terça-feira, 24 de janeiro de 2017

Parado no tempo

Fátima (Agosto de 1939)

Esta fotografia de Fátima retrata o país nos dias que antecederam a início da segunda guerra mundial. O centro da Europa caminhava a passos largos para a grande tragédia, Portugal parecia, porém, resguardado no tempo. A maneira como as mulheres se vestiam denotava uma sociedade vergada ao peso da terra, dependente do trabalho dos campos. Repare-se na forma como os corpos se encontram completamente cobertos em pleno Agosto. Em 1939 nem todo o país era tão bucólico e tão paroquial, mas grande parte tinha essas características. Aquilo que vemos nesta fotografia não é uma excepção, mas uma síntese de uma sociedade fechada, muito pouco cosmopolita, onde o peso do arcaico era já, naquele tempo, excessivo. O pior é que tendo nascido bem depois de 1939 ainda conheci uma parte, não negligenciável, de Portugal assim. Negro, coberto de roupa, temeroso do corpo e arcaico, um Portugal que parecia parado no tempo do Absolutismo.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

As novas eras

Paul Delvaux - A idade de ferro (1951)

A cada seis meses é proclamada a entrada numa nova era, a ruptura com o que aconteceu até aí, o anúncio de que nada será como antes. Isto mostra não apenas a impaciência profunda que tomou conta dos fazedores de opinião como o tédio que se apoderou de uma massa informe da população educada pela televisão. A vida e as suas metamorfoses são entendidas num misto de telenovela e de reality show, na qual os consumidores – é esta de facto a designação que se deve dar à população de hoje – exigem continuamente novidades. Sublinhe-se que estas novas eras semestrais, digamos assim, não nascem nem de um espírito profético nem, tão pouco, apocalíptico. Têm a sua origem no culto do entretenimento que a tudo domina e naquela ignorância estrutural que impede a compreensão daquele versículo do Eclesiastes (1:9) que diz: O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que nada há de novo debaixo do sol.

domingo, 22 de janeiro de 2017

Cinza de Pedra - 14. Olho-te dentro

Paula Modersohn-Becker - Self-Portrait with Amber Necklace (1906)

14. Olho-te dentro

Olho-te dentro
do poço dos olhos.
E tudo treme
e estremece
na muralha de luz,
a pedra aberta
à mudez cantante
da dor de Dezembro.

(Cinza de pedra, 1978)

sábado, 21 de janeiro de 2017

Descrições fenomenológicas 19. Nas águas-furtadas

José Balmes - El Alba camino a Quilicura (1994)

A luz esbranquiçada e vibrante de uma manhã ensolarada de inverno entrava pela pequena janela das águas-furtadas, caía sobre a cama, fazendo reverberar a brancura da coberta, ao mesmo tempo que confirmava a suspeita de que ali a vida era se não pobre pelo menos frugal, quase o resultado de uma prolongada ascese. As paredes pintadas de azul cobalto, há muito salitradas, entristeciam perante a cavalgada ébria das valquírias solares. Ostentavam o efeito do tempo sobre a matéria, o desenrolar da corrupção que se instala em tudo e, sem condescendência no julgamento, anuncia o inevitável fim. O tecto inclinado, como o de todas as mansardas, composto, para esconder o telhado, por frágeis ripas de madeira castanha, segurava um fio eléctrico, hirto e amarelado pelo tempo, de onde pendia uma lâmpada nua, então apagada. Ao lado da cama, em desconcerto com o que se observava, havia uma belíssima cadeira de mogno com assento em palhinha, talvez a recordação de uma outra vida ou o resultado de um acaso. Parecia conjugar as funções originais com as de cabide e de mesa de cabeceira. Um livro de capas alaranjadas repousava ali. Das suas costas, pendia, indolente, um casaco de senhora. No meio do compartimento tão escassamente mobilado, um homem, de barba e cabelos acastanhados, vestido com uma camisa azul clara e umas calças antracite, envolvia com os braços uma mulher, com uma longa saia vermelha e uma blusa branca. As mãos dele, firmes e determinadas, seguravam-na pela cintura e puxavam-na para si, como se quisesse fundir-se naquele corpo, tão plástico e maleável se tocado pelos imperativos da volúpia. Os braços dela, uns belos braços magros e esguios, despidos, envolviam-no pelo pescoço, respondiam em contraponto aos dele, num esforço concertante que nunca deixa de fazer sorrir o improvável espectador. Beijavam-se iluminados pela luz do sol de Inverno, um beijo longo, ansioso, a anunciar um tumulto tão em contradição com o ambiente quase monacal daquele lugar. Os seios dela, avolumados sob a roupa, espalmavam-se contra o peito do homem, enquanto as bocas se sorviam, obedecendo a uma necessidade que nunca deixa de lado o poder do artifício, para se mostrar como inédita e livre, e, nesse ardil desenhado por eros ou pelo engenho da vida, transfigurar em glória aquilo que é vulgar e determinado pela ordem das coisas.  O silêncio do lugar conspirava contra o segredo, pois um segredo sempre existe numas águas-furtadas, já que deixava escutar as respirações entrecortadas, a incerta harmonia de suspiros e murmúrios, a grande corrente de ar do desejo, que crescia à medida que o sol matinal desbotava afrontado pelas primeiras nuvens que carregavam em si os sinais violáceos, quase negros e terríveis, da grande tempestade prestes a desencadear-se.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

O amigo americano

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Há em certos sectores políticos portugueses, de direita e de esquerda, de forma mais ou menos velada, a expectativa de qua a acção de Donald Trump acabe, paradoxalmente, por ser benéfica. Vale a pena, por isso, pensar aquilo que veio a lume na recente entrevista dada pelo novo presidente norte-americano aos jornais Times e Bild. Refiro-me aos ataques à NATO e à União Europeia (UE). Quando um presidente americano vem dizer que a NATO está obsoleta e que mais países vão sair da União Europeia está a criar, deliberadamente, uma situação tão melindrosa quanto perigosa. Imaginemos – e nada nos diz que não vá ser assim – que a NATO desaparece e que a UE  se desintegra. Será que nós portugueses teremos razões para festejar?

Apesar da experiência negativa do euro – em parte da nossa responsabilidade e em parte das regras do euro – a ligação de Portugal à UE é central para a viabilidade económica e política do país. Podemos imaginar o que seria Portugal sem a adesão à União. Foi ela que nos permitiu fugir de uma miséria atávica e termos, apesar de tudo, um país onde não é mau viver. Sem essa adesão, não seriam só as auto-estradas que não existiriam. O sistema de saúde seria irrisório e o educativo continuaria confinado a uma minoria. Talvez tivéssemos um conjunto de indústrias obsoletas a viver de mão-de-obra ainda mais mal paga do que a actual. Estaríamos confinados a uma tira periférica da Península Ibérica, fechados, paroquiais e muito mais pobres do que somos.


Desgraça maior seria, contudo, o fim da NATO. A pertença a esta organização militar é a salvaguarda da nossa independência e o factor determinante da segurança de Portugal e dos portugueses. Portugal não tem apenas uma fronteira com Espanha. Tem uma a Sul com o mundo árabe. E as convulsões no Norte de África, caso a NATO desapareça, tornar-se-iam de imediato uma ameaça, ainda maior, à Europa do Sul, logo a Portugal. Se a NATO acabar e os EUA desistirem da Europa como espaço de cooperação e defesa comum, só podemos esperar o pior. Se se assistir a um efeito cumulativo, desintegração da UE e fim da NATO, o cenário então pode ser infernal. Cresceriam as possibilidades de conflitos intra-europeus e as ameaças vindas de fora elevar-se-iam exponencialmente. Em poucas décadas poderemos passar da zona mais rica e civilizada do planeta para o caos e a pobreza generalizados. Se é isto que queremos, compreendo certas expectativas na acção de Trump. Se não é, o melhor é ficarmos muito preocupados e exigir que os líderes europeus encontrem uma resposta a estes problemas. Acabou a confiança no amigo americano.

quinta-feira, 19 de janeiro de 2017

A política sem política

Brice Marden - Grove Group, I (1973)

Salazar. Esse nome, essas letras, quasi deixaram de pertencer a um homem para significar o estado de espírito dum País, na sua ânsia de regeneração, na sua aspiração legítima de uma política sem política, de uma política de verdade. (António Ferro)

Para além do encómio ao professor Salazar, a citação de António Ferro tem a virtude de manifestar um dos elementos estruturais dos estados autoritários, a política sem política. E a política sem política é assim tida como a verdadeira política. O que significa a política sem política? Significa a ausência de confronto entre perspectivas políticas adversariais, a negação da concorrência pela ocupação do poder. A política sem política é aquela que concentra o poder na mão de um homem, ou de um grupo, e que exclui todos os outros.

A citação de António Ferro tem ainda uma outra virtude. Esta política sem política mais do que uma imposição é uma aspiração da comunidade, a qual legitima a ditadura e a exclusão da concorrência pelo exercício do poder. Isto revela uma dificuldade dos portugueses: suportar a tensão que a concorrência entre perspectivas diferentes impõe, suportar o conflito e a contradição trazida pelo facto de se existir. E isto não desapareceu com o regime democrático. Dois exemplos sintomáticos tornam claro que essa política sem política continua a habitar o imaginário dos portugueses.

O primeiro exemplo provém de Cavaco Silva. Sempre tentou mostrar-se para além da classe política, ser um político que não era político, que tinha uma política sem política. E esta posição foi quase sempre acolhida em delírio pelos portugueses que o tornaram o político mais vitorioso do regime democrático. E não se pense que a posição de Cavaco Silva era meramente estratégica. Não era. Ele acreditava nisso. Acreditava que havia só uma política verdadeira e daí aquela ideia da necessidade de um grande acordo, pois havendo um claro conhecimento da situação, facilmente se perceberia a solução única a aplicar.

O segundo exemplo é a forma como as pessoas mais empenhadas no debate político o encaram. Não o vêem como o exercício de posições diferentes e meramente relativas sobre a governação. Pelo contrário, encaram-no como a afirmação de verdades absolutas que, infelizmente, ainda não eliminaram o contraditório e a possibilidade do outro ter um ponto de vista diferente. O que se assiste, na verdade, não é a uma afirmação radical do pluralismo, mas ao confronto de projectos que cada um deles, em última instância, visa instaurar a política sem política.

Para acentuar a gravidade de tudo isto, a política sem política corresponde, ao nível da economia, à livre concorrência sem concorrência ou à inovação sem inovação. Corresponde ao nível das instituições no recrutamento de quadros imparcial sem imparcialidade ou aos compromissos sem compromisso. A política sem política, tão louvada por António Ferro, não é mais do que o processo pelo qual nós portugueses nos tornamos ausentes de tudo o que requer a nossa presença. É a forma como disfarçamos perante nós mesmos esse terrível fardo de existirmos.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2017

O equívoco revolucionário


A causa desta meditação sobre o conceito de revolução está não numa leitura política mas de um crítico literário italiano, Alfonso Berardinelli. Refere ele que a poesia italiana dos anos sessenta do século passado, com Pasolini à cabeça, era uma poesia marcada pelo compromisso com o devir histórico e com a revolução social emancipadora. No entanto, a poesia dos anos setenta, de setenta e cinco em diante, indicava que a ideia de revolução, na sua conexão com a poesia, começava a pertencer ao passado. A poesia ter-se-á libertado do fantasma histórico. Isso, porém, terá alguma conexão com a questão política? Tem e de uma forma surpreendente. O conceito de revolução como categoria política emancipadora das classes populares da tutela e da dominação burguesas, para usar uma expressão ao gosto revolucionário, ter-se-á mostrado completamente inadequado.

O destino das duas grandes revoluções ditas proletárias, ocorridas no século XX, são a prova dessa inadequação. A revolução soviética, a primeira grande experiência de um movimento revolucionário anti-burguês, redundou quase de imediato num sistema totalitário e, de seguida, num bisonho sistema burocrático-autoritário, até que colapsou com o estrondo que se conhece, dando lugar a um capitalismo selvagem fundado no autoritarismo. A segunda grande experiência revolucionária, a da China, depois de uma fase, na altura da grande revolução cultural proletária, de um totalitarismo delirante, converteu-se numa revolução burguesa, na qual o capitalismo, que era suposto eliminar, floresce e frutifica, sob o olhar atento do Partido Comunista Chinês. Não há, na história, um único exemplo de uma revolução anticapitalista vitoriosa.

Curiosamente, desde o século XVII, com a Gloriosa Revolução em Inglaterra, até ao século XX, passando pelas revoluções americana e francesa, do século XVIII, a história regista um conjunto de revoluções vitoriosas e que constituíram regimes políticos sólidos e persistentes no tempo. O que há de comum nessas revoluções vitoriosas é que elas são sempre a vitória do terceiro estado, a burguesia, e, do ponto de vista económico, abriram as portas para o desenvolvimento do capitalismo. O que a história nos tem mostrado, por muito que uma parte da esquerda se recuse a vê-lo, é que o fascínio de Marx com a revolução, fascínio esse que se liga ao seu fascínio pela economia liberal e pelo triunfo da burguesia, não lhe permitiu perceber, a ele e à esquerda que se reclama do seu pensamento, que a revolução era um conceito e um instrumento político pertencente ao terceiro estado, um instrumento ao serviço da formação das elites económicas e da consolidação do seu poder. Como instrumento político de emancipação popular, tal como o pretendiam Marx e os seus herdeiros, ele revelou-se completamente desadequado e com efeitos contrários à emancipação pretendida. Como instrumento de emancipação popular, a revolução mostrou-se um equívoco.

terça-feira, 17 de janeiro de 2017

Cinza de Pedra - 13. Língua naufragada

Lucio Fontana - Cocetto spaziale (1959)

13. Língua naufragada

Língua naufragada
na ilha da boca,
fruto de erva
perdido
no limbo cru
cerzido em silêncio.

(Cinza de pedra, 1978)

segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

Alma Pátria - 13: Carlos Ramos - Não Venhas Tarde



Não consegui encontrar a data de criação deste fado cantado por Carlos Ramos. Também não sei se a capa apresentada pertence à gravação original. Descobri apenas que ela diz respeito a um disco de 1964, um EP com o título Mas sou fadista. Carlos Ramos faz parte de um trio de vozes masculinas interessantes, que deviam estar no auge na altura em que nasci, em meados dos anos cinquenta. Para além de Ramos, refiro-me a Max e a Alfredo Marceneiro. Isto é uma cultura popular que me é radicalmente estranha. Este Não Venhas Tarde é um retrato social do país que então éramos. Não me refiro à infidelidade, pois essa é, como o amor, eterna. Refiro-me ao tipo de relação homem mulher subjacente ao texto. O homem cindido entre o puro amor e o desejo erótico, cada um deles representado por um tipo de mulher, como se a sua coincidência numa única fosse impossível. Esta ideologia – a da mulher pura, esposa e mãe, e a outra, a dos prazeres eróticos – era também subjacente ao regime político que se vivia na altura. Eros é um deus brincalhão de humor instável, o que não se coadunava com a imagem que o solitário presidente do Conselho gostava de vender para consumo público. Não estou a dizer que foi o regime que a produziu. Diria até o contrário: é este tipo de ideologia social que acaba por permitir e mesmo requerer o tipo de regime que se vivia então. Dito isto, repito, Carlos Ramos tinha uma voz assinalável.

domingo, 15 de janeiro de 2017

Pós-verdade

Francisco de Goya  - Murio la verdad

Com a eleição de Donald Trump - o corolário de um conjunto de eleições em que os que estão fora do sistema político tradicional nele irrompem estrídulos e ameaçadores - tornou-se um lugar comum verberar esta época maldita em que reina a pós-verdade. O vozear e os ecos que lhe respondem, como acontece muitas vezes, acabam por lançar um véu sobre o problema e, dessa maneira, evitam que ele seja pensado e compreendido na sua efectiva natureza. Passa-se a usar a expressão, neste caso pós-verdade, não como um conceito que pense alguma coisa, mas como um mero chavão ou slogan. Literalmente, pós-verdade significa aquilo que vem depois da verdade. Não se trata da mentira, mas de um registo que está para além do jogo entre verdade e mentira na vida política.

Antes de mais e para desfazer equívocos, convém sublinhar que a verdade não é uma virtude política em si mesma. Ela diz respeito aos sistemas cognitivos e não aos sistemas de poder. A verdade é usada pelos políticos conforme ela os aproxima ou afasta do poder. Se dizer a verdade os afasta do poder, então eles não o fazem. Mentem ou omitem, em conformidade com aquilo que lhes for estrategicamente mais favorável. Isto não significa, contudo, que a política estivesse desde sempre inscrita numa dimensão da pós-verdade. A verdade se não era uma virtude política, era, muitas vezes, uma exigência ou dos súbditos, caso tivessem força para o exigir, ou dos cidadãos, como nas actuais democracias representativas.

Há no século XX experiências políticas que poderíamos ser levados a pensar como estando já na pós-verdade. Os regimes totalitários tinham esse aspecto. Retomo, mais uma vez, a referência ao romance de Thomas Mann, Doutor Fausto. O narrador, Serenus Zeitblom, a dada altura, na época posterior ao fim da primeira guerra mundial, nos tempos em que o nazismo começava a germinar, descreve reuniões de intelectuais onde, explicitamente, se torna claro que a ciência, a verdade e a justiça estão ultrapassadas intelectual e politicamente. No seu lugar estaria a vontade orgânica do povo e o mito, os quais haveriam de redimir os alemães e fazê-los cumprir o seu destino de dominadores do mundo. Repare-se que, nesta perspectiva que abriu caminho para o terror nazi e uma nova guerra mundial, o desprezo da verdade ainda era argumentado. Apresentavam-se razões delirantes, é verdade, mas ainda assim razões. 

O que se passa hoje em dia não tem a ver nem com o habitual uso estratégico da verdade e da mentira por parte das elites políticas, nem, tão pouco, com a produção de uma mitologia nacional e étnica que substitua a justificação racional das decisões políticas por justificações mitológicas. Para compreendermos a ideia de pós-verdade, teremos de olhar para aquela que tem sido a forma de actuação política mais eficaz do presidente eleito dos EUA, o Twitter. Um tweet não oferece razões, mas exprime vontade, desejos, emoções ou sentimentos. Num tweet não há lugar para argumentos. Quando se usam argumentos é porque se considera necessário justificar opções. Essas precisam de ser confirmadas na sua verosimilhança através do uso da razão argumentativa. 

Ao utilizar o tweet como instrumento de acção política fundamental, Donald Trump está a deslocar a acção política da esfera da justificação para a esfera da expressão. Já não se trata de argumentar para convencer um auditório. Trata-se antes de exprimir um sentimento que encontra uma reverberação, através de um processo de empatia, nas pessoas. A pós-verdade é a situação onde a razão argumentativa colapsou na vida política. Os eleitores - ou uma parte considerável deles - não quer saber de razões nem de argumentos, pois não está interessado em saber se aquilo que é dito se adequa à realidade. A retórica não os interessa. Querem a comunhão dos sentimentos e a identificação empática com o líder. 

Note-se, porém, que não estamos, como aconteceu com o nazismo e o fascismo, perante a substituição da argumentação racional por uma mitologia que provenha da unidade orgânico de um povo. Estamos apenas na esfera do sentimento e do afecto, do encontro de um indivíduo com outros indivíduos, que estão perdidos num deserto social que eliminou a própria dimensão do povo. Indivíduos que fazem parte de uma massa que não se configura como povo. A pós-verdade de que se fala representa o triunfo do sentimento sobre a razão. Representa a derrota das estratégias filosóficas, científicas e retóricas perante a explosão expressiva de uma emoção, que se condensa num grito, que é isso o que é um tweet. Às pessoas não interessa se um grito é verdadeiro ou falso. Importa-lhes se esse grito se identifica com o grito que recalcam na zona mais sombria do coração.

sábado, 14 de janeiro de 2017

O longo braço da história

Paul Klee - Angelus Novus (1920)

Serenus Zeitblom, o narrador de Doutor Fausto, de Thomas Mann, quase no início do capítulo XXXIV, faz uma reflexão sobre a grande guerra de 1914-1918. Diz ele, um filólogo educado no mais estrito humanismo burguês, que tinha a sensação de ver o fim de uma era, que abrangia não só o século XIX, senão recuava até ao término da Idade Média, à ruptura dos entraves escolásticos, à emancipação do indivíduo, ao nascimento da liberdade. Thomas Mann tinha claramente a percepção da profundidade histórica, do longo braço da história. E este braço, cujos músculos nem sempre perdem vigor com o passar do tempo, antes pelo contrário, tem, muitas vezes, uma importância decisiva nos acontecimentos que nós vivemos no quotidiano e que a nossa ignorância, pressa e desatenção apenas nos permitem perceber os contornos que daquilo que nos afecta no momento, das dores do presente.

As querelas políticas que animam – e felizmente o fazem – o debate público na sociedade democrática, as opções dos vários quadrantes do jogo, as próprias avaliações que se vão fazendo, tudo isso assenta numa cegueira estrutural e numa desatenção à realidade mais funda que sustenta a vida vivida. A acção política – esse tricotar da história com as agulhas da paixão e o fio dos interesses – ocorre muitas vezes em terreno arenoso, pois, devido ao fulgor da actualidade, ela raramente tem consciência do longo braço da história, cuja força, sempre dissimulado, nos condiciona no presente. A ânsia dos que disputam o poder bem como a fé dos acólitos e a razão dos críticos sofrem, por sistema, dessa cegueira perante o apertado abraço com que a história envolve a actualidade.

Isto não significa que a consciência clara da existência de grandes condicionantes nascidas na história redima os agentes políticos das más opções ou que retire a glória que cabe às decisões benéficas para a comunidade. Significa apenas que todos – os agentes políticos, os acólitos e os avaliadores críticos da esfera pública – deverão ser um pouco mais cuidadosos no que pretendem, no fervor ideológico na defesa da sua seita e na escolha dos critérios com que se julgam homens e acções. A liberdade de acção, essa possibilidade de escolher caminhos perante os problemas com que uma comunidade se defronta, assenta as suas raízes num terreno, o passado, que, apesar da sua representação poder ser manipulada, é muito menos maleável do que aquilo que se gostaria. A cada momento e em cada decisão, quer o saibamos ou não, o longo braço da história não deixa de nos envolver e apertar, condicionando e limitando os nossos desejos e sonhos.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Descrições fenomenológicas 18. O espelho

Ben Nicholson - Hielo - casi azul (1960)

A luz amarela dá uma tonalidade dourada às paredes brancas e cai desamparada pelo chão onde é acolhida por enormes lajes brancas e vermelhas, dispostos em mosaico. Um hall grande e inóspito, também de paredes brancas, com barra púrpura, abre-se, lateralmente, para o corredor. Na parede em frente das portas escancaradas do vestíbulo há um espelho, emoldurado em mogno, onde se reflecte o rosto de uma mulher, de cabelos castanhos, os ombros ocultos por um vestido verde seco e um decote largo que revela, e logo dissimula, a curvatura dos seios. Está parada, como se uma indecisão a tivesse tomado e a paralisasse, na linha onde o corredor e o hall se juntam, uma fronteira bem delineada, o símbolo que demarca o caminho que leva à rua, ao espaço público, e o que dá acesso ao mundo familiar, no qual se dissimula a intimidade e os dramas, se não a comédia, da vida privada. A mulher, vestida até aos pés, tem na mão esquerda um cigarro que vai libertando o fumo que se evola em direcção ao tecto. O espelho deixa ver um rosto ainda belo, mas já marcado pela idade. Nele insinua-se o cansaço da noite, anunciando que a beleza não é eterna. Atrás dela, caminhando em sentido contrário, um homem, vestido com um longo sobretudo cinzento, segura debaixo do braço direito uma pasta de couro. Dirige-se para a rua. Os cabelos grisalhos deixam perceber que é mais velho do que a mulher. As costas encurvadas menos pela idade do que pelas preocupações que afloram no rosto, onde uma barba branca e rasa acentua a sensação de velhice, parecem suportar um peso excessivo para qualquer ser humano. Ao cruzarem-se, olham-se e trocam um cumprimento rápido, quase imperceptível. Ela continua estática, fascinada pelo espelho, mas não é certo que seja o seu reflexo que ali vê. Ouve-se uma porta, a da rua, bater, sem violência, enquanto a cinza se desprende do cigarro e cai desamparada no chão. Ela move um pé, mas fica onde está. A luz vinda do corredor banha-a e projecta-lhe a sombra na madeira escura da porta. Lá fora, ouve-se o ruído de um carro posto a trabalhar e, de imediato, o deslizar suave das rodas no asfalto. O silêncio voltou à casa e ela leva o cigarro à boca sem deixar de fitar o espelho.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Cinza de Pedra - 12. Alvoroço de lama

Albert Bierstadt - Atardecer en la pradera (1870)

12. Alvoroço de lama

Alvoroço de lama
na rédea do calor.
Rosas de chuva
descem no
ventre do desejo
e o visco
turvo da tarde
anuncia o
cavalo da escuridão.

(Cinza de pedra, 1978)

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

A questão colonial


Estes últimos dias, devido à morte de Mário Soares, foram assombrados, como não o eram há muito, pela questão colonial com os episódios da descolonização e das independências a serem relembrados. Como é hábito, sempre que a questão colonial é levantada, uma parte daqueles que tiveram de regressar de África toma o fundador do PS como bode expiatório da situação. Digo bode expiatório porque, factualmente (embora quando se interpreta a realidade através dos sentimentos os factos contem para muito pouco), a sua responsabilização é delirante. Vale a pena, até porque muitos portugueses não fazem a mínima ideia do que se está a falar quando se fala de colónias, de guerra colonial, de retornados, de descolonização, etc., vale a pena, repito, sublinhar, por isso, alguns pontos.

1. Em 1974, Portugal vivia em guerra há treze anos, um conflito onde os soldados portugueses se tinham de distribuir por três frentes: Angola, Moçambique e Guiné Bissau. O país estava completamente isolado na cena internacional. O próprio Vaticano tinha uma posição desfavorável relativamente às pretensões portuguesas. Não havia solução militar nem, tão pouco, uma solução política disponível. A perspectiva da guerra se prolongar sem fim à vista era real, embora a situação na Guiné Bissau estivesse praticamente perdida. Em Moçambique e em Angola, a situação era menos dramática para o exército português, mas uma guerra de guerrilhas, como a que existia, pode ser combatida mas não ganha, ainda por cima quando os movimentos guerrilheiros têm reconhecimento internacional e o apoio sistemático das grandes potências da época, como era o caso.

2. O 25 de Abril foi feito por militares. Uma das suas finalidades – a principal, diga-se – foi pôr termo à guerra. Dito de uma forma clara, os oficiais que participaram no movimento não queriam continuar a combater. Ainda por cima, os oficiais milicianos – aqueles que eram militares por incorporação obrigatória, mas que não pertenciam à carreira militar – tinham um grande peso e uma clara consciência, formada nas lutas universitárias, da situação político-militar. Perceberam que a situação não tinha qualquer saída a não ser o derrube do regime.  Se alguém foi responsável próximo da descolonização esse alguém é o Movimento das Forças Armadas, isto é, os militares. Os políticos da oposição eram, claramente, anti-coloniais, mas os militares nem sequer lhes pediram opinião. E os militares envolvidos já vincaram isso múltiplas vezes. Foram eles que impuseram a descolonização. Eram eles que, na verdade, tinham o poder. Uma coisa curiosa na transformação de Mário Soares em bode expiatório é que os políticos da direita na época não mexeram um dedo para defender uma solução diferente. Todos eles ficaram aliviados com o fim da guerra e com o processo de descolonização tal como correu.

3. Os portugueses que viviam na chamada metrópole revoltaram-se contra os militares que fizeram o 25 de Abril? Não. Fizeram uma grande festa, mas foi mesmo uma grande festa. Festa pela liberdade, mas, fundamentalmente, porque perceberam de imediato que a guerra ia acabar. Os portugueses que viviam em Portugal estavam cansados da guerra, estavam cansados de ver os rapazes partir para combater e festejaram com exuberância a aproximação do fim. Também é verdade que a generalidade dos rapazes que estavam incorporados – e aqueles que sentiam o aproximar do tempo da incorporação – sentiram um grande alívio. Também eles quiseram de todo o coração a descolonização. A seguir aos oficiais revoltosos, os grandes responsáveis pela descolonização são os portugueses. Não queriam ir combater ou não queriam ver os filhos partir para combater. A generalidade dos portugueses não queria saber das colónias para nada.

4. Dado o 25 de Abril, feito para pôr fim à guerra, dado o facto que, de imediato, as tropas no terreno, na sua maioria, se recusaram a continuar a combater e passaram mesmo a confraternizar com o inimigo, seria possível uma solução diferente daquela que aconteceu? Podemos continuar a especular até ao fim dos tempos, mas para qualquer outra solução – e não se sabe lá muito bem qual seria – era preciso uma coisa, e essa coisa nunca é claramente dita: era preciso que a guerra continuasse, que os nossos soldados continuassem a partir para África e a morrer por lá. Isto é, era preciso que tudo continuasse na mesma. Este facto é sempre ocultado nas diatribes contra a descolonização. E é preciso ser muito claro nisto. Para que todas as pessoas que tiveram de sair de África à pressa continuassem lá, era necessário continuar a combater e a morrer em combate. Sejamos também claros: na chamada metrópole, estavam todos fartos.

5. Há responsáveis políticos? Há mas não são aqueles a quem são apontadas as culpas. No início das guerras coloniais, em princípio dos anos sessenta do século passado, o Dr. Salazar já tinha informação suficiente para perceber que os impérios coloniais tinham os dias contados. As grande potências coloniais foram obrigadas a abandonar as suas colónias e reconhecer-lhes as independências. Podia ter, naquele momento, tentado encontrar um caminho mais negociado, uma transição mais tranquila. Ele percebeu, porém, que a guerra era a forma dele próprio sobreviver, numa altura em que as ditaduras tinham passado de moda e a Europa ocidental, com uma ou outra excepção, se democratizara, após a segunda guerra mundial. Tinha também tido a experiência dolorosa de ver um generalizado apoio à candidatura de Humberto Delgado. Assim, Salazar preferiu a guerra e lançou uma ridícula campanha ideológica, a qual certamente foi agradável para quem vivia nas colónias portuguesas – então, províncias ultramarinas – e que, durante muito tempo, foi recebida pacificamente pelos portugueses que viviam no continente. Salazar e, depois, Caetano não quiseram enfrentar a realidade e conduziram o país para uma guerra sem solução, a não ser aquela que aconteceu. E isso prolongou-se de tal maneira que militares e cidadãos em geral se cansaram. Na década de sessenta talvez fosse possível uma solução mais sensata, embora essa solução teria de passar sempre por uma transição do poder para as maiorias negras e para as suas elites incipientes. Culpar Soares, os políticos democráticos, os militares de Abril pode consolar o ânimo – bodes expiatórios são sempre consoladores –, mas tem pouco a ver com a realidade e esconde, na verdade, a existência de pretensões insustentáveis, isto é, que a guerra continuasse, que as pessoas fossem combater e morrer, por uma coisa que, na verdade, lhes era completamente estranha.

Espero ainda escrever um outro post sobre dois aspectos ligados à questão colonial. A boa integração dos portugueses provenientes das ex-colónias e o papel positivo e dinâmico que tiveram no tecido social português.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

A idade da ira

Oswaldo Guayasamín - Ira (1963-65)

A morte de Mário Soares tornou patente, devido à sua intensificação, um fenómeno com que nos deparamos no dia a dia. Há uma ira latente nas pessoas que se manifesta nas redes sociais e nas caixas de comentários dos órgãos de comunicação social online, ira essa que se mostra no insulto que se faz a coberto ou da distância ou do anonimato. E o caso Mário Soares nem é o mais sintomático, pois percebe-se que um conjunto de pessoas o ache culpado, apesar dessa culpabilização ser delirante, da expulsão do paraíso africano em que viviam. Ninguém gosta de ser expulso de um paraíso e precisa, para viver, de ter um bode expiatório. O problema, porém, é que este tipo de insultos, esta ira, não se dirige apenas a alguém que teve um papel político determinante na vida do país. O insulto é generalizado.

Qualquer artigo de opinião - seja escrito à direita ou à esquerda - dá lugar a uma série de comentários insultuosos ao seu autor e gera também uma disputa de grosserias entre os comentadores, numa lufa-lufa para ver quem consegue ser mais soez. E não se pense que isto se passa apenas na política. Se o assunto for o futebol, o padrão é exactamente o mesmo, muitas vezes ainda mais baixo, se tal for possível. Fora do futebol e da política, áreas de grandes paixões, o clima é mais ameno, mas só até certo ponto. Assim que um assunto, trivial que seja, gera conflito de opiniões, começam a chover insultos neste magnífico universo das redes sociais e das caixas de comentários.

Este fenómeno revela várias coisas. Em primeiro lugar, revela a tremenda falta de educação e de nobreza de atitude de muitos dos que se movem neste mundo digital. O insulto na ponta dos dedos ainda é mais fácil do que o insulto na ponta da língua. As redes sociais vieram tornar claro que este mundo não é habitado apenas por senhoras e cavalheiros, antes pelo contrário. Em segundo lugar, mostra também que a cultura do debate, da divergência de opinião, da tolerância de perspectivas diferentes, está longe, muito longe, de fazer parte dos nossos hábitos. Qualquer opinião divergente é sentida como uma ameaça pessoal, um perigo para a nossa identidade, o que desencadeia um chorrilho de impropérios e de insultos. Isto, porém e apesar da sua gravidade, não é o pior.

O pior é a degradação das práticas sociais que nos permitem viver uns com os outros de maneira civilizada e cordata. Tem-se a percepção de que, caso a situação social se desequilibre um pouco, o ódio que é veiculado nas redes sociais e nas caixas de comentários pode transbordar para a rua, para uma confrontação que ultrapasse as diferenças aceitáveis e os conflitos socialmente benéficos e permitidos. Aquilo que merece ser pensado é o grau de frustração social e pessoal que está por detrás de todos estes episódios, a diferença entre o que a realidade nos permite alcançar e aquilo que o desejo - um desejo continuamente atiçado e nunca possível de saciar - diz que cada um deve obter. A libertação do desejo - não foi o homem caracterizado como uma máquina desejante? - representa também a libertação da frustração, pois a realidade está muito longe de poder satisfazer esse desejo libertado. Daí um ódio cego e crescente a tudo o que é diferente de nós, a tudo o que frustra o nosso desejo. Daí que a idade do desejo libertado se transforma numa idade da ira.