da areia, dos escaldões solares, da gratificante companhia dos milhares e milhares de seres humanos que vêm exibir para a praia a sua humanidade, abdico, repito-me, da excelência da sua companhia nas águas onde mergulho. Decido, reafirmo, num gesto de puro altruísmo, sacrificar-me pelos valores comunitários, pelas regras, sem as quais não há excepções. Vão sem mim, digo, com um ar pesaroso e compungido, como se tivesse acabado de sair de um confessionário. Tenho pena de não os acompanhar, faço notar, mas fico por aqui a garantir o cumprimento zeloso das regras, a dar o exemplo que os mais novos, quando forem mais velhos e perceberem o alcance do gesto, reterão e transmitirão à sua descendência, se a tiverem. A esperança é a última coisa a morrer, dizem.

Abandonado por todos, sem esperança de uma sardinhada dominical, condenado a uma refeição frugal, o fiel banhista aqui está perante o computador a cumprir a sua missão: narrar a sua gesta, contar aos outros os seus feitos, propagar ao mundo a sua epopeia nas praias de Portugal. É um fresco épico o que o meu ego me pede, um fresco que cale as navegações de gregos e de troianos, até de lusitanos. Sinto-me já o novo Camões anunciado pelo Pessoa. Suave é a carícia das ninfas e o vento da inspiração. Tremo ao tocar no teclado, ao ver os meus dedos a deslizar suavemente pelas teclas, à espera que grandes palavras desçam pelos filamentos do meu ser e arrastem os dedos para a glória literária.

Mas o que resta a quem fica só? A memória, a doce mas infiel memória. A recordação das aventuras tidas, dos banhos tomados, dos mergulhos dados, das bolas-de-berlim tragadas. A única coisa que posso fazer é desfolhar o glorioso livro da minha estadia a banhos e dar a conhecer os extraordinários episódios onde, nestes dias, se revelou a minha essência de banhista. Um problema, porém, assedia a minha razão. Será que vale a pena repetir-me? Não será este diário, fiel acompanhante e confidente querido, a expressão mais viva dessas aventuras? Não será este diário prova suficiente da minha gesta à beira-mar? Medito longamente na ideia de me repetir e concluo a meditação com uma dolorosa questão: valerá a pena fazer como as pessoas já entradas na idade e repetir-me até não mais poderem ouvir-me?

Tomo, mais uma vez, uma decisão. Para quem é tão indeciso, a média de decisões por dia não deixa de espantar. Não, penso com os meus botões, vou poupar o leitor aos meus acessos temporãos de senilidade e calar-me. Desde que deixei de ir à missa e ao futebol, o domingo sempre foi um dia triste, salpicado de angústia. Remeto-me ao silêncio. Nele, conforta-me o espaço espiritual onde a minha memória, a doce memória destes dias bem-aventurados, vai consolar-me. Sim, a rememoração sempre foi a mais doce das consolações. É ela, caro leitor e cara leitora (sucumbir à novilíngua, que assegura a mais verrumante igualdade de género, foi uma outra decisão terrível), é ela que vai ser o analgésico para a dor de tanto abandono e de tanta traição. Rememorar as glórias destes dias é o que resta a um velho abandonado, num domingo sem igreja nem campo de futebol. É duro ser um fiel banhista. (averomundo, 2007/08/12)

domingo, 28 de agosto de 2016

Economia, ecologia e política


Viver de créditos tornou-se a essência das nossas sociedades. Isso é verdade no domínio da economia. O crédito é aquilo que permite que esta continue a rolar. Não é, todavia, desse crédito que quero falar. É outro crédito. No passado dia 8 de Agosto atingimos o limite do uso sustentável de recursos naturais disponíveis para este ano. Isto significa que consumimos 60% acima da nossa biocapacidade. Desde esse dia que estamos a viver de uma espécie de crédito da natureza. O Banco Mundial, por seu lado, afirma que, a manterem-se os actuais níveis de consumo e se a população atingir os 9,6 mil milhões em 2050, como está previsto, serão necessários quase três planetas terra para dispensar os recursos necessários.

Estes dados tornam patente a existência de um conflito entre duas racionalidades ligadas à nossa casa comum. Um conflito entre a racionalidade da economia e a racionalidade da ecologia. Vale a pena olhar para a etimologia destes dois vocábulos. Neste caso, a wikipedia basta. O termo economia vem do grego οικονομία (de οἶκος, translit. oikos, 'casa' + νόμος , translit. nomos, 'costume ou lei', ou também 'gerir, administrar': daí "regras da casa" ou "administração doméstica").  A palavra [ecologia] tem origem no grego "oikos", que significa casa, e "logos", estudo.

Tanto a economia como a ecologia têm na sua raiz o termo oikos (casa). A ecologia, porém, toma como seu objecto referencial o próprio oikos, a casa, enquanto a economia preocupa-se com as regras daquilo que se passa dentro da casa. Dito de outra maneira, a ecologia preocupa-se com a Terra e a economia com os interesses daqueles que vivem na Terra. A partir da primeira revolução industrial (séculos XVIII-XIX) começou a esboçar-se um conflito entre estas duas racionalidades. O interesse dos habitantes da casa – isto é, o abismo infinito do seu desejo – entrou em conflito com as potencialidades dessa mesma casa. Em resumo, enquanto a racionalidade económica exige mais consumo para gerar mais riqueza e, assim, responder ao sem fim dos nossos desejos, a racionalidade ecológica exige de nós austeridade e o fim de viver de créditos da natureza, isto é, de dilapidar os recursos naturais.

Temos alguma coisa a aprender com os antigos gregos, com aqueles de quem herdámos as raízes  dos vocábulos economia e ecologia? O que podem eles ensinar-nos? Podem ensinar uma coisa que, com o triunfo do liberalismo, estamos prestes a esquecer. A importância da política e, concomitantemente, do Estado. Entregar a resolução deste problema ao mercado, à sua livre iniciativa, representaria o triunfo da racionalidade económica sobre a racionalidade ecológica, o triunfo do princípio de prazer, consubstanciado no consumo, sobre o princípio de realidade, que exige de nós a contenção dos nossos desejos e uma virtude austera nos nossos consumos. Aristóteles, logo no início da sua Política, sublinha enfaticamente que governar a pólis não é a mesma coisa que governar o oikos. A política está acima da economia e é de outra natureza.


A partir do século XX, o Estado – com a sua máquina de violência legítima – não é apenas necessário para evitar que atinjamos os direitos naturais dos outros, a sua vida, a sua liberdade, a sua integridade e a sua propriedade, ou para assegurar as regras do jogo do mercado. Para que a espécie humana subsista, o Estado é chamado a arbitrar o conflito entre a racionalidade económica e a racionalidade ecológica. Se os Estados cederem ao canto de sereia dos interesses daqueles que habitam a Terra, se submeterem a lógica política à racionalidade económica, então os Estados e a própria política abandonam a missão que a espécie humana, há muito, lhes deu: assegurar a persistência da espécie na Terra ao longo do tempo. Hoje em dia, a política não é apenas necessária para proteger os homens uns dos outros ou das ameaças da natureza. Ela é também necessária para assegurar que a casa comum, o planeta Terra, seja ainda uma casa habitada e habitável nos próximos séculos.

sábado, 27 de agosto de 2016

Diário de um banhista - XI

Lisa Milroy - Beach (1993)

Recordo que O Diário de um banhista foi escrito em 2007, para evitar alguns ataques cardíacos com certas referências do texto.

No outro dia fiquei chocado. Então, não é que os inspectores da ASAE apreenderam 400, ou terão sido 4000?, Bolas-de-Berlim fresquinhas, daquelas mesmo boas para comer em pleno tempo de banhos. Esta preocupação com a saúde pública parece-me uma manobra das capitais escandinavas para aniquilaram as vantagens competitivas de Portugal. Não percebem que tudo isto é uma forma de indústria caseira, diria mesmo que é o nosso verdadeiro artesanato. Depois da alheira de Mirandela, dos múltiplos salpicões, dos chouriços e dos chourições, agora até Bola-de-Berlim está a ser alvo das arbitrariedades dos inspectores a soldo do governo, que por sua vez contemporiza com as pretensões daquela malta esbranquiçada, educada, ecológica e liofilizada, que habita as regiões do norte deste continente que viu nascer o glorioso banhista que eu sou.

Note-se que não quero aqui denegrir a imagem do nosso primeiro-ministro e acusá-lo de ser agente infiltrado das potências nórdicas adeptas da liofilização geral. Não, saliento apenas que o seu espírito pós-moderno, habitado pela epopeia da sociedade do conhecimento e pelo sonho – verdadeiro desígnio pátrio – do choque tecnológico, não o habilita a compreender o desvelo com que nós, portugueses ignaros, amamos os riscos provenientes da manufactura caseira de alimentos. Que interessam as salmonelas, se as bolas são uma arte caseira, feita com as mãos sujas, mas patrióticas, que fazem um bolo plenamente nacional, apesar daquela funesta referência a Berlim? São capazes de me explicar?

É um facto que sou um banhista. Mais, sou o verdadeiro banhista, aquele onde a essência de banhista coincide com a sua própria existência. Mas isso não quer dizer que não seja patriota e não ame aquilo que todos nós portugueses – deixem-me falar no plural – amamos. Solidário com o Portugal autêntico, levemente desgostado com a deriva tecnicizante do Engenheiro, ao levantar-me hoje, eu que sou por natureza indeciso, tomei uma decisão: nada de praia, vou realizar a minha vocação de banhista para outro lado.

E lá fui em demanda do Santo Graal. Entrava e saía, à socapa, de cafés e pastelarias até que chego ao Templo e entro no Santo dos Santos. Era ali que terminava a dorida busca do cálice com o sangue de Cristo. Miro a vitrina, salivo, sinto o coração a palpitar. Uma Bola-de-Berlim, digo em voz de comando. A rapariga não se amedronta com o meu vociferar, sorri, indulgente, quase cativante, e retruque: com ou sem creme? Sorrio também. Sinto-me em casa, no meu Portugal, nada naquela rapariga simples do povo me faz lembrar o Engenheiro Sócrates. Talvez o buço, se o Engenheiro o deixasse crescer, mas não nos desviemos. Com creme, minha amiga – respondo a fazer-me já íntimo –, com creme, que eu sou banhista. Ela não deixou de sorrir e serviu-me uma enorme bola a abarrotar de creme, esplendidamente banhada em óleo – quantas bolas, ó doces bolas, não terá aquele óleo fritado antes desta que irá morrer nas minhas vísceras e contribuir assim para a untuosidade geral do meu querido Portugal.

Ser banhista é mais do que tomar banho, ser banhista é comer Bolas-de-Berlim com creme, ser banhista é ser português sem os desvarios tecnológicos dos engenheiros e dos inspectores que nos engenham e inspectam a cada momento. A ASAE, o governo, o próprio Engenheiro, que fiquem sabendo: resistiremos, não passarão. Que vão para a Finlândia que os deu à luz (como vêem, sou um banhista educado), nós continuaremos com as nossas bolas no sítio que é o delas. (averomundo, 2007/08/11)

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

Olhar a realidade


A minha crónica no Jornal Torrejano.

Agosto está a terminar, a vida política vai voltar à ribalta. No centro das preocupações e debates vai estar o orçamento de Estado para 2017. Nada indica que a actual maioria de apoio ao governo se desentenda e dê origem a uma crise política. Há, todavia, qualquer coisa que merece ser pensada. Tem a ver com a origem da própria maioria. Não é um problema de legitimidade ou de moralidade. O governo não é apenas legítimo como é moralmente aceitável, pois depende da vontade da maioria dos portugueses. O problema está em que esta maioria é meramente defensiva. Foi construída para evitar a galopante ofensiva social e económica, trazida pela governação de direita, contra  grande parte da população.

Suster essa ofensiva é virtuoso, mas corre-se o risco de ser insuficiente, muito insuficiente. O problema é que o país parece não conseguir acordar do torpor em que mergulhou com a crise do défice. Apesar de alguns dados positivos, o desenvolvimento da economia é anémico. Não é apenas esta anemia que é motivo de preocupação. É a sensação de que se está perante uma gestão ad-hoc e não uma visão global que torne claro para onde, nas actuais circunstâncias, se pretende levar o país. Está tudo à espera que o tempo passe para que se possa voltar às relações políticas antes da actual experiência governativa. Uns governam (o PS e/ou a direita), outros são de oposição eterna (PC e, agora menos, o BE).

O provável, todavia, é que se trate de um equívoco, que não haja retorno possível ao passado. Isto significa que a esquerda tem de ser mais do que uma força defensiva. Ela tem uma responsabilidade não só perante os seus eleitores como perante o país. A esquerda tem de dar respostas efectivas tanto à anemia económica como à organização do Estado. Tem que se comprometer com o futuro do país. Nas basta repor as 35 horas e os salários na função pública ou fazer um conjunto de patetices sem nexo na educação. São precisas respostas e essas respostas têm de ser dadas no quadro institucional em que nos movemos. Como é que, tendo em conta os compromissos europeus do país e a sua situação económica, se pode dar um rumo diferente daquele que a direita deu e pretende dar? Esta questão divide os diversos partidos da esquerda, mas será melhor que cheguem a um acordo sensato (traduzido na presença de todos no governo), antes que os eleitores mudem de humor e entreguem de novo a governação à direita. É tempo da esquerda olhar a realidade.

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Rumores de Maio - 9. Trémula evidência

Dante Gabriel Rossetti - La bella Mano (1875)


9. Trémula evidência

E no ventre das palavras
no rumor dos vocábulos
arrastadas pela rua
havia faúlhas de água
a âncora soprada
na evidência trémula
desenhada no trevo
febril dos teus lábios.

(Rumores de Maio, 1977)

quarta-feira, 24 de agosto de 2016

Paraísos artificiais

Maurice Denis - Paradise (1912)

A relação do romance moderno, aquele que começa – se é que se pode falar de começos em arte – com o Quixote de Cervantes, com o mito da queda e a consequente expulsão do paraíso parece-me um elemento central para compreender a literatura romanesca, como escrevi em tempos (ver aqui). Não vou retomar a argumentação desse post, mas falar de uma outra faceta do romance, embora ligada a esta. Trata-se do romance ter também a função de destruir os paraísos artificiais que o desejo humano erige como ilusão consoladora do sentimento de abandono sobre a terra. O romance, nesse trabalho de destruição, torna patente que o paraíso não é o lugar do homem nesta vida.

Dois autores, muito diferentes, lidos nas férias ajudam a perceber essa função. Ivan Chmeliov, Sol dos Mortos (Relógio de Água), torna patente que o início da aventura comunista sobre o planeta não era o início da construção do paraíso terrestre, mas a construção sistemática e impiedosa de um inferno inaudito, mais um. O terror bolchevique e uma fome devastadora, ambos vistos a partir da Crimeia, são o preço da ilusão da construção de paraísos sobre a terra. A utopia paradisíaca é mostrada, numa estranha linguagem poética – uma poiesis da morte, dir-se-ia – na sua essência infernal, isto é, humana, demasiado humana.

O segundo autor, uma autora, escreve romances policiais. Tempo de férias, li três policiais (A Princesa do Gelo; Gritos do Passado; Teias de Cinza, todos da D. Quixote) da escritora sueca Camilla Lackberg. Estamos já distantes de Chmeliov. A sociedade sueca está muito longe daquilo que foram as sociedades comunistas. Contudo, em parte do Ocidente – com muita incidência em Portugal –, foi-se construindo uma imagem quase paradisíaca das sociedades escandinavas, com a Suécia à cabeça. Não encontramos ali o terror massivo descrito por Chmeliov, mas descobrimos um quotidiano onde as pessoas estão muito longe de parecer habitantes do paraíso. Sente-se que a velha educação protestante, por muito que tenha contribuído para formar bons cidadãos, está longe de ser capaz de formar boas pessoas. Consciências atormentadas pela retórica protestante, vistas pelos romances policiais de Camilla Lackberg, não são melhores do que as consciências católicas facilmente aliviadas pelo expediente da confissão. A sociedade sueca que a autora nos mostra está muito longe dos paraísos que a nossa preguiça desenha como forma de ilusão.

O romance não tem a função de defender visões ideológicas do mundo e das sociedades humanas. Mas ele não é indiferente à ideologia. Pelo contrário, ele tem um poder de desmontagem e desconstrução daquilo que a ideologia tenta vender para conforto dos seus defensores e consolo dos seres humanos em geral. E aquilo que a ideologia tenta sempre vender é um inferno disfarçado de paraíso. De certa maneira, Marx tinha razão. A ideologia é uma imagem invertida da realidade, mas isso inclui também aquela que se construiu sobre o seu pensamento. Também ele via uma imagem invertida do real. O romance tem a vantagem de não ter ilusões. Todas as imagens do real são imagens invertidas e, por isso, sujeitas a tornarem-se ideologia e a serem desmontadas pela arte romanesca, sem que o romance tenha alguma coisa a propor em substituição daquilo que destruiu.

terça-feira, 23 de agosto de 2016

Diário de um banhista - X

Kazemir Malevich - Bather (1911)

Confortado na certeza de ser o único e verdadeiro banhista, recusei-me hoje a pôr o pé na praia, não vá ele inchar ou tomar-se de urticária. Quem precisar de mostrar que é um banhista que vá a banhos, eu fico-me pela esplanada a enxotar moscas, a ler jornais, a beber cafés e a rodar a cadeira para fugir ao sol. Olho o mar e começo a contar os dias que faltam para, contristado, deixar o lugar idílico a que chamam praia, lugar que o calendário deste mundo infeliz me impõe com a regularidade das estações.

Nem uma aventura, mesmo metafísica, tenho para contar hoje neste pobre diário. Estes tempos fritam-me os neurónios, esfriam-me a coragem, e pouco mais consigo fazer do que balbuciar algumas palavras e deslocar-me, entre as sombras mortais que me rodeiam, com o ar desgastado de quem a vida abusou com trabalhos e sofrimentos, lutas e canseiras. Um banhista, mesmo da estirpe dos imortais como eu, não é de ferro. Estou cansado e, como o divino Ulisses, sonho com o regresso à pátria, que o malfadado Posídon não permite. Suspiro, se oiço o vozear das águas a bater nas areias. Quando chegarei a Ítaca, à minha doce ilha, pedaço de terra rodeada de calor por todos os lados?

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Livro do Êxodo - 22. Tempo de caça

Annibale Carracci - Caza (1595)

Havia restos de caçadas pelo chão, animais em despojos assim frios, o sangue a aflorar a pele contaminada pelo nada, o futuro, sempre tão ávido, o trouxera. Os olhos, agora tão vidrados, escondiam-se nas órbitas e pouco naquelas naturezas mortas, tão pouco natureza e já tão mortas, lembrava o gesto febril com que do destino fugiam, cegos e surdos ao devir, para a ele se entregarem. Para os temíveis caçadores, eram dias de júbilo, na cerca se viviam. As árvores tapavam de sombra as terras e o calor, se aquecia num tempo inóspito, recuava movido pela inquietação das fatigadas folhas ao vento.

As mulheres, em passos de veludo e pensamentos inexplicáveis, levitavam e as saias, pois saias as vestiam, subiam-lhes à cabeça. As pernas brancas, brancas e tão desarmadas, despiam-se perante olhares atónitos, e as mãos acorriam como se socorressem marinheiros dizimados por ondas e naufrágios. Não abandoneis a casa rodeada pela cerca, disseste, pois estrangeiros fostes na terra e agora o que vos cabe é a espera da noite, o tempo atroz, as flores precárias que desenharão na pedra, entre animais tombados pela caça eterna, sinais de luz, uma rosa desfolhada, as nuvens que à lua agasalham, o pano que ao pão, em cesta de vime, esconde.

Foi um tempo de triunfo, a amarga morte só aos animais coubera e de todos os que na viagem tomaram lugar, a nenhum a parca foi pelos deuses, sempre solícitos, arremessada. Quando a tarde descaiu em direcção às trevas, as vozes entoaram salmos e cânticos heróicos, os imortais dias de glória haviam tecido, banhados pela espuma que da folhagem verde das árvores caía. Carne na carne se fundia e das mulheres suspiros da boca se desprendiam. Um desbaratado exército, pela aurora, à vertigem da manhã se entregou, as armaduras desfeitas, as armas pelo chão e no sítio das cabeças a vivaz luz da solidão.

domingo, 21 de agosto de 2016

Diário de um banhista - IX

Paul Cézanne - Bathers at Rest (1875-76)

Chegado a mais um dia de estadia na praia questiono-me: serei um verdadeiro banhista? Terei o direito de escrever este diário? Esta interrogação não cai do céu aos trambolhões, não. Pelo contrário, há motivos empíricos que sustentam o dilema que me assoberba a razão. Quando tudo estava preparado para rumar em direcção à praia, não é que uma súbita angústia se apossa de mim e me faz dizer: vão, vão, sem mim. Cá os espero. E lá foram e eu fiquei dividido entre as cartas de Schiller e uma ida ao café. Acabei por escolher uma esplanada sobre o mar, onde li duas cartas sobre a educação estética da humanidade, bebi uma italiana – em sentido figurado, note-se – e olhei as águas do mar em profunda meditação metafísica.

Foi perante esta inclinação para fugir a sete pés da areia que o meu espírito se interrogou sobre a minha verdade enquanto banhista. Será que sou um banhista? Em desespero, recorri ao dicionário, o da Porto-Editora, passe a publicidade, e encontrei as seguintes definições de banhista: “1. pessoa que toma banho no mar, no rio, ou em piscinas; 2. pessoa em tratamento em local de águas medicinais”. Como se poderá ver pelas definições dadas, senti-me vítima de exclusão. Então eu que não estou em tratamento num local de águas medicinais, nem tomo banho no mar, no rio, ou em piscinas, nem sequer em albufeiras nem em lagos ou lagoas, não tenho direito ao nome de banhista?

Terei de suportar, neste mundo pós-moderno, séculos e séculos de preconceitos fundados na discriminação social e na divisão classista? A revolução francesa não trouxe a igualdade? Não foi para que todos fôssemos banhistas que se cortaram tantas cabeças? Terão sido em vão tantos sacrifícios? Pobre Maria Antonieta, infeliz Robespierre. Nesta profunda angústia existencial, duvidando da minha própria essência de banhista, decido mergulhar mais fundo no dicionário e fazer uma pesquisa em «banho».

Aleluia, aleluia, eis a boa­-nova. Depois de cinco definições literais, denotativas, de banho, surge uma primeira definição figurada. A conotação salvar-me-á, pensei. Banho é “a acção de se impregnar de ou mergulhar em”. Quando vi «impregnar de», desconfiei. Nada de «impregnanços» e ainda por cima equívocos: impregnar de… Meus Deus, de que se impregnarão as pessoas que se impregnam de…? Mas este equívoco, insuportável quando se utiliza o vocábulo «impregnar», tem um carácter salvífico se aplicado a mergulhar em… Esta abertura de sentido mostra, afinal, que eu, aquele que não mergulha em mares, rios, piscinas, lagos, albufeiras e poços, posso (desculpem a cacofonia) ainda assim mergulhar em… e ostentar o glorioso epíteto de banhista.

A meditação leva-me mais longe e revela-me a essência da verdade. Enquanto todos os outros são banhistas de mar, ou de rio, ou de lagoa, ou do quer que seja, eu que não sou banhista de nada em particular, sou um banhista em geral. Pobres banhistas do mundo empírico, enroladas na materialidade das águas, o que sois vós, sombras, ao pé de mim? Eu sou o verdadeiro banhista, a essência de banhista reside em mim, como para Platão a essência do mundo sensível residia no mundo das ideias. Ora se eu sou não um banhista particular e empírico subjugado às especificidades e limitações sensíveis, mas a ideia veraz e imutável de banhista, então não há qualquer razão para a minha angústia. Estou salvo e este diário, de cuja legitimidade eu começava a desconfiar, encontra-se não só justificado de facto, mas também de direito. Ó pobres mortais, vós de banhistas apenas sois a sombra, enquanto eu, aquele que mergulha em…, é o único banhista digno desse nome. Mergulhem onde vos aprouver, que eu mesmo no café já estou imerso em… e nunca deixo, onde quer que esteja, de ser o banhista que sou. A angústia que de mim se apossou é apenas o sentimento de desprazer daquele que sabe o que é a verdade e se vê confrontado com as sombras ilusórias daquilo a que os pobres mortais, de pensamento errante, chamam realidade. Ora, passem bem. (averomundo, 2007/08/07)

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

Diário de um banhista - VIII

Jean Puy - Plage à Bénodet (1904)

Decisão e coragem são virtudes maiores de um banhista. A mim, porém, são qualidades que me falecem mal enfrento as águas. Saudoso de aventuras marítimas lá me dirigi para uma das muitas praias que por aqui há. Sugeri que fôssemos a outra, mais habitual. Sou um conservador, claro. Perdi a votação. Muito vento, foi o que ouvi como justificação. Parece que aqui se vive numa democracia argumentativa, com direito a justificação das opções e tudo. Lá fomos, armados de chapéu-de-sol, toalhas, cremes contra os ultravioletas e um livro que escondi entre o atoalhado.

Um banhista que não viva numa barraca tem de aliar à decisão e à coragem a perspicácia geográfica de um fundador de colónias. Como os antigos gregos, que saíam da sua cidade natal e iam para a Anatólia ou para a Sicília em busca de território livre e, quando o encontravam, aí fundavam uma nova cidade, colónia da primeira e protegida pelos deuses desta, também os banhistas de chapéu-de-sol e toalha têm de espiar o território, descobrir clareiras, apossar-se com determinação de cada palmo de terreno, delimitar uns metros quadrados, se os houver, de areia, erguer um altar, fazer uma hecatombe, e depois…

Bom, depois, mesmo que não haja necessidade de uma oposição determinada a novos colonizadores, é preciso vigiar as fronteiras e exibir o poderio da nova colónia. Como? Erguendo acrópoles de lona defendidas por muralhas de atoalhados turcos coloridos para ofuscar o adversário. Há quem use corta-ventos, mas faço parte de uma geração apostada em novas formas de defesa, mais imateriais e fundadas na vigilância electrónica e no uso de informação via satélite. Se tivesse propensão para filósofo, seria um novo Bentham, inventaria um panóptico digital. Adoro planos tecnológicos.

Colónia fundada e defendida, dá-se início à função. Os colonizadores cansados da longa viagem começam a despir-se e exibem-se em roupa interior, com o estranho nome de fato-de-banho, como se alguém precisasse de um fato quando toma banho. Esfregam-se com cremes, esticam os peitos, verificam a consistência dos músculos, se são do sexo masculino acomodam aquilo que os faz ser o que são, se são do feminino tentam tapar os pêlos que sempre crescem onde não devem e que as fazem parecer o que não são. Depois, desatam a correr para a água, os mais decididos, ou avançam lentamente, os timoratos. É o que acontece comigo. Mal a água me cobre os pés, sinto uma dor como se os ossos se partissem.

É aqui que a decisão e a coragem se mostram as virtudes maiores de um banhista. Respiro fundo, olho o sol e tomo uma decisão: para a Acrópole e já. Tenho a coragem inaudita de fugir.  Debaixo do chapéu-de-sol, observo o movimento do universo, o ir e vir das águas, oiço a restolhadas das crianças e o ganir dos cães de companhia, a maior parte nas respectivas acrópoles, enquanto os seus donos se espojam areia fora. Abro o livro, ponho os óculos de leitura e mergulho nas páginas batidas pelas areias trazidas pelo vento suave. Amanhã levarei tampões para os ouvidos. Para ler, preciso de silêncio.

Cansados de praia, desfazemos a colónia, guardamos nos sacos os deuses e voltamos à terra pátria. Um banhista não passa de um Sísifo. (averomundo, 2007/08/08)

Rumores de Maio - 8. Luz de Maio

Odilon Redon - Porto na Bretanha

8. Luz de Maio

A brancura da névoa
uma escuridão
na luz de Maio
um sonho sonâmbulo
erguido ao vento
a saudade de um barco
ao partir do cais.

(Rumores de Maio, 1977)

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Um árduo caminho


A proibição do uso de burkinis em algumas praias francesas, bem como o apoio que o primei-ministro Manuel Valls tem dado às decisões dos presidentes de câmara, torna evidente que a Europa – a França em particular – está perante um problema de enorme complexidade. Esta complexidade deriva de um choque entre duas visões culturais sobre o que é o comportamento adequado na vida social. O choque, todavia, não fica por aí, pois a situação leva a um conflito no interior dos próprios valores ocidentais. O caso dos burkinis é interessante porque torna a posição das autoridades francesas muito frágil, se se tiver um conta os próprios padrões ocidentais, e mostra bem que estamos numa situação onde não há soluções pré-fabricadas e prontas a aplicar.

Vale a pena ler a argumentação transcrita de Valls para perceber que ela omite duas questões essenciais. A primeira diz respeito ao facto de poderem existir mulheres que, sem qualquer coacção externa, queiram adoptar, por um acto livre, esse tipo de vestuário. Em segundo lugar, o uso do burkini não significa que as usuárias estejam a infringir o secularismo do Estado. Um Estado secular não implica que as pessoas não possuam crenças religiosas e que, em sociedade, se comportem em conformidade com as suas crenças, desde que essas pessoas não interfiram na liberdade das outras.

A França perante o problema posto pela presença do Islão poderia lidar com ele de dois pontos de vista. Valorizar a liberdade negativa. Cada um vive como entende, desde que não infrinja a liberdade de terceiros. Isto significaria valorizar o indivíduo e os seus direitos e liberdades. Significaria ainda que o Estado deveria punir todos os actos que atentassem contra essa liberdade negativa, incluindo aqueles que se passam nas comunidades e famílias muçulmanas. Isso exigiria pôr de lado o multiculturalismo e, acima de tudo, um longo e exaustivo trabalho policial, talvez impossível de realizar.

A França optou por manter-se fiel à sua tradição. Evoca a virtude republicana: o uso do burkini como da burka “não é compatível com os valores da França e da República”. E acrescenta Valls que “a República deve defender-se”. O problema é que as autoridades francesas agem segundo o princípio da suspeita. Suspeitam, como o diz a ministra para os direitos das mulheres, que se pretende “esconder os corpos das mulheres para que possam ser controlados”. Esta é a velha tradição que vem da época do Terror, da Revolução Francesa. Perante a suspeita da falta de virtude republicana, os jacobinos entretinham-se a decapitar pessoas. Hoje a França é civilizada, não usa a guilhotina, mas o princípio da virtude republicana é o mesmo, como é o mesmo o princípio de condenação, a mera suspeita.

Com isto não me estou a tornar advogado dos adeptos dos burkini e das burkas. Estou a mostrar que se chegou a uma situação paradoxal: para defendermos os nossos valores atacamos um dos nossos valores essenciais e raiz de todos os outros, a liberdade. Se permitirmos a liberdade de cada um vestir o que entende, uma parte dos cidadãos – as mulheres muçulmanas que não querem de livre vontade usar este tipo de indumentária – pode ser coagida a fazê-lo por familiares ou pela comunidade onde se insere, pois a República é virtuosa mas não tem meios para fazer cumprir a lei. Se se proíbe certo tipo de indumentária sem que ela ponha causa a liberdade a segurança de terceiros, então não respeitamos a própria liberdade. Seja qual for a solução adoptada, os valores ocidentais perdem sempre.

Esta situação remete-nos para o paradoxo do multiculturalismo referido em crónica de António Guerreiro, no Público. Stanley Fish defende que o “multiculturalismo é uma impossibilidade lógica”. A explicação pode ler-se no texto de António Guerreiro (para ler a argumentação de Fish ir para a jstor). O que me interessa sublinhar, porém, é o perigo que tudo isto representa. O perigo deriva da incapacidade da razão encontrar um caminho para a resolução destas situações de conflito cultural.  O paradoxo revelado por Stanley Fish mostra-nos um limite da razão. Quando a razão falha – e mesmo quando, por vezes, não falha – a saída para os problemas na vida em sociedade torna-se irracional, isto é, comprometida por emoções e sentimentos, os quais facilmente conduzem à violência.

Na actual situação, há todo um trabalho de pensamento - encontrar uma saída para o paradoxo - a fazer para evitar que as sementes de violência, já lançadas, não brotem vigorosas da terra. O que está a ser testado, em todo este processo, é a pretensão à universalidade dos princípios que o Ocidente tem sido porta-voz e a capacidade de encontrar um caminho para partilhá-los. Neste momento, a França enredou-se de tal modo que as soluções que adopta são aquelas que reforçam a posição identitária dos muçulmanos. O problema é de difícil solução. Nem a tarefa teórica nem a tarefa prática parecem fáceis, antes pelo contrário. A situação mostra que o caminho que está pela frente é árduo, muito árduo e de resolução intrincada, se a tiver. O pior, porém, que pode acontecer é entregar o assunto ao sentimento e à emoção, venham estes disfarçados de ideologia multicultural ou de devaneios identitários. É preciso pensar para agir. Fundamentalmente, é preciso não deixar que princípios e valores universais da razão se deixem arrastar, por inabilidade ou por impotência, para o particularismo identitário.

terça-feira, 16 de agosto de 2016

Diário de um banhista - VII

Eugene Louis Boudin - A praia de Trouville (1864)

Aviso: Caro leitor, tenha a bondade de reparar que o texto é de 2007 e que, portanto, não está a ter nenhum pesadelo com o retorno do engenheiro Sócrates como chefe do governo. Nem tudo é assim tão mau na vida.

Apesar da temperatura por aqui ter subido, continua a nortada. Olho a praia sentado numa esplanada, vejo veraneantes infelizes a segurar chapéus, a correr atrás disto e daquilo, a areia a borbulhar. O vento a tudo empurra, isto para escapar ao inevitável o vento tudo levou. As águas ainda estão bravias, a bandeira mais encarnada que a camisola do glorioso, imagino que saiba a quem me estou a referir. Mais um dia de glória, mais um dia sem pôr pé na areia. Como mortal, este triste banhista submete-se aos imperativos do corpo. Há que satisfazer os impulsos homeostáticos. Triste sorte a dos humanos. E lá me desloco ao hipermercado, que não é assim tão hiper, mas enfim, se temos de comer…

Foi assim que me vi mergulhado num mar de pessoas, a ulular em torno de prateleiras e bancas, os olhos vorazes e as mãos como garras a encher cestos e carros, numa orgia de sacos de plástico, dinheiro de plástico, chinelos de plástico, com sonhos de comida de plástico. Alumiou-se então o cérebro e percebi, nesse instante, o sorriso de plástico do nosso primeiro-ministro, o venerando e atlético Eng.º Sócrates. Numa democracia de sacos de plástico, num povo cada vez mais plastificado, quem melhor, para dirigir a plastificação geral, do que um engenheiro de plástico?

Vem uma pessoa a banhos para descansar das fadigas do ano e, sem qualquer meditação filosófica, acaba por descobrir, só por olhar, a essência da nação. Portugal é um país de plástico. O plástico é aquilo que faz com a pátria seja aquilo que ela é. Espero que tenham compreendido. Um dia até a água e a areia serão de plástico. É o plano tecnológico, cheio de inovações e projectos para desenvolver a paróquia. Haja engenheiros, pensei, enquanto passava o cartão de plástico no terminal da caixa. Recolho ao lar, extasiado pela descoberta, e oiço, ao fundo, o bater das ondas e o sopro do vento. Éolo continua indisposto, Posídon não está melhor. Não há plástico que sempre dure, penso comigo, mas sem grandes certezas. É duro ser um banhista numa pátria de marinheiros. Melhores dias virão. (averomundo, 2007/08/07)

J. D. Salinger, À Espera no Centeio


À Espera no Centeio (The Catcher in the Rye, 1951) é o romance mais conhecido de J. D. Salinger. Segundo a Time Magazine é a quarta obra mais interditada (presumo que pelas escolas) dos EUA. É lida como uma incursão no universo da adolescência. A adolescência é usada, porém, pelo autor como um dispositivo para contrapor a inocência da infância ao niilismo e à falsidade da vida adulta. A adolescência tem essa capacidade por dois motivos centrais. Por um lado, ela encontra-se na fronteira entre esses dois mundos. Por outro, pela a sua própria natureza, a adolescência, enquanto discurso, tem uma capacidade hiperbólica que permite, ao exagerar certas características, percebê-las na sua real natureza.

O romance narra-nos três dias da vida de Holden Caulfield, um adolescente de dezasseis anos que acaba de ser expulso, antes do Natal, de Pencey, um colégio frequentado pelos filhos de famílias pertencentes à elite norte-americana. Ao saber da sua expulsão, já a quarta no seu historial, o herói e narrador decide fugir do colégio antes de os pais serem informados. Vai para Nova Iorque, onde a família vive, mas começa por hospedar-se num hotel até que, por influência da sua irmã, ainda uma criança, volta para casa. Estes três dias são um confronto com a realidade da vida adulta e a permanente falsificação da existência que esta representa. O essencial, porém, é o olhar e o discurso do jovem Caulfield sobre esse mundo adulto.

O olhar é servido por uma linguagem hiperbólica que mistura o calão, os lugares-comuns da linguagem dos adolescentes e juízos que emanam de uma contínua generalização precipitada para configurar a vida falsificada dos adultos. A linguagem usada pelo teenager é central, não tanto como caracterização de uma juventude rebelde, embora o livro seja visto como um dos indutores da contracultura dos anos 50 e 60 do século passado, mas porque ela permite, na sua crueza e quase contra-senso, caracterizar a sociedade americana, onde, por exemplo, adultos discorrem longamente sobre quantos quilómetros conseguiram andar com um litro de gasolina. É a linguagem do adolescente que permite perceber o niilismo que se esconde na fachada falsa da vida adulta, uma vida marcada pelo logro, pela batota, por regras infringidas, pela manutenção das aparências. A hipérbole é a lente que dá a ver aquilo que o senso comum esconde.

O romance de Salinger não se limita a tornar patente o niilismo e a vida falsa da elite norte-americana, e, por extensão, da elite de qualquer parte do mundo. O romance retrata também, com a mesma linguagem e precisão, a fonte de onde brota esse niilismo e essa vida falsificada, os colégios privados frequentados pelos filhos-família. Estes colégios, com a artificialidade das suas regras e das suas tradições, com os jogos de subserviência e sobrevivência dos adultos que os dirigem e neles ensinam, são verdadeiras escolas de falsificação existencial. Olhar para o Pencey de Salinger permite-nos perceber como a educação escolar é uma das fontes do niilismo contemporâneo, tanto mais refinado quanto mais a instituição se dirige aos que estão mais acima na escala social.

O desprezo – na verdade, quase um ódio declarado – ao cinema por parte de Holden Caulfield, expresso directamente ou na crítica mordaz que ele faz ao irmão mais velho, um escritor que se foi prostituir, segundo o protagonista, para Hollywood ao escrever para cinema, é um elemento central na denúncia do niilismo e da falsificação da vida presentes na sociedade americana. Na verdade, é o cinema que populariza, entre as grandes massas, o modo de vida das elites. O niilismo e a falsificação existencial brotam dos grandes colégios e são disseminados pelo cinema, todo ele falsificação do real, pura montagem, onde aquilo que parece real não passa de artifício e fabricação.

A adolescência, porém, é um lugar de fronteira. Ela permite olhar, de forma hiperbólica, para dois países, o da idade adulta, que está mesmo à porta, e o da infância que acabou de se deixar. O que atormenta o protagonista é essa perda da inocência. Há no romance dois momentos simbólicos nessa luta pela preservação da inocência. Não da sua, mas a inocência dos que ainda não entraram na adolescência. Quando vai à escola ter com a irmã e se depara com vários foda-se grafitados nas paredes da própria escola, que ele tenta desesperadamente apagar, até que desiste, pois seria impossível apagar todos os grafitos semelhantes existentes no mundo. O segundo momento é aquele que dá o título ao livro. Instado pela irmã sobre o que queria mesmo fazer na vida, Holden Caulfield acaba por afirmar que queria estar num campo de centeio à beira de um abismo, no qual brincassem crianças. O seu papel seria de apanhar aquelas que poderiam cair no abismo. O campo de centeio é o locus da inocência, o abismo é o vazio que, através da queda, conduz à perdição do niilismo, da superficialidade e da falsificação da idade adulta.

A adolescência emerge assim como um posto de observação sobre o paraíso da infância e o mundo após a queda, o mundo da vida adulta. Ela, porém, não é apenas um ponto de observação ou uma fronteira. É ainda um lugar de enunciação. Ela é o lugar de um logos muito específico, um logos  que ainda não foi dominado pelas estratégias retóricas da persuasão. Com The Catcher in the Rye percebemos que a adolescência é, fundamentalmente, linguagem, enunciação, discurso, mas tudo isso no seu estado puro, como se a linguagem nascesse nesse momento na espécie humana, com tudo o que ela pode ter de terno e de selvagem, isto é, com tudo o que há de hiperbólico no acto da fala.


J. D. Salinger (2011). À Espera no Centeio. Lisboa: Quetzal Editores.

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Diário de um banhista - VI

Georges Lemmen - Beach at Heist (1891-92)

Frívolo banhista, quem te manda a ti tentar os deuses? Mal sabes tu que eles concedem aos mortais aquilo que estes mendigam. Então, não foste tu que ontem falaste em tempo cinzento, aragens frescas, ventos a cortar a face? Então, toma, aí o tens. Hoje levantei-me decidido a cumprir o meu estatuto de banhista, homem que corta as ondas, lobo-do-mar. Feitas as abluções matinais, tomado o pequeno-almoço, logo exclamei: para a praia. Olharam-me com comiseração. Vi estampado nas faces um juízo irónico sobre a minha sanidade mental, mas ninguém disse o que quer que fosse. Se é para ir à praia, então toca a andar. E lá se foi…

O pior foi sair do carro. Uma nortada das antigas. Não cortava a face, não. Cortava o corpo todo, varria os banhistas da praia, levantava ondas de areia, acastelava as águas, semeava um reboliço que mais parecia um terreiro de feira corrido a varapau. Agora, vamos, sussurraram-me. Gaguejo, conto aquela história do anúncio da Sagres – ao mar, ao mar, ao mar; ao bar, ao bar, ao bar – mas ninguém acha graça. Para a praia, para a praia, exclamam, isto não é o Moledo, sugerem-me. A humanidade tem destas coisas.

Como quem paga uma promessa, ou como se fôssemos um cortejo de penitentes, lá marchámos em direcção ao santuário. Bandeira encarnada, alguns surfistas e uma solidão maior que o mundo. Está frio, comento. Olham-me com desprezo. Acrescento: ao menos vamos a casa vestir umas calças e uns corta-ventos. Sorriem. Qual o quê? Toca a marchar e lá me levam a dar uma volta pela ventania, até que alguém exclama: já chega. Chegou. Sinto risos nas minhas costas, olhares malévolos, desconfio de um pacto com Éolo. Gosto de vento, mas o vento norte podia ser menos frio e cortante, concedo. Amanhã, a saga do banhista continua, se tiver mesmo de ser… Que os deuses me protejam. (averomundo, 2007/08/06)