sábado, 30 de junho de 2012

Tunísia, Egipto e a liberdade

Faten Gaddes - Punching Ball

Esta instalação da fotógrafa tunisina Faten Gaddes foi destruída, no dia 10 de junho, por uma multidão enfurecida de salafistas. Juntamente com esta instalação foram destruídas e queimadas outras obras de arte vistas como ofensivas da religião e do profeta. O sentimento que a intelectualidade vive, neste momento na Tunísia, é o do recuo diário da liberdade. O mesmo se irá passar, por certo, no Egipto, apesar das juras republicanas do novo presidente, Mohamed Morsi.

Aquando das chamadas primaveras árabes, o jornalismo ocidental viu a abertura de um novo mundo de liberdade. Este equívoco assenta tanto no desconhecimento completo da natureza do Islão como da própria história relativamente recente.

Em primeiro lugar, o Islão é a maior força política nestes países. Os dogmas da fé e os imperativos políticos confundem-se e, na tradição muçulmana, é difícil encontrar palavras idênticas às de Cristo, dai a Deus o que é de Deus e a César o que é de César. Para mais, as correntes islâmicas encontravam-se na oposição. Com a queda das ditaduras, mais ou menos alinhas com o Ocidente, não seriam os liberais ocidentalizados que iriam tomar o poder pelo voto popular.

Em segundo lugar, é preciso que os povos muçulmanos façam a experiência destas governações que escolheram. Este é o passo central para se confrontarem consigo mesmos e questionarem o seu ressentimento para com o Ocidente. Agora, não são governos mais ou menos fantoches, uma espécie de prolongamento nacionalista da ocupação ocidental, mas as forças escolhidas por cada um dos povos. O bem e o mal cabe-lhes a eles. 

Em terceiro lugar, esta experiência da liberdade pode conduzir, de imediato, não a um hábito democrático mas a novas formas de opressão, talvez mais terríveis do que as anteriores. Pode, porém, ser esse o preço a pagar para que os povos muçulmanos compreendam, no futuro, o valor inalienável da liberdade e do respeito pelo indivíduo. Não é claro, para mim, que isso seja assim. Mas sem o passo que agora se está a dar, sem a experiência das governações islamistas, nunca os povos árabes perceberão o efectivo valor da liberdade individual nem porão termo ao ressentimento anti-ocidental. O Islão possui poderosos recursos para a evitar regimes livres, tal como os entendemos. Contudo a experiência das suas governações pode ser o único caminho, um difícil e doloroso caminho, para essa liberdade. Imaginar que das primaveras árabes surgiriam regimes politicamente livres foi uma estultícia inominável.

Missa Pro Defunctis (XVI)

16. Agnus Dei

Chegado a terra, sem mapa para te orientares,
Murmuras um cântico, palavras sombrias,
A melodia seca, sem fogo ou nome,
O timbre de ferrugem,
A velha elegia dos dias santos de guarda:
Saías para as ruas e andavas perdido,
De casa em casa, soletrando a crueldade,
No esconso coração havia.

Falta-te a audácia desses dias.
Saltavas muros e incendiavas o restolho,
Deixavas a realidade vir pela porta,
E trancava-la em casa,
Espancando-a ao ritmo do coração,
Uma espiral de violência,
A breve reconciliação de rosas e nuvens,
O encontro de um caminho ao respirar.

Temível é amar alguém
que se subtrai à hora do amor,
E  te deixa em chamas, lacerado,
A gotejar pelo chão,
Enquanto as moscas voam
e poisam na fonte, tudo floresce.
Anjos irados vêm em alvoroço,
Trazem o ferrão, uma marca de cera,
Inscrevem-te na pele a dádiva da loucura.

A cidade sitiada não sarará
E no sacrifício das horas não há flor
Que tenha a sua primavera.
Falta-te o antigo sopro divino,
E se avistas as cúpulas da catedral,
Ouves o restolhar dos pombos
E o barulho oscilante dos sinos.

A paz do cordeiro chega,
Envolta num grito de crisântemos:
Um amor perdido na morte encontra o silêncio,
A carne entregue ao ritmo da inocência.

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Missa Pro Defunctis é um ciclo de poemas escrito em Setembro e Outubro de 2011. É constituído por 21 poemas e pretende ser uma meditação poética sobre a nossa situação actual, meditação que acompanha a estrutura de um Requiem na tradição religiosa católica. Será publicado integralmente neste blogue nos próximos tempos, embora sem periodicidade diária ou qualquer outra.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

A invenção de Crato


A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.


Quase sempre as aparências iludem. Aquilo que parece razoável ao senso comum, se visto criticamente, revela-se um completo disparate. A educação é um dos lugares onde isso é mais notório. Não houve ministro que não tomasse decisões que o senso comum aplaudiu e que a realidade teve o desplante de as mostrar como um disparate desmedido.

Nuno Crato não é diferente dos seus predecessores. Descobriu agora uma medida – ele, na ignorância que tem da realidade escolar, deverá julgá-la genial – para fazer aprender os alunos que não aprenderam durante um certo ciclo escolar. Segundo li, os alunos do 1.º e 2.º ciclos do ensino básico, após a realização de exames, podem ser sujeitos a mais um mês de aulas, desde que não obtenham resultados positivos. O senso comum, por certo, aplaudirá entusiasmado a clarividência do ministro.

Contudo, o facto de se ser professor universitário de matemática e ministro não é prova suficiente de que se saiba pensar sobre a realidade. Alguém que conheça a escola em Portugal acredita que esses alunos irão aprender num mês aquilo que não aprenderam durante anos? Alguém que lide com essas crianças acredita que elas vão suportar de boa mente aulas no tórrido calor de finais de Junho e durante parte de Julho, enquanto os colegas estão já em casa?

A medida anunciada é pura preguiça intelectual. De facto, existe um problema de aprendizagem em Portugal. A culpa já foi atribuída aos professores, aos programas, às disciplinas do currículo, às escolas, ao sistema, a cada um à vez e a todos em conjunto. Cada ministro inventou uma solução disparatada que não solucionou nada. Esta é mais uma, ainda mais disparatada que as anteriores.

Todas estas pseudo-soluções servem para ocultar o núcleo onde reside o principal problema, os alunos. Mais do que tomar medidas, é urgente perceber claramente o fenómeno, caracterizá-lo, para depois agir em conformidade. Há perguntas que devem ser feitas e respondidas: Por que razão a cultura de muitos alunos é adversa à aprendizagem? Por que motivo muitas famílias, mesmo se gostam de intervir na escola, não são exigentes relativamente à atitude escolar dos seus filhos? Por que razão a sociedade portuguesa valoriza tão pouco o estudo? É aqui que reside o problema e só aqui pode ser encontrada uma solução eficaz.

Sem mexer nesse sítio difícil, bem podem os ministros aumentar o tempo de presença dos alunos na escola. Podem mesmo inventar dias com 48 horas e anos com 24 meses para encerrar as crianças numa sala de aula durante 30 horas diárias, 22 meses por ano. O problema manter-se-á. Tanto amadorismo cansa.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Religião e política

Max Beckmann - Christ and the Woman Taken in Adultery (1917)

A pretensão de Obama de que os progressistas devem adotar uma forma mais abrangente e tolerante em questões fé  (ao nível da) razão pública reflete um bom instinto político. É igualmente uma boa filosofia política. A tentativa de separar argumentos sobre a justiça e direitos de argumentos sobre a vida boa é errada por duas razões: primeiro, nem sempre é possível decidir questões de justiça e direitos sem resolver questões morais substantivas; e segundo, mesmo quando é possível, pode não ser desejável. (Michael J. Sandel (2011). Justiça - Fazemos o que Devemos? Lisboa: Editorial Presença, pp. 260-1.

O texto do filósofo norte-americano Michael Sandel coloca um problema muito interessante e que aplicado à Europa gera enormes perplexidades. O excerto apresentado surge após Sandel diferenciar as atitudes de Kennedy e de Obama (ambos presidentes americanos provenientes do partido democrático) em relação à presença no debate público de pontos de vista vindos do campo religioso. Kennedy foi favorável à neutralidade perante as questões morais substantivas provenientes da religião. Obama, pelo contrário, argumenta que, enquanto progressista, não pode abandonar o discurso religioso. O facto dos liberais americanos (progressistas) terem adoptado uma posição de neutralidade religiosa implicou que esse terreno fosse ocupado, como refere Sandel, pelos conservadores republicanos.

Esta questão que faz parte do debate político e filosófico americano parece, nos dias de hoje, completamente estranha  ao debate europeu. Duas razões são essenciais para essa estranheza. Por um lado, a conversão total e completa dos partidos inspirados na democracia-cristã ao denominado neoliberalismo e à consequente teologia do mercado. Esta conversão, pelo menos na Europa católica, significa que esses partidos se colocaram em contradição explícita com a doutrina social da Igreja Católica. A segunda razão situa-se à esquerda e ao seu enraizamento ou no jacobinismo republicano ou na tradição ateísta do marxismo, isto é, na adopção de outro tipo de teologias que não a cristã.

Se a direita trocou a teologia cristã pela teologia do mercado, então tem todo o interesse em escamotear a heresia, abolindo questões substantivas provenientes da religião, mesmo em matérias em que ela concorda com a posição da Igreja. A esquerda, pelo contrário, é para defender as suas teologias não cristãs que é incapaz de perceber o conteúdo emancipatório e crítico que está presente no discurso religioso e de o mobilizar em defesa daqueles que ela diz representar. Se a intervenção de certos bispos e mesmo do Papa, em matéria de economia e direitos sociais, deixa a direita desconcertada, o mesmo se passa com a esquerda. Presa aos seus preconceitos teológicos, a esquerda não consegue compreender que o cristianismo contém em si um potencial libertador que se pode conjugar, se se colocarem de lado os devaneios sobre a construção de paraísos na Terra, com o ideal grego da justa medida para estabelecer sociedades socialmente equilibradas.

Neste momento, parece claro que na Europa o debate político está muito longe daquilo que é mobilizado nos EUA. No entanto, e contrariamente ao que podem pensar aqueles que vêm nesta neutralidade religiosa do discurso político europeu um bem absoluto, poder-se-á estar a caminhar para um lugar muito perigoso ao colocar de lado o potencial social e político das religiões. Pode-se estar a entregar esse espaço a organizações radicais que parecem nascer como cogumelos no mapa político europeu. O crescimento dessas organizações amparado no discurso religioso pode ser uma verdadeira catástrofe. 

A esquerda teria alguma coisa a ganhar se, neste caso, escutasse Obama. Isto, porém, não significa que o discurso político se torne numa espécie de homilia. Significa apenas que há bens morais substantivos presentes na religião que merecem ser defendidos politicamente e por isso devem ser trazidos para o espaço público.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Fazer poesia

Albert Rafols Casamada - Nuevos proyectos de poesía (1968)

Quando se tem a pretensão de escrever poesia, há um momento em que se é levado a perguntar "o que é a poesia?" Essa pergunta provém, contudo, de um equívoco baseado na ingenuidade. Essa ingenuidade funda-se na ideia de que existe uma coisa tal como a poesia e que esta coisa se manifestaria na diversidade dos trabalhos poéticos. Estes seriam a aparência de uma essência, hierofanias onde a deusa, eternamente una e idêntica a si mesma, se manifestaria. Passado este momento de ingenuidade, aquele que tem a pretensão de escrever reformula a questão e coloca, então, a pergunta "o que é para mim a poesia?"

Esta talvez seja a pergunta do poeta. Ela não se preocupa com uma definição universal do fenómeno poético nem procura uma essência. Ela questiona não o filósofo mas o artesão. Perguntar "o que é para mim a poesia?" não significa abrir a possibilidade de dar uma definição particular, pessoal e singular do fenómeno poético. A pergunta remete para uma reflexão acerca daquilo que se tem feito, acerca da especificidade do seu trabalho, acerca dos seus interesses na utilização da linguagem em forma de poesia.

Paul Ricoeur via a metáfora como um poema condensado ou o poema como uma metáfora expandida, um conjunto de metáforas que tecem um texto que funciona devido à sua impertinência semântica. Compreender o que Aristóteles diz da metáfora ajudará a compreender como vejo, no presente momento, o trabalho poético. Na Poética (1459 a 8), Aristóteles diz: "com efeito, bem saber descobrir as metáforas significa bem se aperceber das semelhanças". Metaforizar, ou bem metaforizar, seria então apreender o semelhante naquilo que é tido como diferente, seria aproximar dois campos ontológicos  afastados através de uma estratégia discursiva. O que me interesse em tudo isto é a ideia de aproximação do distante.

O processo educativo dos seres humano tem como finalidade ajudar cada novo membro a organizar o caos das sensações e dos sentimentos (entendidos estes como meras sensações internas), daquilo que chega até nós vindo do mundo ou de nós, num mundo mentalmente organizado e partilhável com os outros homens. Esta estrutura que a educação fornece - qualquer educação, mesmo a mais rudimentar - não é uma descrição da realidade tal como esta é, mas uma descrição tal como é útil à espécie humana e tal como permite que ela funcione no mundo. Utilidade e funcionalidade das descrições não significam verdade. Estas descrições organizam a realidade, pondo-lhe uma determinada ordem e hierarquia. Nessa ordem e hierarquia há coisas que estão próximas e outras que estão afastadas. A metáfora aproxima, em contradição com a descrição fornecida pela educação humana e pelo uso corrente, coisas que estavam afastadas.

Se olho para aquilo que tenho colocado neste blogue e para o que estou neste momento a escrever, percebo que a ideia de aproximar o afastado é o que me preocupa no artesanato poético. Escrever um poema é cruzar fios vindos de diversas e afastadas origens. Sensações provenientes de determinada experiência física podem ser cruzadas com uma memória remota de infância ligada a algo que nada tem a ver com aquelas sensações. Escrever um poema é, neste momento e para mim, aproximar o diverso da experiência (sensações, sentimentos, memórias, emoções, intelecções, juízos, desejos, imagens, etc. e os respectivos conteúdos) tecendo textos que descrevem o mundo de uma forma que a educação que recebemos não cauciona. Isto significa que um verso não tem de ser, embora o seja muitas vezes, a continuação "natural" do anterior. Significa que uma estrofe possa ter um conteúdo dissonante relativamente a anterior, com alteração de temática e de registo (do sujeito que falta, do tempo verbal, etc.). 

Naquilo que tenho feito, isto não significa uma aproximação a esse caos originário que a educação humana domesticou e ordenou. Significa apenas experiências de reordenamento não habituais. O uso da língua, com o seu sistema lexical e as suas categorias gramaticais, asseguram que estas novas ordenações ganhem um valor semântico, e sejam, julgo, compreensíveis a quem as lê. Neste momento, fazer poesia é, na perspectiva que adopto, refazer paisagens, através de processos de aproximação do que está afastado pela convenção veiculada pela educação e pela vida em sociedade, fazendo redescrições da paisagem.

Nada disto será novo. Enunciá-lo tem apenas uma utilidade privada: sinalizar o sítio onde me encontro. Para os eventuais leitores do que escrevo nada disto tem um particular interesse. A única coisa que é importante é se os poemas provocam ou não uma experiência estética. Se provocam muito bem; se não, muito bem na mesma. Seja como for, há uma coisa que se torna clara para mim: este trabalho de aproximação do inaproximável só pode ser um momento. É preciso descer, ultrapassar o jogo das descrições, a substituição das paisagens habituais por outras inabituais. O trabalho poético deverá conduzir-me ao caos, aos fragmentos heteróclitos que compõem as nossas experiências, às partículas subatómicas dos átomos de sentido, à energia originária, se for possível. Isso, porém, não me é permitido de momento. Não sei gramática suficiente para descer tão fundo na experiência humana.

terça-feira, 26 de junho de 2012

O dr. Freud lê o jornal

Reinhold Völkel - En el café Giensteidl de Viena (1896)

Está ali o dr. Freud. O que faz ele? Como posso saber? Lê o jornal. Claro, claro, o dr. Freud também lê o jornal no café. O que faz ele quando lê o jornal? Ah, diz-me que estou muito enganado, se penso que ao ler o jornal só se lê o jornal. Você não? Ao ler o jornal deixa o espírito vogar sobre as notícias. Informa-se na camada mais superficial, mas algo trabalha em si, compreendo. Prepara os negócios do dia, o que vai dizer na reunião, a desculpa a dar à sua mulher, se se atrasar. E o dr. Freud? Talvez pense em Moisés, em Édipo, no possível suicídio de Amalie, sua mãe. Quem sabe?

segunda-feira, 25 de junho de 2012

A justa medida


O diálogo platónico Protágoras discute se a virtude política é ensinável. Em diálogo surgem as figuras do sofista Protágoras e de Sócrates. Platão,  de uma forma claramente dialéctica, opõe duas posições para delas extrair uma terceira, numa espécie de síntese. Perante a crença de Protágoras na possibilidade  e necessidade de ensinar essa virtude política, Sócrates contrapõe a posição tradicional da aristocracia homérica, a da não ensinabilidade da virtude. A questão, porém, é conduzida para que Sócrates aceite que é possível ensinar a virtude, mas porque esta é conhecimento. Não é esta discussão, contudo, que me interessa aqui.

O que me interessa é o mito que Protágoras conta em defesa do seu ponto de vista. Muito rapidamente: o titã Epimeteu, estando responsável pela configuração das espécies mortais, gastou todas as capacidades e poderes que tinha para distribuir pelas espécies antes de chegar ao homem. Perante tal situação da espécie humana, outro titã, Prometeu, decide roubar o fogo e a técnica a Atena e a Hefesto e dar-lhos para que ela sobrevivesse. Contudo, isso não era o bastante, pois os homens ficaram a saber trabalhar, mas não sabiam viver uns com os outros, faltava-lhes a arte política. E é Zeus que resolve o assunto com a dádiva da soberania.

Esta dádiva era composta pelo respeito (aidôs) e pela justiça (dike). Para o caso daqueles que não usavam, na vida da cidade, de respeito e de justiça, Zeus decretou a pena de morte. Podemos agora perguntar: o que é a virtude política? É o exercício do respeito pelo outro e a justiça na distribuição  do que compete a cada um. Os dois termos gregos são de tradução complexa, fundamentalmente o termo aidôs. Pode ser entendido como respeito, numa formulação mais de carácter moral, mas também, numa dimensão mais afectiva ou psicológica, pode ser traduzido como vergonha ou pudor.  Seja como respeito ou como vergonha e pudor, aidôs representa a necessidade da justa distância entre os homens: nem demasiado longe uns dos outros nem excessivamente perto. O exercício da justa distância é complementado com o da justiça, o da distribuição justo daquilo que cabe a cada um.

Apesar de o mito do Protágoras não dar um conteúdo semântico aos dois termos, deixando-os em aberto, ele acaba por estabelecer aquilo que é o horizonte político do Ocidente, aquilo que ele deve sempre buscar nas diversas situações históricas: a justa medida, o equilíbrio e a harmonia dentro da comunidade. Este post surge, então, como uma espécie de prolegómeno a um outro prometido há tempos sobre o que fazer nesta nova situação política criada a partir de 1989. Define o horizonte daquilo que tenho para dizer.

domingo, 24 de junho de 2012

Missa Pro Defunctis (XV)

15. Benedictus

Falo-vos do nascimento da indústria,
Do pó de carvão, das máquinas a vapor,
A elegia tecida pelos teares mecânicos
Sobre a floração das figueiras,
Aquelas de figos negros e doces,
Quase esquecidos,
Quase bebidos,
Na reentrância da tua boca.

Tenho uma toga, negra toga, serei juiz?
Passeio pela tarde os cães,
Sorrio a quem passa
E olho, enigmático, o resplendor das horas:
Bendito o que vem em nome do senhor.

Naquele tempo julgava os homens.
Ao longe, a indústria crescia em terrenos baldios,
As ervas enegreciam, árvores mortas,
Cogumelos esventrados pelo solo,
Ratos secos, coelhos despelados,
O esqueleto vazio de um animal morto em vão.
As minhas sentenças, terríveis eram,
Sabiam ao cheiro dos cães,
Quando suados, atravessam a casa,
Sacodem o pêlo e deixam a língua pender.

Quem transporta o andor, nada leve,
Do teu nome aos ombros?
Ó a misericórdia da indiferença,
O doce sabor da ignorância,
A glória eterna do esquecimento:
Bendita sombra escorraçada.
A melancolia, espelhada pelo rio, enlaça os barcos,
E estes deslizam tristes e solenes,
Acompanhados pelos cães,
Um coro de gente inútil aos remos.

Sento-me para ouvir a engenharia nascente.
Falam, pela frívola manhã, a defesa e a acusação,
E eu como figos, sonho com a tua boca,
Os lábios inclinados para o meio-dia,
A indústria desses olhos presos aos meus,
A máquina a vapor,  promessa de um coração,
O naufrágio irremediável nas águas do rio.

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Missa Pro Defunctis é um ciclo de poemas escrito em Setembro e Outubro de 2011. É constituído por 21 poemas e pretende ser uma meditação poética sobre a nossa situação actual, meditação que acompanha a estrutura de um Requiem na tradição religiosa católica. Será publicado integralmente neste blogue nos próximos tempos, embora sem periodicidade diária ou qualquer outra.

sábado, 23 de junho de 2012

Toiro

Roberto Domingo - Al natural

Um instante mais, um passo errado, o súbito inebriamento trazido pelo sangue. Vem, vem, irmão. Toda a tua morte é a minha vida, o teu sangue alimenta-me, cresce em mim, dá-me a força para fugir da arena, dos acenos da afición, dos olés tresloucados. Odeio pasodobles, odeio a multidão que espera a tua morte, odeio cada triunfo sobre ti. Eis o instante, não te deixes enganar pela ilusão da capa, pelo langor da minha arte. Vem, anjo negro da morte, troco o meu sangue pela tua vida, a minha morte pelo teu triunfo. Eh toiro, toiro, eh toiro…

Há limites para a estupidez

Giotto di Bondone - La Estupidez (1302 - 1305)

Segundo o ministro das Finanças, o tão incensado - aquela estrela da burocracia de Bruxelas que iluminava o céu de tanta gente -  Vítor Gaspar, o défice orçamental está em vias de derrapar. As receitas fiscais caíram. Gaspar fala com candura e inocência tocantes, como se não tivesse responsabilidade no descalabro a que se está a chegar. Cego pela ideologia, nunca prestou a mínima atenção aos economistas que evidenciavam os efeitos deletérios das políticas do governo. Não foi apenas o resgate assinado com a troika - essa nova santíssima trindade -, foi também o desiderato de ir mais e mais longe, foi todo um programa,  por certo muito apreciado em Berlim, de destruição da economia portuguesa (não bastava aquela que Cavaco tinha iniciado nos tempos de entrada para a CEE). 

Perante o descalabro da política seguida, já percebemos qual vai ser a receita. Passos Coelho diz que é cedo para falar em medidas de austeridade. Isto significa que não tardará que novas medidas de austeridade caiam sobre os portugueses. Por experiência, sabemos todos, menos Gaspar, Coelho e os adeptos da seita, qual vai ser o resultado. Piorar mais e  mais a frágil situação em que nos encontramos.

Há limites para a estupidez. Não, não estou a dizer que estes governantes são estúpidos. Não, eles apenas têm um programa ideológico e obedecem, com prazer e satisfação, aos interesses que servem. Mas há limites para fazer de nós estúpidos. Por muito que custe aos adeptos da congregação que nos governa, só há uma coisa a dizer perante os resultados: Coelho e Gaspar são incompetentes. Não sabem do que falam e não conseguem determinar as consequências das políticas que conduzem. Se Passos Coelho e Vítor Gaspar fossem treinadores de futebol - pois estamos em maré de eurofutebol - já tinham sido despedidos. A equipa estaria a caminho da divisão inferior e, para desespero dos adeptos, os jogadores apenas saberiam - foi isso que os treinadores prepararam - meter golos na própria baliza. Há limites para a estupidez, é bom que aqueles que nos governam pensem sobre isso e parem de tratar os portugueses como um bando de estúpidos.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Cartões de crédito Karl Marx



Há dias o jornal ionline noticiava que o banco alemão Sparkasse Chemnitz tinha lançado um cartão de crédito com a reprodução do busto de Karl Marx, o pai fundador do comunismo. O banco alemão não virou comunista, continua profundo adepto do mercado. Como o mercado – isto é, as pessoas que o compõem – em que opera vive nostálgico dos tempos da República Democrática Alemã, o banco tomou uma decisão racional. Um cartão de crédito que, ao simbolizar o passado comunista, chama muita gente a abrir conta.

Um leitor mais entusiasta poderia ver neste acontecimento o prenúncio de uma reviravolta política no mundo, com as pessoas a virarem os corações para o vermelho. Pura ilusão de óptica. A iconização de Marx como agente de vendas de um banco é o sinal claro e definitivo da sua morte política (não da sua morte como pensador dos problemas económicos, sociais e políticos). Se o comunismo e as ideias marxistas representassem um perigo efectivo para a estabilidade capitalista, nenhum banco se atreveria a fazer o que Sparkasse Chemnitz está a fazer.

Há duas coisas que podemos aprender, ou recordar, com este caso. A primeira é que o mercado está aberto a tudo. Desde que se possa vender e comprar livremente, praticamente não há entraves. De Jesus Cristo a Che Guevara, passando por Lenine ou Marx, talvez a própria mãe, se não der prisão. Desde que sirva como mercadoria lucrativa, tudo pode tornar-se em bem transaccionável. Deste ponto de vista, o mercado não é ideológico. O comunismo, se servir para ganhar dinheiro, é óptimo para os mercados. Dirá o leitor que estou a exagerar. Não estou. Os mercados não estão nada preocupados com o comunismo chinês. Pelo contrário, são adeptos incondicionais. O verdadeiro perigo de uma sociedade de mercado está, porém, aqui. A desideologização dos mercados leva-os a aceitar as piores práticas políticas e sociais desde que o mercado funcione.

Ligado a isto está a completa ausência de princípios. Melhor, a redução de todos os princípios a um único: é bom aquilo que tem valor no mercado. O bem fica reduzido ao lucrativo. Quando certos pensadores de direita ligam a economia de mercado à democracia política estão pura e simplesmente a dizer uma mentira. Os mercados só estão interessados na democracia política e no respeito pelos direitos humanos se isso for lucrativo. O seu amor pelo regime totalitário chinês ou pela ditadura de Pinochet e o medo terrível que têm tido da vontade democrática dos gregos bastam para demonstrar a tese.

Pobre Karl Marx. De autor de O Capital passou a vendedor de capital. 

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Missa Pro Defunctis (XIV)

14. Sanctus

O capim ardido jaz soterrado.
Um dia ergueu-se e a verdura,
Naquele verde havia,
Intumesceu, dilatou, explodiu
Em tons de castanho e laranja,
Um cambiante de cinza,
A praia tépida do outono:
Sanctus, Sanctus, Sanctus,
Dominus Deus Saboath.

Cansados dessa beleza,
Os exércitos entregam-se ao urânio.
Balas de cotim semeiam flores,
Pródigos jardins nunca vindimados.
Os soldados, unidos ao destino,
Pequenos barcos no mar,
Oscilam, inclinam-se e cantam
O silencioso tumor da madrugada.

Nas ruas brincam crianças.
O esperma enriquecido poisou,
Glorioso pela radiação,
Pólen em óvulos vibrantes,
Sequiosos e ávidos de amor:
Abençoado aquele que não sabe
O nome do senhor.

Da escarpa soltou-se o corvo
E um projéctil iluminou os ares,
Flash de seda fotográfica,
Cintilou, entardeceu, fez-se noite:
Os homens entoaram um cântico
– Hossana nas alturas –
E tudo adormeceu sob a luz
Pura, vermelha, estrela no céu.

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Missa Pro Defunctis é um ciclo de poemas escrito em Setembro e Outubro de 2011. É constituído por 21 poemas e pretende ser uma meditação poética sobre a nossa situação actual, meditação que acompanha a estrutura de um Requiem na tradição religiosa católica. Será publicado integralmente neste blogue nos próximos tempos, embora sem periodicidade diária ou qualquer outra.

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Primavera árabe, a purificação pelo sangue

Giorgio Chirico - El doble sueño de primavera (1915)

Com a aproximação da morte de Hosni Mubarak, a comunicação social focou de novo a sua atenção no Egipto. O que se descobre é um país em grande convulsão política, à beira de uma tragédia. A transição à democracia deu o resultado que se sabe. A segunda volta das eleições opôs um homem da ditadura de Mubarak ao representante da Irmandade Muçulmana. Todas as ilusões sobre uma democracia liberal esbarraram no pronunciamento do povo. Como se sabe, a instigação à democracia deu um banho de sangue na Líbia e outro, ainda em curso, na Síria. Quanto à Tunísia ver-se-á o que o futuro traz.

A comunicação social nunca perde uma oportunidade para simplificar – e reduzir à caricatura – a realidade. Aquando das revoltas no mundo árabe, não teve pejo em transferir a designação de primavera – uma metáfora que diz respeito às experiências políticas europeias – para os acontecimentos nos países muçulmanos em convulsão política. Esta simplificação lançou um enorme véu sobre a realidade e fez nascer nos incautos a ilusão de que esses países iriam passar por uma fase de transição à democracia idêntica à que se passou na Europa. Esta simplificação serviu também para esconder, ou para legitimar, a vergonhosa interferência de alguns países ocidentais em acontecimentos inomináveis.

A existência de pessoas que, nesses países, aspiram a uma democracia política e a um estado laico está fora de dúvida. No entanto, o sentimento das massas assenta numa visão salvífica e libertadora do Islão. O sentimento de opróbrio sentido, a pobreza reinante, a injustiça sem fim devem-se, no sentimento popular, não ao Islão mas à corrupção da mensagem islâmica, uma corrupção devida às elites políticas que perverteram a mensagem do profeta. O que está em jogo não é a democracia, mas a possibilidade de voltar, ainda que através dos votos, à mítica pureza do Islão. Para o mundo muçulmano a bandeira da libertação e da emancipação não se encontra na democracia política nem na separação da política e da religião. Assenta na própria religião. Não perceber isto significa não perceber nada do que se está a passar.

A primavera árabe é uma metáfora para um sonho duplo e conflituante. Por um lado, o sonho dos ocidentais em exportar a democracia – e a influência livre dos mercados – para um território que lhe é estranho; por outro, o sonho de amplas camadas populares que pretendem a implantação de um Islão mais puro e rigoroso, de um Islão que varra da face da Terra a injustiça e a corrupção, que o mundo árabe simboliza no modo de vida e nas instituições ocidentais. O que o sonho ocidental alimentou não foi a conquista da democracia, mas mais um dos tradicionais banhos de sangue com que o Islão se purifica.

terça-feira, 19 de junho de 2012

Silêncio

Júlio Pomar - da série Os Tigres

Cala-te! A distância que vai de ti à minha dor pede o silêncio. As tuas presas são navalhas afiadas, abrem rios de sangue na pele mais dura, crescem mesmo na hora em que o teu corpo se abre para mim. Cala-te! Para que servem as tuas palavras? Não suporto confissões e a verdade é uma planície baldia no teu coração. A avidez que tive dos teus seios perdeu a música que a movia. Resta-me o cheiro feroz e selvagem, o exercício da dor, a libertação do sangue. Para isso, chegam os teus dentes, punhais cravados no meu peito, o cântico silencioso das veias dilaceradas sob o império dessa boca.

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Vigiar exames

Jesús de Perceval - Adán (1930)

E disse em seguida ao homem: "Porque ouviste a voz de tua mulher e comeste do fruto da árvore que eu te havia proibido comer, maldita seja a terra por tua causa. Tirarás dela com trabalhos penosos o teu sustento todos os dias de tua vida. Ela te produzirá espinhos e abrolhos, e tu comerás a erva da terra. Comerás o teu pão com o suor do teu rosto, até que voltes à terra de que foste tirado; porque és pó, e pó te hás de tornar. (Génesis 3:17-19)

Se alguém acha que não deve levar a mitologia bíblica a sério, então anda muito distraído. Por vezes, também me distraio, mas não há nada que umas vigilâncias de exame não resolvam. Mostram, em cada um dos infinitos segundos que as compõem, aquilo que sou e o lugar que me cabe. Estar de vigia é suspender a existência e concentrar-se no acto de olhar. A vigilância dos exames é uma reminiscência anacrónica de um mundo que já acabou, mundo esse que tinha como núcleo simbólico o panóptico de Bentham. Isso, porém, são contos de outro vigário. O que agora me interessa - um interesse ressentido, claro - é o interesse de Adão pela fruta. Não haveria outra sobremesa? O paraíso teria assim uma cozinha tão displicente que levasse o pobre, em desespero de causa, a aceitar a maldita maçã? É evidente que se Adão tivesse vigiado durante três horas um exame, sem poder fazer o que quer que seja a não ser circular e olhar, até um semifrio teria preferido à fruta que a Eva lhe oferecia. É o que dá a falta de experiência. 

domingo, 17 de junho de 2012

A noite

Edvard Munch - Casa en claro de luna (1895)

A noite é sempre a melhor hora. Perguntas a razão, não o devias fazer. Basta que perguntes a finalidade. Há uma altura que nenhuma razão é razão de coisa alguma, que nenhum porquê pode obter resposta. Não, a noite não me esconde a tua pele, os teus olhos cansados que, de os ver, os meus se cansaram. A noite não opera metamorfoses na tua voz e eu não oiço um anjo a cantar. Aliás, os anjos já não cantam, nunca cantaram, e os sinos que ouvíamos eram um ludíbrio que a noite nos oferecia. Para quê, então? Para pegar em mim e deixar que o veludo negro me envolva para não mais voltar.

sábado, 16 de junho de 2012

Missa Pro Defunctis (XIII)

13. Offertorium: ii. Hostias

Salta das veias a nuvem,
Estremece o cordeiro,
E o vento cansado sopra
Sob a luz do firmamento.
As águas pútridas correm
Nos jardins do paraíso,
São rios de pez e carvão,
Mares sem barcos sem velas,
Homens de mãos decepadas,
E mulheres, pela noite,
Enlouquecidas e belas.

Correm, uivam, relampejam,
Cobras de aço no quintal,
Silvas onde dormia Ulisses,
Nas noites frias de viagem.
Sonhava, quando arrefecia,
A cálida voz do amor,
E nos espinhos contava
Os dias que de Penélope
O deus ainda o afastava.

Tremo ao pensar, mas coragem
Não me falta e vejo tudo
Claro e distinto, pois sei
Que uma vontade, não a minha,
Me ordena a feliz matança.
Vou seguro, tremem-me as pernas,
Mas espero a recompensa,
Quando a carne estilhaçada,
Com outras emparelhada,
Juncar a rua de detritos,
E entre luzes e sirenes,
Se ouvirem preces e gritos,
Verei a luminosa luz,
Um candelabro de ferro,
E uma voz de sombra gélida
Indica-me o paraíso,
Onde já me vejo e encerro.

A carne leve rasgada,
Uma dor firme no altar,
E a Terra silenciosa
Grita e clama sem parar.
Pede água, luz e sangue,
O corpo de Édipo cego,
Fero assassino do pai,
Que seja na cruz entregue,
Com uma coroa de espinhos,
Que da cabeça lhe sai.

O matador para o touro,
Em vertigem e temor,
Cego e surdo se inclina,
A espada fere a carne
E o animal súbito cai.
Estremece logo a praça,
E tudo se turva na tarde:
O touro caído e o diestro,
Atónito e preso ao chão,
Espera que tudo seja
Uma mentira, talvez
Um erro, uma ilusão.

Chegou a hora Senhor.
O tempo corre ameno,
E o barco, aparelhado,
Está pronto para a viagem.
Os papéis estão em ordem
E o capitão é severo
Para quem chega atrasado.
Queria um copo de vinho
E um pão para a passagem,
Queria um resto de luz
Para que a noite e as trevas
Não sejam a última imagem.

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Missa Pro Defunctis é um ciclo de poemas escrito em Setembro e Outubro de 2011. É constituído por 21 poemas e pretende ser uma meditação poética sobre a nossa situação actual, meditação que acompanha a estrutura de um Requiem na tradição religiosa católica. Será publicado integralmente neste blogue nos próximos tempos, embora sem periodicidade diária ou qualquer outra.

sexta-feira, 15 de junho de 2012

O emblema



Estudar filosofia é coisa desconcertante e não admira que o poder político não nutra especial afecto pelo exercício. Um dos ramos da minha educação filosófica dá pelo nome de hermenêutica da suspeita. Em linhas gerais, essa esdrúxula designação remete para a interpretação de um texto ou de um comportamento. Mas essa interpretação não se fica por aquilo que a mensagem aparenta dizer. Quando leio um texto ou analiso um comportamento humano pergunto sempre o que se esconde por trás deles. Que coisa aquele texto ou comportamento querem dissimular, que realidade se oculta sob o véu da aparência?

Um dos comportamentos mais bizarros deste governo reside no uso, pelos seus membros, de um emblema na lapela. Há muito que passou o fervor que levava as pessoas a usarem um emblema da pátria, do partido, da religião ou do clube de futebol na lapela. Hoje em dia, ninguém usa qualquer tipo de emblema. Muito menos pessoas que, como acontece com os membros deste governo, se identificam socialmente com os sectores mais elitistas do país, que abominariam ter de usar qualquer tipo de emblema.

Que mensagem pretende o governo passar? A primeira, um verdadeiro acto falhado que parece dar razão ao bispo Torgal, apela para ideia, tão querida de Salazar, de união nacional. O governo quer convencer-nos de que a sua política não resulta de uma opção partidária – por certo legítima, mas partidária – mas de um desígnio nacional. Não estou a dizer que o governo é salazarista ou adepto de uma ditadura. Não é uma coisa nem outra, mas está a apelar a um imaginário utilizado por Salazar e que julga ser do agrado dos portugueses. A segunda mensagem, complementar da primeira, pretende mostrar que o governo, num tempo de globalização e onde o dinheiro não tem pátria, é profundamente patriótico.

O que se esconde atrás do emblema? O que pretende o governo dissimular? O que justifica esta aparente obsessão com a bandeirinha de Portugal usada por pessoas que devem odiar ter um emblema ao peito? O que se oculta é o reverso daquilo que se pretende mostrar: esconde-se que há outras políticas possíveis e que poderiam servir Portugal. Fundamentalmente, esconde-se que este governo é o representante não dos portugueses, mas dos interesses estrangeiros que se estão a apoderar do que nos resta da nossa herança. O governo da bandeira ao peito foi o que vendeu a EDP a uma companhia estatal chinesa ou que dobra a cerviz, subserviente, na presença da senhora Merkel. Os emblemas servem para isto mesmo: esconder a realidade, dissimulá-la e perverter a consciência que temos dela.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Questões de realidade

Botticelli - Palas y el centauro (1482)

Um pouco de realidade também não fará mal a este blogue. Não que a realidade seja flor que mereça ser cheirada, não merece, mas convém, uma vez por outra, piscar-lhe o olho, não vá ela esquecer-se de nós. Pôncio Pilatos, perante tal pretensão, teria o seu lugar garantido, caso não tivesse ido já para o outro mundo há cerca de 2000 anos, para fazer a pergunta sacramental o que é a realidade? e, depois, lavar as mãos. Ora a realidade é aquilo que os media filtram e nos oferecem caridosamente para nos dispensarem do trabalho de encontrar outra realidade diferente. Nada melhor para encontrar a realidade do que ir ao Público online.

Comece-se com a opinião dos senhores directores das escolas. Eu sei que é gente que estava melhor no antigo regime, o do senhor Sócrates, mas não deixam de ter razão: a autonomia das escolas, ao contrário do que diz o ministro Crato, vai obviamente diminuir. Isso é só um aspecto da coisa, talvez o menos dramático. Muitos professores que se entregaram nas mãos do PSD para fugir aos amigos da bruxa má vão descobrir que o senhor Crato não é um príncipe bondoso, e vão fazer a descoberta perdendo o seu horariozinho que lhes dava a comida e a dormida ao fim do mês. É evidente que não vão sozinhos, levam consigo muitos dos que não votaram, mesmo dos mais antigos, onde me incluo, daqueles que pensam que têm um lugarzinho assegurado no céu; desculpem, na escola. Esperem para ver como se aplica nos horários a nova forma de organização do ano escolar. É tarde demais para transformar o homem em sapo. Ele pensa que é ministro e enquanto não tiver escolas como as chinesas não estará descansado.

Outro dado da realidade, um dado de natureza ontológica, digamos assim, está relacionado com a des-realização dos portugueses. O Professor Gil já verberou a nossa incapacidade de inscrição no real, mas a coisa é mais radical. Cada vez há menos portugueses inscritos na realidade, logo há menos capacidade instalada para tentar inscrever o que quer que seja nesse tal real. A população portuguesa, no fatídico anos de 2011, começou a desaparecer. Os bebés recusam-se a nascer e estamos com uma tendência mórbida, mais acentuada, para o falecimento. Por outro lado, os portugueses mais sensíveis decidiram pôr-se a milhas do funesto espectáculo que nos saiu em sorte.

Para terminar esta viagem ao mundo da realidade falta só a opinião do Observatório da Saúde. Um país em sofrimento, diz o relatório elaborado por esta prestimosa agremiação. Descobrimos que a realidade tem por missão tratar-nos da saúde e que o nosso governo amancebado com a troika está empenhado em resolver o problema das vidas excessivamente longas. Como toda a gente sabe, viver muito tempo depois da reforma é um desperdício. Ora se formos sofrendo desde o princípio, quando chegar à altura de nos reformarmos teremos todo o interesse em desistir de estar vivos e entregarmo-nos nas mãos do falecimento. Evitamos aborrecimentos, dores, maleitas diversas, o mau olhado e as indisposições dos profissionais da saúde devido ao tratamento que irão receber um dia destes.

Seja como for, julgo que este governo, na linha do anterior, está muito bem orientado. Quando os portugueses desaparecerem, o país será um lugar extraordinário, facilmente governável e a realidade será absolutamente, desculpem-me o entusiasmo, paradisíaca.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

A bola metafísica

Henri Rousseau - The Football Players (1908)

Cansa! Cansa tanto que usei um ponto de exclamação, coisa que, por norma, não faço. Em tempos fui um adepto do futebol, hoje nem tanto. Por vezes, vejo um ou outro jogo, raramente consigo não sentir enfado. Nada pior que os jogos vistos na televisão. A realidade, quase sempre, é cruel, como todas as realidades que se prezam. O grande futebol era aquele que existia antes de a televisão ter entrado pelo campo dentro. O futebol dos relatos na rádio, onde não havia um jogo que fosse mau na voz dos locutores. Ritmo e emoção não faltavam. Por maior que fosse o tédio no campo, o jogo chegava aos meus ouvidos transmutado pela invenção dos homens do microfone. Agora o futebol mostra-se na sua natureza, e o que vemos, muitas vezes, é o tédio puro e simples de um jogo imperfeito, onde a manha e a batota têm uma palavra enorme, onde o objectivo pode ser não ganhar, e alcançado esse objectivo ser-se coroado como genial.

O pior, porém, é a metafísica da bola, a teologia do balneário, a hermenêutica do penalty, a psicologia do golo falhado, a sociologia das tácticas, a história dos encontros entre equipas, ou a aplicação da teoria do caos ao prognóstico dos resultados. Isto para não falar da estatística dos pontapés. Andamos há semanas a ser bombardeados por tanta idiotice que apetece fugir. Não, o pior não é isso. O pior mesmo é este falso patriotismo que os media vendem nestes dias. Quem abrir uma televisão ou desfolhar um jornal convence-se que aquela dúzia de rapazolas que correm atrás da bola tem o poder de nos salvar do sarilho onde estamos metidos ou, caso perca, ainda de nos afundar mais e mais nele. Cansa, repito. Cansa tanta metafísica da bola ou tanta bola metafísica. Já não há paciência.

terça-feira, 12 de junho de 2012

Missa Pro Defunctis (XII)

12. Offertorium: i. Rex gloriæ

A promessa feita a Abraão e sua descendência:
Os dias luminosos sobre os prados,
Vento suave nas ruas da cidade, a limpar miasmas,
O silêncio das praças desertas, cobertas de flores,
Sinais de paz trocados entre irmãos desavindos.
Onde a memória de tudo isso?
Onde o olhar de Abraão, a face de Sara?
Onde a esperança de Orfeu no buraco infernal?

Sara tinha noventa anos e Abraão amava-a,
Eurídice era jovem, Orfeu impulsivo,
Tudo se perdeu no desejo sombrio do amor.
Os anjos deixaram de falar aos homens.
Juntam-se agora nas praças e vão de bar em bar,
Bebem e tumultuam, lançam fogo de granizo, riem.
Ébrios, cantam pelas ruas, tocam trombetas,
Esmurram transeuntes e apalpam as pernas,
Brancas e suaves e sedentas, das raparigas.
Caminham e nada sabem de Abraão ou de Orfeu.
Esqueceram a dor de Sara, a morte de Eurídice,
E preferem cerveja reles e tremoços,
De que cospem, enlevados, as cascas para o chão.

D. Carlos ali tão morto e a sua glória,
Maior que a de Abraão e de Orfeu,
Vive no cano da carabina misericordiosa, assassina.
Os anjos abandonaram-no ao frio destino,
Aos gritos da rainha. O rei tão morto – rex gloriæ 
Resplandece contra o céu de Fevereiro,
Enquanto Abraão conta os dias da sua vida,
Os filhos da sua geração.
Glória, glória, nasceu Isaque,
Manuel II caminha para o trono,
Doem-lhe as costas, a cabeça, uma girândola de fogo,
Onde a lira de Orfeu entoa o último lamento:
Doce Eurídice, sombra gloriosa leva-me para o exílio.

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Missa Pro Defunctis é um ciclo de poemas escrito em Setembro e Outubro de 2011. É constituído por 21 poemas e pretende ser uma meditação poética sobre a nossa situação actual, meditação que acompanha a estrutura de um Requiem na tradição religiosa católica. Será publicado integralmente neste blogue nos próximos tempos, embora sem periodicidade diária ou qualquer outra.

domingo, 10 de junho de 2012

Fidelidade

José de Togores - Busto de mujer (1923)

Inútil. Aquele que ainda há pouco fremia dorme agora. Tanta exaltação e depois a melancolia, a sombra que tolhe a vontade, o desejo tornado recordação até que volte, com o seu império precário, oferecer a luz negra de um em outro corpo. Olho-me ali, vejo-me entregue, o meu desejo no desejo que arde sobre mim. Estanco o riso, arfo, deixo que o som me saia da boca, corro as persianas do pensamento e aprendo o significado da fidelidade. Não pensar, não olhar, permitir que as minhas sensações imitem o calor, a luz, a exalação de um último suspiro nuns braços prestes a morrer.

sábado, 9 de junho de 2012

Comandante e fiel de armazém

Lyonel Feininger - Barcos (1917)

Ó Capitão! meu Capitão! a nossa terrível viagem está feita,
O barco cruzou cada tormenta, alcançámos o prémio desejado,
O porto está próximo, oiço sinos, o povo exulta,
Enquanto olhos seguem a quilha segura, o sinistro e audacioso navio;
Mas ó coração! coração! coração!
Ó as gotas vermelhas do sangue
No convés onde jaz o meu Capitão,
Caído, frio e morto.
                                                           (Walt Withman, Ó Capitão! Meu Capitão. Tradução minha)

No post Do poder pastoral à arte de marear, pensou-se o fim da compreensão do exercício do poder como prática do pastorado. Os rebanhos e, concomitantemente, os pastores precisam da solidez da terra. Mesmo quando Moisés conduziu, no processo de emancipação da dominação egípcia, o povo judeu pelo Mar Vermelho, não foi por água que o levou, mas por terra seca pela intervenção divina. O poder pastoral, tal como o pensa Michel Foucault, está, desta forma, entretecido com a solidez territorial. Como vimos, a situação geopolítica mundial alterou-se drasticamente a partir da Queda do Muro de Berlim. Este acontecimento não marca apenas o fim do devaneio comunista, mas também a libertação do mundo do espartilho da Guerra Fria, o que significou a emergência de novos e decisivos actores como a China, a Índia, a Rússia (liberta dos sovietes e da ideologia marxista) e o Brasil, bem como, a outro nível, o Islão. Ao mesmo tempo, o processo de globalização geral da economia que, de certo modo, tinha sido interrompido em 1914 (cf. Jeffry A. Frieden, Global Capitalism - Its Fall and Rise in the Twentieth Century), foi retomado e intensificado, de tal forma que as relações interpessoais e institucionais se fundiram, criando aquilo a que Zygmunt Bauman (Liquid Modernity) chamou modernidade líquida.

No post referido aventava-se a possibilidade de um retorno à metáfora grega do governante como comandante (ou capitão) de navio. O poema de Withman, uma homenagem a Lincoln assassinado, mostra algumas das virtudes do comandante: cruzar as tormentas, fazer a viagem e chegar a bom porto. Podemos dizer que vivemos num mundo tormentoso e que saber cruzar as tempestades é um dos elementos fundamentais da arte de governar. Perante o perigo de naufrágio, o capitão deve saber o momento em que terá de deitar uma parte da carga ao mar para que a viagem prossiga. É isso que faz, por exemplo, o actual governo ao insistir para que os portugueses emigrem. Está a deitar carga ao mar. Também é verdade que a metáfora da viagem é central na situação geopolítica actual. Governar um povo ou uma nação é conduzi-la numa viagem que vem do passado e se dirige para o futuro. Até aqui o modelo do comandante de navios parece adequado para perceber o governante e a acção de governar. O principal problema está na inexistência de porto de chegada. Não há nenhum porto à espera do navio, não há uma meta que dê sentido global à acção política, uma causa final que oriente o timoneiro, a tripulação e os passageiros. O socialismo, a liberdade, o império, a glória do governante ou a fama de um povo, tudo isso se tornou para os ocidentais - e especifico os ocidentais, pois isso pode ser diferente para outros - algo destituído de sentido. 

Viajamos apenas porque essa é a natureza das coisas. Viajamos para ficar onde estávamos - embora tenhamos que afundar alguns para evitar o naufrágio. Esta é a nova situação. Não há um porto, apenas a viagem interminável. Percebe-se a razão porque a metáfora do governante pastor perdeu efeito. O pastor tem de dar conta de todas as ovelhas. O comandante do navio sente-se no direito de, ao transformar os passageiros em pura carga - isto é, em mão de obra ou mercadoria, de se libertar de uma parte desnecessária e perigosa para a viagem sem fim. O pastor foi substituído pelo comandante de navio. Isto significa que a situação dos passageiros - e até de parte da tripulação - está em constante escrutínio e o seu estatuto de cidadãos não lhes garante um lugar, desconfortável que seja, nesta viagem sem destino e sem sentido. A virtude do governante passa por assegurar a ordem e evitar motins, pequenos que sejam, como os que se têm dado na Grécia, para que o barco não balance. De resto, que cada passageiro trate de si mesmo, que adquira por si a arte de se manter na viagem. Os passageiros devem tornar-se leves (cf. toda a cultura do light) e ágeis (flexíveis), fundamentalmente devem ser razoáveis e dotados de um senso comum adaptativo à viagem. Caso contrário, a nova arte governativa manda deitá-los borda fora. 

A arte de marear significa então que o governante, o comandante do navio, tenha claro que não há porto onde chegar, que não há um momento de descanso para retemperar as forças em terra, que a viagem é interminável e sem destino. Significa também que há que saber manter a disciplina dentro do barco, evitar motins na tripulação e revoltas nos passageiros. Por fim, precisa de saber, a cada momento, qual a carga que pode transportar e qual tem de ser deitada borda-fora. Num mundo liquefeito como o actual, o  governante é um misto de comandante de navio e fiel de armazém. 

Quando alguns, como Pacheco Pereira, vituperam o actual governo por este ser insensível, de agir sem empatia para com as vítimas, não percebem aquilo que mudou. O pastor tinha um interesse específico no rebanho e este sentia nele não apenas um chefe, mas um aliado protector. O novo governante, esse misto de comandante de navio e fiel de armazém, apenas se interessa pela viagem. Os tripulantes são considerados apenas quando cumprem a função. Fora disso tornam-se passageiros, e estes são um peso que há que limitar. É isto que está na base do misterioso alheamento político das pessoas. É isto que explica a votação nos partidos fora do sistema. As pessoas continuam a sonhar com o bom pastor. O que as pessoas não percebem é que já não são cidadãos, que o rebanho foi dissolvido. São mão-de-obra, mercadoria, carga que o navio pode ou não suportar. O papel do comandante/fiel de armazém é manter o navio na viagem e gerir a carga que nele cabe. Começa assim a desenhar-se uma ruptura radical entre governantes e governados. Na prática ela já existe, só que os governados ainda não tomaram consciência do facto. Mas isso será matéria para um outro post.