terça-feira, 31 de julho de 2012

A epistemologia do milagre

Simone Martini - Miracle of Fire (1312-1317)

No n.º 54 (Julho-Agosto, 2012) do Le Monde des Religions há um artigo sobre os bastidores dos milagres em Lurdes (só disponível para assinantes; a alternativa é comprar em papel). Há momentos, no artigo, que não podemos deixar de evocar a epistemologia de Karl Popper e a sua teoria falsificacionista. Para Popper, a actividade científica visa refutar as teorias científicas admitidas. Qualquer teoria, por mais bem estabelecida que se encontre, não passa de uma mera conjectura. A ciência progride pelas refutações das teorias estabelecidas, e a actividade científica visa falsificar (mostrar que são falsas) as teorias.

Segundo o artigo de Mikael Corre, Lourdes, les coulisses du miracle (Lurdes, os bastidores do milagre), o processo para declarar, actualmente, uma cura como milagrosa é extraordinariamente complexo e moroso. Começa com uma definição teórica, digamos assim, que estabelece os parâmetros empíricos do que pode ser considerado uma cura miraculosa: «a cura deve ser "súbita e obtida num instante", durável e não implicando convalescença». Valeria a pena uma cuidada análise do problema temporal colocado por esta definição, o jogo entre a instantaneidade e a durabilidade. Uma cura milagrosa é aquela que chega vinda fora do tempo. É súbita e instantânea, o que significa a ausência de uma causalidade física. Ela não resulta de um processo mas de uma irrupção salvífica de algo que está para além da temporalidade. Mais, essa irrupção no puro instante é completa e total, pois a ausência de convalescença é um elemento central do fenómeno. Esta implica a duração, um percurso na temporalidade, o que significaria um processo físico-biológico. Por fim, vem a durabilidade do efeito. Aquilo que é uma manifestação vinda do além-tempo só ganha sentido se, manifestando-se como cura no corpo doente, perdura no tempo.

O processo passa, em primeiro lugar, por um departamento médico cuja finalidade, utilizando a linguagem de Karl Popper, é de tentar falsificar (mostrar que é um falso milagre) o acontecimento, mostrando que a cura pode ser explicada por causas naturais. Este processo, do ponto de vista epistemológico é também muito interessante, pois "exclui todas as doenças psicológicas (pois são organicamente inverificáveis) e aquelas sob tratamento (pois este pode ser a causa da cura, mesmo que isso seja estatisticamente improvável)". Há todo um esforço de reduzir o fenómeno a uma explicação empírica e testável. Mas se a cura é  "inexplicável no estado actual dos conhecimentos médicos", o dossier passa  um segundo comité médico, de âmbito internacional. Apenas os casos que passam nesta segunda comissão de carácter médico-científico é que são remetidos para esfera religiosa, para o bispo do lugar da pessoa curada (e não para o bispo de Tarbes e Lourdes) que, ajudado por uma comissão canónica diocesana, determina se a cura pode ser declarada, segundo a fé, milagrosa ou não. A última declaração de uma cura milagrosa foi em 2005 e era referente a um processo que tinha 53 anos.

O que é pertinente observar é o extremo cuidado com que a Igreja Católica lida com este tipo de fenomenologia e a mobilização que faz de uma aparelhagem científica e filosófica para determinar a verosimilhança metafísica do fenómeno. Não é apenas o recurso à ciência médica que está em jogo, ou o recurso a uma certa concepção epistemológica que pode encontrar raízes ou semelhanças em/com o falsificacionismo popperiano. Há no processo, mesmo depois de declarada a natureza milagrosa da cura, um elemento que - embora eu não saiba se isso, no âmbito da Igreja, é praticável e praticado - permite reverter a declaração: "a cura é inexplicável no actual estado dos conhecimentos médicos". O que deixa em aberto o caminho para falsificar o milagre declarado (mostrar que é falso),  pois novas formas de compreensão das patologias poderão trazer uma nova compreensão da doença e da cura, mesmo que esta seja instantânea e tenha efeitos duradouros.

Esta racionalidade religiosa, esta busca de uma probidade intelectual em matéria de fé, por parte da Igreja Católica, pode ser uma das variáveis a ter em conta para explicar a razão do declínio dessa mesma fé. Esta, pelo menos ao nível popular, alimenta-se do prodígio, e o milagre é o prodígio mais democrático que pode existir. A Igreja ao restringir drasticamente e de forma tão racional a irrupção de milagres no quotidiano das pessoas acaba por fazer alinhar a própria instituição na grande corrente iluminista anti-católica, gerando, ao mesmo tempo, um afastamento de largas camadas populares que, educadas numa tradição do maravilhoso e da superstição muito anterior ao cristianismo, se cristianizaram pelo maravilhoso e prodigioso que sobressaía no cristianismo. Isto coloca um problema bastante interessante: como será possível uma religião que abandona a superstição, através de uma crítica racional, e que não se resuma, como o protestantismo, a uma mera moralidade racionalizante?

segunda-feira, 30 de julho de 2012

Sebald - o meu avô


[Recuperação de um texto, de 10/12/2009, do meu antigo blogue averomundo, fora de circulação]

Hoje, porém, releio sempre as histórias do almanaque, provavelmente porque, como observou Benjamim, uma marca da sua perfeição é que facilmente as esquecemos. Mas não foi somente a etérea fugacidade da prosa de Hebel o que, ao cabo de um par de semanas, me levou a querer saber se o barbeiro de Segringen e o alfaiate de Pensa ainda existiam; o que me faz voltar constantemente a Hebel é também o facto, inteiramente fortuito, de o meu avô, cuja linguagem em muitos aspectos fazia lembrar a do amigo da casa, ter o hábito de comprar todos os anos um calendário Kempten no qual anotava, a lápis de tinta, os dias da festa onomástica de parentes e amigos, a primeira geada, o primeiro nevão, a irrupção do föhn, as trovoadas, granizos e similares, bem como, nas páginas para notas, uma qualquer receita para o fabrico de vermute ou de aguardente de genciana. [W. G. Sebald (2009). O Caminhante Solitário. Lisboa: Editorial Teorema, pp. 12]
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Volto a um dos meus autores preferidos, W. G. Sebald. Esta minha preferência talvez se deva à partilha do seu culto pela memória. Educado filosoficamente numa tradição que vai da reminiscência platónica à rememoração de Ricoeur, passando pela memória como presente do passado, de Agostinho de Hipona, com o passar dos anos, e o crescimento inusitado das memórias, fui ficando cada vez mais sensível aos exercícios mnésicos na literatura, chegando a pensar, muitas vezes, que toda a literatura não é outra coisa senão um imenso exercício memorial.

O meu culto de Sebald, porém, não se deve apenas a essa atenção comum à memória. Deve-se à destreza como ele convoca e entrelaça as memórias para narrar uma história, uma história que, sendo-me absolutamente estranha, parece ser a minha história. Neste pequeno excerto, Sebald começa por falar nas histórias de almanaque de Johann Peter Hebel (1760-1826), um dos grandes escritores de língua alemã, famoso precisamente por essas histórias, mas logo deriva para a memória do seu avô, dos seus gestos e da forma como regulava o mundo.

Eu, que nunca tive um avô, pois morreram ambos muitos anos antes de eu nascer, vejo-me a recordar esse avô que não tive, e recordo-me dele a anotar o seu calendário, talvez uma vulgar agenda, a anotar os dias de aniversário de filhos e netos, os acontecimentos climáticos significativos, o dia que nevou, ou aquele em que o fogo devastou o pinhal à saída da aldeia. Chego a vê-lo a consultar as suas anotações sobre receitas de aguardentes e licores. Sei bem que toda esta recordação é imaginada, mas só em parte. Conheci várias pessoas que faziam algumas daquelas coisas que regulavam a vida do avô de Sebald, mas a história que o escritor me conta permitiu sintetizá-las numa única figura, aquela que nunca conheci, o meu avô. E este meu avô comove-me, como se tivesse existido e me tivesse passeado e mostrado as estrelas e os campos. Um grande escritor é aquele que me faz ter o avô que nunca tive.

domingo, 29 de julho de 2012

Ícaro e o sonho europeu

Henri Matisse - Icarus (1943-44)

O mito de Ícaro, como todos os mitos, continua a ter um papel fundamental na compreensão das múltiplas dimensões da realidade humana. Neste conturbado momento da vida social e política europeia, a meditação sobre o destino de Ícaro não deixa de ser apropriada e reveladora de uma sabedoria cujo esquecimento se paga de forma muito cara. Em linhas gerais, o mito diz-nos que Dédalo e o filho, Ícaro, fogem da ilha de Creta e do rei Minos usando um dispositivo arquitectado pelo pai, umas asas de penas ligadas com cera. Dédalo avisa o filho para que este, ao voar, não se aproxime do Sol, pois este derreterá a cera e destruirá as asas. Ícaro, porém, deslumbrado com o firmamento, sobe demasiado alto e, derretida a cera, cai no mar Egeu onde encontra a morte.

Depois dos horrores da segunda guerra mundial (ou nos casos ibérico e grego, após as ditaduras nacionalistas), a Europa, por motivos vários (pacto social motivado pelo esforço de guerra, plano Marshall, Guerra Fria), constrói sociedades onde se deu uma grande mobilidade social, com o crescimento exponencial de uma classe média resultante da ascensão social de largos sectores ligados ao mundo dos trabalhadores por conta de outrem.  Esta ascensão, como estamos a descobrir dolorosamente, estava assente em dispositivos sociais tão frágeis como as asas produzidas pelo génio de Dédalo. Como estas, também os mecanismos sociais produzidos pela interacção entre as várias classes sociais tinham eficiência mas eram muito limitados. A legitimidade do sonho europeu estava fundada nesses mecanismos sociais que a globalização está a fundir da mesma forma que o Sol derreteu a cera nas asas de Ícaro. E assim como este encontrou a morte no mar Egeu, também as classes médias se estão precipitar, a grande velocidade, no seu mar Egeu, a pobreza.

Este é o primeiro ensinamento. Mas há um segundo, cuja natureza dá que pensar. Ícaro deixa derreter as asas que lhe foram dadas pelo pai. A sua ascensão não se deveu ao seu génio e à sua iniciativa, mas à do pai. É a estranheza do dispositivo aliada ao deslumbramento com a beleza do firmamento que o conduz à perda. Os mecanismos sociais que suportaram o sonho europeu foram, em larga medida, uma dádiva para aliciar os europeus na luta contra o comunismo. Naquilo que se chama agora Estado social há, para uma larga fatia dos seus beneficiários, uma dimensão de pura passividade. Receberam-no mais do que o construíram. No fundo, não o sentem como coisa sua. Basta lembrar a longínqua origem do Estado social, no século XIX na Alemanha de Bismarck. Talvez este seja o ensinamento maior da actual situação. 

A iniciativa individual e colectiva é essencial, os mecanismos sociais de promoção e protecção sociais terão de ser fruto da iniciativa das comunidades e dos indivíduos e exigem uma participação de todos na sua construção e manutenção. Dito de uma forma que desagrada a certa área da esquerda: é preciso democratizar o liberalismo, isto é, fazer com que a generalidade das pessoas abandone uma situação de passividade social e adquira as competências necessárias ao exercício da liberdade de acção e ao reforço da capacidade de iniciativa. Não bastam a manifestação de rua ou as greves mais ou menos gerais. Esses são mecanismos puramente reactivos e não fundam, na actual situação mundial, nenhum programa de governação sério. Talvez o programa essencial da esquerda esteja numa cultura de liberdade individual e de activação das capacidades de iniciativa, tanto singular como colectiva, e não tanto na defesa das ruínas de uma dádiva que gerou comodidade, mas que não foi uma construção activa da generalidade dos beneficiários. 

sábado, 28 de julho de 2012

Questões de linguagem


A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Decididamente estou a ficar velho, demasiado velho e a configuração do mundo é cada vez mais estranha para mim. Isto é desusado, pois sempre estive aberto a novas visões do mundo, a inovadoras opções estéticas, a compreender a irrupção do não acontecido no curso normal das coisas. Talvez seja da minha educação, uma educação recebida ainda no tempo do salazarismo, com uma forte componente católica, talvez seja apenas uma questão de estética social, mas há coisas, insignificantes para a maioria das pessoas, que, aos meus olhos, tornam claro que algo está podre.

Isto vem a propósito do discurso de Passos Coelho perante os deputados do seu partido. A determinada altura, certamente embalado com a sua genialidade, o primeiro-ministro afirma: “que se lixem as eleições, o que interessa é Portugal”. Eu percebo o que ele quer dizer. Está a passar uma mensagem de propaganda partidária ao país: “Vejam como eu sou patriota, e tão patriota que nem me preocupo de perder eleições para ser um salvador da pátria”. E com isto, lá no íntimo, o primeiro-ministro tem a esperança que o reconheçam como herói e o tornem a eleger. Esta propaganda barata não me incomoda, faz parte do ofício dos políticos, e qualquer outro tentaria dizer coisa semelhante.

Também não é o falso desprezo pelas eleições que me causa desconforto. Passos Coelho vive dos resultados eleitorais, e para ele, diga o que disser, o mais importante são os resultados eleitorais. O que acho incompreensível é o “lixem” utilizado pelo primeiro-ministro perante deputados eleitos da nação. Não sou puritano, mas sou muito sensível ao uso da linguagem e acho inaceitável a utilização deste tipo de plebeísmo, a roçar o calão, por alguém que é o principal responsável do país. Que as pessoas falem como querem na sua vida privada, é uma questão de liberdade e bom-gosto pessoais. Quem dirige uma nação, quem representa um povo, quem tem os destinos de uma comunidade em suas mãos, não se pode comportar como uma rapazeco a dizer graçolas e palavras brejeiras.

Eu sei que os portugueses perdoam este tipo de coisas e até acham muita graça (a expressão, com o “lixem” incluído, foi calculada para ter impacto eleitoral). Mas este tipo de acontecimento, que aparenta não ter importância, revela muito do pântano a que se chegou. Na sua pouca importância é, para quem é observador atento das subtilezas da vida pública, mais revelador da degradação das instituições do que o triste e lamentável episódio da licenciatura de Miguel Relvas. Enfim, estou velho e isto causa-me náuseas.

sexta-feira, 27 de julho de 2012

Do exercício da dança

Salvador Dali - Metamorfosis de Narciso (1937)

Eras o parente de Chopin, o misterioso, o orgulhoso. Mas no fundo da tua alma escondia-se uma emoção convulsiva - o desejo de ser diferente daquilo que eras. É a maior tragédia, com que o destino pode castigar o homem. O desejo de ser outro, diferente daquilo que somos: não pode arder um desejo mais doloroso no coração humano. Porque não é possível suportar a vida de outra maneira, apenas sabendo que nos conformamos com aquilo que significamos para nós próprios e para o mundo. (Sándor Márai, As velas ardem até ao fim, pp. 99/100)

Que forças movem o mundo? O excerto de Sándor Márai sublinha aquilo que parece ser o essencial: o desejo de ser outro e o desejo de se conformar com aquilo que se é. Poderíamos dizer: o desejo do burguês e o desejo do aristocrata. O primeiro não suporta a sua subalternidade social e o segundo apenas compreende o que é imutável, a sua eterna condição de aristocrata. Mas tudo isto repousa numa sabedoria humana e incerta. Quem sou eu ou o mundo para determinar quem é este que diz eu? O aristocrata vive num narcisismo encerrado na imanência atemporal de si mesmo. O burguês descobre-se narciso em metamorfose, uma auto-produção do seu desejo. 

Há uma outra via, aquela de quem aceita que é um mistério e faz da vida um caminho de decifração. Não quer ser outro nem quer ser si mesmo. Deixou de querer e entrega-se ao puro devir, à dança do acontecer, encontrando aí os sinais a decifrar. Esse já não quer conformar-se com o seu significado, pois descobriu a sua in-significância; também não deseja qualquer alteridade, pois deixou de saber a diferença entre o mesmo e o outro, e não crê que exista algum si mesmo de onde parta ou algum outro onde possa chegar. Ele não quer mover o mundo, mas exercitar-se a dançar nele e com ele.

quinta-feira, 26 de julho de 2012

A Gronelândia como metáfora

Foto do Público

Aquilo que se está a passar na Gronelândia deveria alertar-nos para os modelos de sociedade que temos ainda a pretensão de construir. A questão não é de nos tornarmos todos mais ricos, mas como devemos gerir os parcos recursos com decência e civilidade, como distribuí-los de forma equitativa, agora numa maré recessiva e num universo humano muito mais amplo. Qualquer pensamento político que não tenha os problemas ambientais em atenção e a cooperação de todos para a defesa de um futuro para a humanidade é uma autêntica distopia, uma ameaça à sobrevivência da própria espécie. O que está em questão é o horizonte social que foi traçado com o Iluminismo. O exercício do egoísmo, pressuposto antropológico do liberalismo, está a conduzir-nos a um beco sem saída. É preciso repensar a comunidade sem destruir o indivíduo. Contudo, não estou certo que, em desespero de causa, a humanidade não se volte para formas comunitárias onde o valor da singularidade seja erradicado. Não é apenas a superfície de gelo na Gronelândia que se está a fundir. Tudo parece em rápida fusão, a Gronelância é apenas uma metáfora poderosa. 

Verão, poupem-me

Edward Hopper - Summer Interior (1909)

Como percebo o ódio à Europa do Sul. Talvez esteja na primeira linha desse ódio ou desprezo, talvez seja melhor dizer desespero. Cheguei há pouco a Torres Novas vindo de um sítio mais fresco e tudo começa a derreter-se. Quero ler e escrever, mas o calor adormece-me os neurónios e executa, sem patíbulo ou forca, a pobre vontade, já de si pouco dada a grandes investimentos (não, não é uma vontade liberal, apenas no desperdício usa de liberalidade). A casa aqueceu nestes dias de ausência. Quem lhe deu ordem para tanta autonomia? Cada ano que passa parece pior ou sou eu que estou mais sensível. Como pode alguém trabalhar em sítios como este? Ainda por cima o ar condicionado dá-me cabo da garganta. Os alemães se vivessem cá seriam mais pobres e devedores do que nós. O melhor seria pôr a senhora Merkell a mourejar por aqui. As dúvidas passavam-lhe. Falam-me do microclima de Torres Novas. Quero lá saber do microclima, podiam muito bem colhê-lo e exportá-lo para a Finlândia. Conto, com o único neurónio acordado, as horas para me pôr ao fresco.

quarta-feira, 25 de julho de 2012

O mistério da soberania (2)

Michael Wolgemut - Royal portrait

O filho do oficial da guarda sentia que obedecia a ordens escritas e não escritas muito peremptórias, e essa obediência no quartel, no campo de exercícios e nos salões era, ao mesmo tempo, também serviço. A sensação de segurança para cinquenta milhões de pessoas baseava-se nisto: que o imperador se deitava  antes da meia-noite, se levantava logo às cinco da manhã e se sentava numa cadeira de braços de vime americano, à luz duma vela, e todos os outros que juraram lealdade ao seu nome obedeciam às convenções e às leis. Naturalmente, tinham de obedecer num sentido mais profundo do prescrito pelas leis. Uma pessoa trazia a obediência no coração e isso era o mais importante. (Sándor Márai, As velas ardem até ao fim).

Poder-se-á pensar que todo o mistério da soberania reside nos deveres de lealdade e de obediência. Não de uma lealdade superficial e resultante de um cálculo ocasional ou de uma obediência estrita à letra da lei, mas de uma inscrição no coração, muito para além da dimensão da razão, desses deveres ancestrais de obediência e de lealdade. Mas isso não representaria qualquer mistério, apenas uma explicação fundada no sentimento e não, como gostam os modernos, na razão.

O mistério da soberania reside na impassibilidade do soberano, no facto de ele ser uma espécie de motor imóvel, como o deus de Aristóteles. Impassível e dado à pura repetição ritual dos hábitos, o soberano faz mover o mundo, permitindo que este se mova. A lealdade e a obediência são necessárias desde que o soberano se mantenha na impassibilidade. Esta não é inacção, mas, à maneira do Zen, um agir não agindo, um exercício de sabedoria política suprema. O imperador austro-húngaro tinha toda a sua sabedoria concentrada nesse deitar antes da meia-noite e levantar-se às cinco da madrugada para se sentar numa cadeira de vime americano. Mas ele representava já um mundo que tinha morrido e com ele a soberania.

No afã da acção, o governante moderno deixou de ser soberano e passou a ser executivo. Executar é pretender substituir-se àqueles que devem fazer. O curioso de tudo isto é que quanto mais liberais e adversários do Estado são os governos mais eles são executivos, gente de acção, gente que quer conformar o mundo ao seu gosto, isto é, à sua ideologia particular. Isto representa a morte da soberania. Não admira que a Europa, tão cheia de executivos, se debata há longas décadas numa crise de identidade irreversível, apenas disfarçada pelo período do pós-guerra que terminou em 1989. O agir não fazendo do soberano era o princípio que permitia as instituições funcionarem. Ao não agir, ao deitar-se e levantar-se, apenas, o soberano não destruía, estava acima da destruição e da criação, deixava isso aos actores. Hoje os executivos são agentes, gente que ao pretender criar está a destruir, sem que acima deles exista algo que sustente a permanência. 

terça-feira, 24 de julho de 2012

O mistério da soberania (1)

Albert Dürer - An Orientela Ruler Seated on His Throne (1495)

Era uma grande família - Viena, o Império, os húngaros, alemães, moravos, checos, sérvios, croatas e italianos -, e dentro dessa família todos sentiam secretamente que no meio dos desejos tumultuosos, inclinações e paixões, o imperador era o único capaz de manter a ordem, que era, ao mesmo tempo, sargento em serviço contínuo e majestade, funcionário público de manga-de-alpaca e grand seigneur, campónio e soberano. Viena irradiava alegria. (Sándor Márai, As velas ardem até ao fim, p. 44)

É nesta ambiguidade do soberano, neste seu ser senhor e, ao mesmo tempo, servidor, que reside o mistério da soberania. Esta não deriva de um cálculo racional dos cidadãos, ao qual se sucede um contrato social, mas a uma relação que a história - isto é, a acção dos homens no tempo - tornou misteriosa. O soberano, quando o é verdadeiramente, é esta figura ao mesmo tempo luminosa e sombria, aquele que é o princípio e o garante da ordem, mas que, de alguma maneira, está fora dela. Por isso, há em todos os verdadeiros soberanos uma aura, uma irradiação muito própria, que a razão nunca será capaz de explicar completamente, mas que o sentimento e a própria imaginação também não são capazes de compreender. O soberano é um símbolo do mistério humano, onde se conjuga a necessidade da obediência e o direito à autonomia e à liberdade. O soberano é o mais livre dos homens e, ao mesmo tempo, o servo mais submisso ao cimo da terra.

Por soberano, não se entende apenas os reis, mas qualquer um que ascende ao poder e ao império sobre os homens. Há reis que não simbolizam nada e há presidentes eleitos que trazem a marca clara da distinção e da eleição divina para o exercício da soberania. O pior é quando, como acontece nos dias de hoje, somos governados por sargentos, mangas-de-alpaca e campónios cuja legitimidade repousa apenas na contagem dos votos, a quem falta a secreta e divina unção vinda do fundo do mistério humano. Nestas alturas, a comunidade está exposta ao maior dos perigos, à sua desagregação e desaparecimento.

segunda-feira, 23 de julho de 2012

A pátria literária

Josep Grau-Garriga - El Poder (1999)

Em todos os poderes humanos existe um ligeiro, delicado e quase imperceptível desprezo por aqueles que dominamos. Só podemos dominar inteiramente almas humanas, se conhecemos, compreendemos e desprezamos muito discretamente aqueles que são forçados a render-se. (Sandor Márai, As velas ardem até ao fim, p.46)

Há qualquer coisa de esquivo nos meus gostos literários. Nascido no sul da Europa, descobri que a minha verdadeira pátria literária não reside nos países do sul europeu (e o romance moderno nasceu em Espanha, com o Quixote), incluindo aí a França. As literaturas americanas, as do norte como as do sul, sempre tiveram para mim qualquer coisa de estranho. Há ingleses de que gosto bastante, para não falar dos russos (talvez, a literatura mais espantosa ao cimo do planeta). Mas onde me sinto em casa é quando leio a grande literatura da Europa central. Áustria, Alemanha, República Checa, os países que fizeram parte do Império Austro-Húngaro. Há nessa literatura qualquer coisa de decisivo e sombrio. A vida, mesmo romanceada, parece tingida de uma seriedade incomparável, como se houvesse consciência da irrepetibilidade de cada instante e essa irrepetibilidade fosse a marca de um destino que urge configurar antes que ele se nos imponha com a sua desordem.

O excerto que citámos do húngaro Sandor Márai poderia ser escrito no sul? Por exemplo, Agustina Bessa-Luís poderia dizer algo de muito parecido, mas haveria outra luminosidade nas suas palavras, uma exposição vinda da esfera do sentimento. No texto de Sandor Márai há uma claridade sombria. A sombra que vem do exercício da dominação e do desprezo discreto e subtil pelo dominado. A claridade trazida pela razão que ilumina o sentimento. Não se trata de expressar ou exprimir qualquer emoção, mas de mostrá-la no seu ser, de lhe trazer a luz da razão. O que Sandor Márai, no contexto em que se insere o excerto citado, está a mostrar é que em toda a amizade profunda e autêntica, como em todo o amor,  há, por parte de um dos amigos, uma dimensão de poder e de desprezo. Talvez seja esta luz da razão aplicada à vida que me faz sentir em casa quando leio os grandes romancistas da Europa central. Para mim o romance é a mistura de luz da razão e da sombra da vida, e é isso que encontro sempre nessa literatura, como se ela fosse o lugar onde razão e não-razão se encontram para celebrar casamentos mais ou menos felizes.

Maldita escola pública

Juan Botas - School (1989)

Tendo entrado de férias, a última coisa que me apetecia era escrever sobre questões de educação. Mas isto (é muito instrutivo ler os comentários, uma espécie de voz do povo justicialista) e isto não me deixaram descansar. Há muito que é claro para mim que a escola pública em Portugal e os seus agentes, os professores, são objecto de um particular ódio de certos círculos. O motivo desse ódio é o sucesso da educação pública em Portugal. Ela retirou em poucas décadas o país do analfabetismo e, num país miseravelmente desigual, conseguiu produzir alguma mobilidade social. E se a escola pública não conseguiu mais deve-se à contínua interferência dos políticos, que parecem, desde há muito, apostados em destruí-la. A escola pública incomoda muita gente. Como o estudo publicado mostra, se para a entrada nas Universidades apenas contassem os exames, o sucesso do ensino público (já sem as elites sociais e culturais, que se refugiaram, depois de anos de propaganda, nos colégios particulares) seria ainda mais escandaloso. Como não conseguiram ainda reduzir a escola pública à pura inanidade, há que destruir ainda mais o clima que nela se vive, descobrir regras para pôr professores na rua ou inventar benefícios pedagógicos com o aumento de número de alunos por turma. Não é falta de dinheiro nem o acordo com a troika que está por trás disto, mas um desígnio obscuro (cada vez menos obscuro, diga-se de passagem) de tornar irrelevante a maldita escola pública. Só haverá descanso quando a escola dos filhos da gente que não conta for reduzida a menos que nada.

domingo, 22 de julho de 2012

Gente que não presta

Francisco de Goya y Lucentes - Esto es malo

A maldade humana nunca deixa de ter motivo para se manifestar. Uma curiosa manifestação é a de alguns bloggers liberais que parecem ter um regozijo extremo com a situação em que dezenas de milhares de professores foram colocados pelas decisões arbitrárias do ministro da Educação. O mais interessante, nessa gente que é tão liberal e tão defensora do mercado, é que vive dependente do Estado e, muitas vezes, o seu emprego apenas é assegurado porque alguém manipula a realidade para justificar certas funções. Todos esses liberais deveriam dar o exemplo: demitirem-se do Estado e mostrarem a sua virtude empreendedora na iniciativa privada (se alguém os quisesse). A maldade não tem limites e há gente que não presta.

sábado, 21 de julho de 2012

A verdade de um país


Esta história do Público diz mais sobre o que têm sido os nossos equívocos do que cem tratados de sociologia. Muito provavelmente os preços dos salários oferecidos a electricistas, canalizadores, serralheiros, engenheiros agrónomos e operários agrícolas reflectem o mercado paroquial português. Conforme sublinhou Michael Foucault, os mercados instituíram-se como um lugar de veridicção, um lugar onde se revela uma dada verdade sobre  o preço das coisas, inclusive o preço do trabalho. Mas através dessa verdade elementar, nós podemos descortinar outra verdade sobre o funcionamento global de uma sociedade como a nossa.

Portugal, desde 1975, desistiu de ter um ensino profissional sério e eficiente. Em nome de uma putativa igualdade, os antigos cursos industriais e comerciais foram destruídos e os alunos encaminhados para formações gerais de carácter liceal. A praga do abandono escolar está ligada, em larga medida, a esta opção. Há estudos sobre isso, não vale a pena retomar a questão. A verdade é que os novos cursos técnico-profissionais e tecnológicos nunca alcançaram o prestígio profissional dos antigos cursos técnicos. No entanto, talvez não se tenha noção da tragédia maior. Muitos dos alunos desses cursos construíram, ao longo de décadas, um tecido de pequenas empresas que animaram a economia do país. Isso, com o fim das escolas técnicas e o passar dos anos, desapareceu irreversivelmente.

A somar a isto está a mais completa ausência de planeamento da educação. A partir dos anos noventa ninguém pensa a relação entre o desenvolvimento da economia e a abertura de vagas no ensino superior. Mais uma vez em nome de uma utopia, julgou-se que a abertura indiscriminada do ensino seria recompensada. Os resultados estão à vista: desemprego e proletarização dos jovens com licenciaturas, mestrados e doutoramento e, como corolário, a destruição das classes médias de que eles deveriam ser o sangue novo. O ódio ao planeamento que anima as irresponsáveis elites políticas portuguesas conseguiram que o valor de mercado de uma engenheiro agrónomo e de um operário agrícola sejam exactamente o mesmo: o ordenado mínimo. Para que serve a retórica do esforço, do mérito, do conhecimento e do estudo?

sexta-feira, 20 de julho de 2012

O velho camponês

Marc Chagall - La Revolución (1937)

Ontem, em mais de 80 cidades espanholas, as pessoas saíram às ruas para protestar contra a política de austeridade que o governo espanhol, sob a orientação da troika, está a impor. Se em Portugal a reacção fosse idêntica, deveriam ter ocorrido grandes protestos em cerca de 17 cidades. Contrariamente ao que se passa em Espanha, a reacção dos portugueses a uma política muito mais brutal é praticamente nula. Se o governo está completamente ensarilhado deve-o a si mesmo. Até agora, com a excepção dos médicos, os portugueses, quando são castigados pelo governo, não apenas aceitam a bofetada como dão a outra face e, se for preciso, ainda abanam a cauda. Sei que por vezes se ouve rosnar, mas deve-se mais a uma impressão na garganta do que a um protesto efectivo.

Esta estranha quietude, esta indiferença perante o próprio destino, esta incapacidade de indignação é algo que deveria dar que pensar. Há dois pontos de vista que se confrontam sobre o assunto e que me parecem perigosos. Na esquerda, o desânimo por se estar a perder uma oportunidade tão propícia para a revolução social, pelo menos para a agitação de rua e conflito político fora do parlamento. Na direita, o contentamento com a conduta dos portugueses, com a sua cordialidade e devoção aos desígnios dos governantes e daqueles que os guiam.

Há na reacção dos portuguesas uma sabedoria ancestral, uma desconfiança, que parece inata, na ideia de revolução social, um desejo contínuo de paz social, um amor à tranquilidade da vida e à amenidade dos hábitos. A estratégia da esquerda raramente tem em conta esta idiossincrasia nacional. A esquerda sonha com o movimento social e o conflito, sonha com as imagens que lhe vêm de fora, delira com um mundo de gente nas ruas e muitas bandeiras vermelhas no ar. Parece que isso tem pouco a ver connosco. Por seu turno, a direita julga que esta atitude dos portugueses é um óptimo sinal, que assim conseguem mostrar aos mercados e à senhora Merkell que são alunos bem comportados e gente reverenciadora da autoridade. A direita não percebe que o estado abúlico da contestação social é o outro lado da ausência de iniciativa, essa iniciativa que faz funcionar a sociedade, que dinamiza os mercados locais, que cria empresas, que fomenta o bem comum através de acções individuais ou colectivas.

O que nos estão a dizer os portugueses com a sua atitude? Que não querem saber nem do socialismo nem do liberalismo, que esses assuntos lhes são estranhos, radicalmente estranhos, coisas de estrangeiros, fatos pronto-a-vestir que não se adequam ao nosso corpo social. Isto não significa que essas ideologias devam ser substituídas pela ideologia do patriotismo, esse último refúgio de um canalha, como o sublinhou Samuel Johnson (Patriotism is the last refuge of the scoundrel). Isto não significa que esquerda e direita não tenham lugar em Portugal. Têm-no, mas precisam claramente de se adequar ao povo que somos e às circunstâncias em que vivemos. Precisam de compreender que uma parte do país ainda é pré-moderna e que a modernização das atitudes e das crenças é muito recente e bastante superficial. 

Raspam-se, muito ao de leve, os comportamentos aparentemente mais pós-modernos e logo surge o velho camponês, com as suas tradições, rituais e medos ancestrais, mas também com um certa sabedoria irónica e cínica sobre o mundo e os seus senhores. No fundo, as elites políticas, empresariais e sindicais vivem num universo estranho e rarefeito, um clube restrito que nunca abriu a porta ao velho camponês que ainda vive sob a pele de muitos de nós. Não quer isto dizer que amanhã o velho camponês não perca a cabeça e faça um disparate, não significa que esta bonança não tenha dentro dela uma tempestade violenta. Mas um tempestade não é um revolução.O camponês, na sua pobreza atávica, não gosta de desordem nas ruas e desconfia de grandes esmolas.

Degradação



Cada país tem o governo que merece.
Joseph de Maistre (1811)

Na crónica da passada segunda-feira, no Público, o historiador Rui Tavares fazia uma leitura geral da perversão das elites políticas em várias fases da vida nacional. Começa com o monarquia liberal, no século XIX e inícios do XX, passa para a República de 1910 e conclui com a República pós-25 de Abril. Nos três regimes aconteceu um fenómeno semelhante. Na primeira fase, as elites políticas são compostas por pessoas bem preparadas, geralmente sérias e politicamente consistentes. Depois, com a evolução do regime, essa elite é substituída por gente cada vez mais desqualificada e inconsistente.

O episódio Relvas é apenas um sintoma do grau de degradação política a que se chegou. Se olharmos tanto para o governo como para a oposição, com muito poucas excepções, o panorama é aterrador. Como é que permitimos que José Sócrates ou Passos Coelhos, sem ter dado qualquer tipo de provas, tenham chegado à chefia do governo? Como pode alguém como António José Seguro ter a pretensão de vir a governar Portugal?

O problema que se coloca em Portugal desde o liberalismo é o da fragilidade das instituições e o da sua impotência perante gente ambiciosa e, intelectual e politicamente, desqualificada, perante os videirinhos que colonizam e vampirizam a vida da comunidade. Qual a razão desta fraqueza. A resposta só pode ser uma: a debilidade das instituições e a sua impotência perante quem as destrói deve-se à fragilidade do próprio soberano.

Em regimes de soberania popular – e é curioso que na ditadura do Estado Novo, onde a soberania popular foi suspensa, nunca se chegou a um tal grau de degradação das elites políticas – as instituições dependem directamente do juízo dos cidadãos. A degradação em que se vive foi uma opção nossa. Concebemos a política à luz das paixões futebolísticas. Durante décadas, o importante foi a vitória dos nossos. Fomos, enquanto povo, acríticos, complacentes e indiferentes ao bem comum. Isso permitiu que ora o PS ora o PSD e CDS governassem, sem grandes problemas de consciência ou escrúpulos. A clubite partidária suportava-os. Foi assim que Portugal chegou onde está.

Enquanto comunidade, temos de tomar a decisão se vamos continuar a avaliar a vida política à luz dos nossos fervores clubistas ou se, com a situação dramática em que vivemos, aprendemos alguma coisa, aprendemos a ser exigentes com aqueles que são eleitos, aprendemos a ser críticos, aprendemos a desconfiar de quem, com o nosso voto, colocamos no poder. Fora isso, a degradação não terá fim à vista. Cada país tem o governo que merece.

quinta-feira, 19 de julho de 2012

A imaturidade ocidental

Jacinta Gil Roncalés - La carcel del pensamiento (1998)

Dar-se conta de que as coisas mais fundamentais da realidade estão fora da jurisdição do pensamento e da vontade constitui para numerosas culturas o início da maturidade. É esta consciência que incita a deixar crescer a confiança na realidade, que é a origem da alegria e da paz. (Raimon Panikkar (2012). Mystique plénitude de Vie. Paris: Éditions du Cerf, p. 41)

Quando no início do Timeu, de Platão, é narrado o episódio do encontro entre Sólon e sacerdotes egípcios, um destes, muito velho, diz: "Sólon, Sólon, vós, os Gregos, sois sempre crianças; um Grego não pode ser velho" (Tm 22 b). Esta ideia de uma  imaturidade dos gregos, assinalada por um representante de uma tradição não ocidental, marca a natureza civilizacional do Ocidente. A imaturidade nasce, conforme se percebe na continuação da leitura do Timeu, da incapacidade de recordar as tradições mais antigas, aquelas que constituem o fundamento da actualidade. A questão da maturidade, porém, não residirá num culto do passado pelo passado, mas da consideração de uma sabedoria que se foi instituindo na longa experiência da humanidade e que os ocidentais julgaram por bem esquecer.

Como se desenvolveu, na história do mundo, a imaturidade ocidental? Ela cresceu na crença de que a realidade está dentro do poder do pensamento e da vontade humanos. Que o homem a pode conhecer segundo o seu pensamento e transformá-la conforme a sua vontade. Foi esta crença, iniciada na Grécia com a própria filosofia e continuada na Europa moderna com a preponderância da acção que, curiosamente, tornou possível a dominação que o Ocidente, durante alguns séculos, exerceu à escala mundial. Essa imaturidade manifesta-se na crença de que é real apenas aquilo que é pensável e aquilo que é fruto das acções voluntárias do homem. Isto produziu a mais desenvolvida civilização material de que há conhecimento, ao mesmo tempo que  reduziu os ocidentais a puras crianças, dependentes dos brinquedos tecnológicos e da acumulação de dinheiro. Toda a vida espiritual do Ocidente, hoje em dia, se resume à tecnologia e às finanças.

Apesar do poderio do pensamento e da acção ocidentais, o facto de, como os gregos, eles não passarem de crianças tornou a civilização ocidental completamente incapaz de resistir à sua desagregação. Passo a passo, em silêncio, as velhas civilizações asiáticas - que até há pouco pareciam moribundas - pegaram nas armas ocidentais e trataram de derrotar o Ocidente a partir dos pressupostos que ele próprio, no exercício da sua imaturidade, tinha criado. A Europa é já hoje uma dolorosa irrelevância e os EUA - essa outra Europa do lado de lá do Atlântico - entraram num processo de decadência que não tem fim à vista. Ao reduzir tudo ao pensamento calculador e à acção voluntária (à filosofia, à ciência e à economia), os ocidentais tornaram-se impotentes para perceber a sabedoria  que permitiu aos orientais tornarem-se, pouco a pouco, senhores do mundo. 

Muito provavelmente será tarde para evitar o completo colapso do Ocidente. No entanto, a cada um de nós abre-se a possibilidade de sair da imaturidade pela meditação do destino que está a cair sobre nós. A menoridade não reside, como pensava Kant no célebre manifesto sobre o Iluminismo, numa razão (teórica e prática) não autónoma. É a própria crença na autonomia da razão que é o sinal da imaturidade ocidental. O que há de mais fundamental na realidade, como lembra Panikkar, está para além do domínio da razão. Há outras luzes que as luzes do Iluminismo não deixam ver.

quarta-feira, 18 de julho de 2012

Uma escola monstruosa

Max Ernst - Placa para una escuela de monstruos (1968)

Este artigo de Santana Castilho ou este post de Paulo Trilho Prudêncio mostram a situação monstruosa a que se está chegar no sistema educativo português. A dimensão é absolutamente catastrófica. Depois da experiência monstruosa com Maria de Lurdes Rodrigues temos direito aos delírios monstruosos de Nuno Crato. Sublinho apenas dois corolários destas monstruosidades.

O que Nuno Crato, na linha de Maria de Lurdes Rodrigues, veio dizer aos professores do ensino não superior é que eles são literalmente nada. Puros números que se cortam ou adicionam conforme as circunstâncias. Talvez os professores tenham contribuído para isso. Talvez os professores, ao julgarem que deveriam ter uma atitude de proximidade com a comunidade, de fusão com o meio onde ensinam, tenham esquecido aquilo que faz a força de outros grupos sociais, e aquilo que em tempos fez a sua força, tenham esquecido que o respeito nasce da gravitas e da distância. Foi-lhes pedido essa proximidade, foi-lhes exigida, e os professores, muitas vezes, não resistiram a esse canto da sereia. Mas sem a distância e sem a gravitas desaparece a imagem de dignitas, que é essencial ao desempenho da função docente. É evidente que o Ministério da Educação, por vezes em colaboração com os sindicatos, tudo fez para que essas antigas virtudes professorais fossem destruídas. As coisas foram de tal maneira longe que conseguiram erradicar uma percepção essencial: o professorado exerce, ao lado das funções de soberania, a mais importante função para a sobrevivência de uma comunidade. Imagine-se apenas um país em que não houvesse professores e sistema de ensino. Enquanto militares, corpos de segurança, pessoal do poder político e judicial têm funções soberania reconhecidas, os professores exercem-nas todos os dias ao construir a comunidade política dentro das escolas, mas há uma recusa óbvia em reconhecer o facto. Pelo contrário, o poder político parece necessitar sistematicamente da fragilização do professorado, da negação da sua efectiva importância política e do peso real na construção da sociedade. Nada disto tem a ver com a troika, claro. São puras opções ideológicas. 

O pior, contudo, não tem a ver com os professores. O que Nuno Crato veio dizer é uma coisa muito simples: os cidadãos que têm os filhos nas escolas públicas não contam para nada. São gente que não merece um investimento minimamente coerente e decente na formação dos filhos. Estes, obviamente, também não merecem seja o que for. Aliás, há uma coisa que desagrada sistematicamente a certas elites. É que as escolas públicas, apesar de todas as tropelias que sofrem, conseguem fazer chegar alguns filhos de gente que não conta às universidades mais importantes, ocupando lugares que deveriam ser, obviamente, daquela gente que conta. Há muito que o Ministério da Educação, objectivamente, se esforça para criar as maiores dificuldades ao ensino público e, assim, favorecer os grandes colégios privados. Nuno Crato parece ser o campeão desse desígnio. O que interessam esses alunos pé-rapado que têm de estar na escola pública? Podem ser amontoados em turmas enormes, dentro de organizações absolutamente tresloucadas, onde o funcionamento minimamente coerente e eficaz é impossível. Já não há qualquer pudor na luta social e os governantes não escondem de que lado estão nesse conflito.

Escolas e turmas monstruosas têm por finalidade fomentar um ensino monstruoso e produzir, do ponto de vista do saber e da cidadania, monstros. Parece que foi para isto que Nuno Crato quis ser ministro.

terça-feira, 17 de julho de 2012

Missa Pro Defunctis (XXI)


21. In Paradisum

Afasto-me da pátria em chamas, dos jardins cansados.
Matilhas de cães percorrem vielas e rosnam,
Param num coreto vazio, uivam às estrelas.
O ronco de uma sirene perfura a noite,
Esburaca paredes e retine nos ouvidos,
Tão surdos, os dos espectadores adormecidos,
Ruínas metálicas na amargura de um quarto vazio.

Deixar pairar a mão sobre a pele.
Os dedos iluminados, pássaros de erva e seda,
Navegam no império cego do teu corpo,
Traçam fronteiras, abrem caminhos,
Soletram mapas na textura do tacto,
Para, olhos fechados, sentirem a pulsação
A vibrar no fundo que há no fundo de ti.

Os deuses abandonaram-nos ao destino.
Como somos pobres e velhos, e a nossa carne,
Outrora bela, abre-se em escaras verminadas,
Sulcos de matéria em putrefacção.
Rios de sangue coagulado tingem o musgo
Vindo da floresta, parasita a crescer no soalho,
Pedra de fogo e mármore em decomposição.

A boca poisa em teus lábios, o dia amanhece,
E o sol mostra agora o caminho.
Desço e sucumbo na radiação solar,
Canto no sabor inquieto da tua respiração.
Tudo em ti resplandece e chama por mim.
Uma ave solitária poisa, um fogo no ventre,
Morde-te ao de leve a pele branca,
Escuta-te o murmúrio na rebentação da manhã.

As montanhas perderam o aço que as erguia,
São, nestes dias de inverno, ruínas, detritos,
Uma vida que se entregou tão cansada de cantar.
Sobem, pelos destroços das encostas, faces que não sei,
Trazem bandeiras, arcos e flechas e cantam canções,
Estranhas canções, deixam-me o coração amargo
E uma dor feroz no vazio dos intestinos.

Que dádiva haverá, pergunta-se o pássaro,
E dança e salta no ondear inquieto do teu ser.
Peregrino sem bússola em busca do santuário,
Fecha os olhos, inclina-se, sussurra orações.
Ajoelha-se, o viandante, na relva do púbis,
Saboreia erva a erva e escuta o rumor da terra
A nascer por dentro, nessa casa de sombra e âmbar.

Também eu falo de Atenas devorada pelas cinzas,
E de Roma tombada pela mão do bárbaro,
E de Jerusalém incendiada, sem Cristo nem Virgem,
E de tudo o que amei, agora um despojo inútil.
A cabeça pesa e a garganta secou de tanto gritar.
Quando chego a Lisboa, vindo pelo Tejo,
Vejo escombros, D. José pobre e refugiado numa tenda,
E, sem resposta, pergunto ao destino pelo Marquês.
Oiço gritos e trombetas e vejo bandos de anjos,
Transportam os mortos, tão pálidos e tão serenos,
Para o lugar vazio onde a sua morte os espera.

Um fôlego incendiado de mar no santuário,
O desejo oblíquo do teu gosto ardente.
Quieta, afastas as pernas na opulência do rito,
Chamas por mim e desenhas um caminho.
Levemente, na severidade da hora,
A língua, sonâmbula, entra na maré em chamas,
E extasiada saboreia cada segredo de orvalho,
E todos os incêndios de água sobre o mar,
E todas as inundações de fogo no bosque,
O infrutífero amor na exausta lareira crepita.

A matéria da vida, argamassa de carne, partiu,
E os carros passam negros na estrada magnífica.
Vão silenciosos e recatados, tremem suavemente,
Seguem sem destino, debandam, faúlhas do medo.
Nas ruas e praças, amontoa-se o carvão das horas,
E o exército dizimado corre e foge cabisbaixo.
Ao longe, estrondeiam morteiros, fogo de artifício,
Ouvem-se cânticos límpidos que não conheço,
Sob pendões e bandeiras, não os amo.

Tudo se ilumina na secreta luz que nasce,
Os dias passados e as noites por dormir,
A água que golfa na avidez da nascente,
O sabor incendiado e o sexo andrajoso.
Assim subjugado, rendo-me e saboreio-te
E sinto todas as tuas cordas na orla do meu ser,
E quero, eterno, o paraíso que mana de ti,
O beijo trazido pela cratera ensanguentada,
A dor que nasce na solidão da minha boca.

Afasto-me em delírio da pátria em chamas,
Entrego-me às trevas com que me aguardas.
Abandonado pelos deuses, sem dor ou prazer,
Ergo a taça ao estéril Cupido, a morte deleita.

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Com In Paradisum termina a publicação de Missa Pro Defunctis, um ciclo de poemas escrito em Setembro e Outubro de 2011, constituído por 21 poemas. Uma meditação poética sobre a nossa situação actual, meditação que acompanha a estrutura de um Requiem na tradição religiosa católica. Ite, missa est.

domingo, 15 de julho de 2012

A falsificação liberal

El Greco - La expulsión de los mercaderes del templo (1600)

Acedi a este artigo do Guardian graças ao Zé Ricardo (Ponteiros Parados). A tese que me interesse diz respeito ao papel actual da educação no combate (sic) à mobilidade social. A realidade americana e inglesa mostram o declínio dessa mobilidade e o endurecimento das divisões sociais. O título do artigo, na ironia negra que dele emana, é esclarecedor: Born poor? Bad luck, you have won last prize in the lottery of life. Vale a pena ler o artigo. Duas notas sobre o assunto. Uma específica e outra geral.

A destruição sistemática da escola pública em Portugal, as nefandas reformas que sobre ela recaem a cada momento, as invenções ministeriais, a cada vez mais drástica redução da liberdade dos professores, as extraordinárias medidas do actual governo, disfarçadas de compromisso com a troika, só têm um fim: evitar a concorrência entre os alunos do ensino público e os do ensino privado. Não estou a afirmar que há uma conspiração. No entanto, as políticas seguidas têm sido consistentes de forma a evitar que os filhos das classes pobres concorram para os lugares das melhores universidades portuguesas e ocupem os lugares que as elites sociais julgam ter direito por nascimento. Mesmo para um não marxista como eu, é claro que que tem havido em Portugal, da parte dos partidos do arco governativo (CDS, PSD e PS) uma política educativa classista, muitas vezes com o apoio explícito de partidos como o PCP e o BE (quando, por exemplo, se pronunciam contra os exames e a favor da avaliação contínua). Esta é a nota específica.

A segunda nota, a geral, diz respeito ao comportamento das elites económicas e à falácia da concorrência e à pureza social do mercado. O que se assiste, e que o artigo do Guardian torna claro, é a um refinamento das estratégias de diferenciação e de bloqueamento da concorrência entre pessoas de estratos sociais diferentes. Utilizando a colaboração das elites políticas, as elites sociais constroem um mundo onde se protegem e protegem os seus. A pureza da concorrência - a vitória do mais eficiente e eficaz - é pura retórica e aplica-se, quando se aplica, apenas ao campo económicos (e mesmo aí para que as grandes companhias destruam ou devorem as pequenas, promovam a concentração e evitem, na prática, a concorrência). É evidente que a lotaria do nascimento tem importância, mas ela só se torna absolutamente decisiva quando, de forma mais evidente ou mais subreptícia, a acção política tem como finalidade ajudar os mais fortes a proteger-se da concorrência social, que é aquilo que acontece neste momento no mundo ocidental e, de forma absolutamente despudorada, em Portugal. Os liberais gostam muita da concorrência desde que os filhos dos pobres e dos remediados, enquanto os houver, não possam concorrer com os seus filhos. Um regime liberal não começa no mercado, mas nas oportunidades que são dadas a todos para poderem concorrer. A educação não é obrigatoriamente um lugar de emancipação. A direita percebeu-o muito bem e utiliza-a como estratégia de destruição da concorrência. Vivemos numa falsificação liberal.

sábado, 14 de julho de 2012

Missa Pro Defunctis (XX)

20. Libera me

Tiraste as algemas e ofereces-te em saldo.
Terei dinheiro para te pagar o valor de um seio,
A mão fria e suada sobre o sexo?
Para quê a liberdade, se o fogo enxameia o quarto
E a ira cresce no frio desvão da janela?

Tantas perguntas que tenho para te fazer.
Adormeço cansado e sonho com os dias de verão,
Quando anestesiado sonhava contigo,
Dentro de sonhos infestados pela ausência,
A fuga para um deserto frio e sem sol.

Trago o chicote e faço-o estalar
E oiço-te uivar mansamente no fundo da alma.
Escuto o murmúrio marítimo das orações,
O balbuciar infinito do meu nome,
A compra do descanso eterno.

Todas as calamidades da terra e a miséria que cresce,
Invade jardins, derruba bosques e florestas,
São a matéria que te compõe, te dá um brilho negro,
Na branca carnação com que entregas o espírito
E ronronas, submissa, sob o peso desta mão.

Flores pálidas habitam o incenso da desolação,
Clamam por água na imensidade vazia do oceano,
Enquanto os barcos passam levando as cartas
Que me enviaste para a moradia velha e escura,
Onde nada em mim te pediu a luz de um rio.

Pobre escrava liberta, o que são dois ou três séculos
De liberdade? O corpo pesa-te, as mãos pedem algemas
E as pernas, a felicidade dorida das grilhetas.
Fecho os olhos e oiço o estalar solitário do chicote:
A cobardia e a traição são a rosa branca da infâmia.

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Missa Pro Defunctis é um ciclo de poemas escrito em Setembro e Outubro de 2011. É constituído por 21 poemas e pretende ser uma meditação poética sobre a nossa situação actual, meditação que acompanha a estrutura de um Requiem na tradição religiosa católica. Será publicado integralmente neste blogue nos próximos tempos, embora sem periodicidade diária ou qualquer outra.

sexta-feira, 13 de julho de 2012

Limitar o poder



À primeira vista a desconfiança generalizada das pessoas na classe política é sintoma da doença que corrói as instituições políticas e a vida em comunidade. O facto de cada vez mais cidadãos se indignarem com os detentores do poder e de se alhearem da res publica tem todas as características de um estado patológico da cidadania. No entanto, não devemos olhar para esta atitude de uma forma meramente reactiva. Devemos perguntar pelo seu significado mais profundo.

A leitura corrente sublinha os perigos e malefícios da indignação e alheamento populares relativamente à vida política. Existem alguns perigos, nomeadamente o de se criar um ambiente propício ao crescimento do populismo e de soluções extremistas e autoritárias. No entanto, a desconfiança que se generaliza relativamente à classe política é sintoma de uma outra coisa, de uma coisa de elevado valor moral.

O desencanto das pessoas é o reverso das sua aspirações a uma sociedade justa, bem organizada, sem corrupção nem compadrio. Esse desencanto nasce do confronto com aqueles que, usando o poder, destruíram o sentido da justiça, da equidade, do reconhecimento do mérito, destruíram, em conformidade com interesses particulares, o ambiente moral onde a generalidade dos cidadão ambiciona viver.

Alguns, comprometidos com os partidos políticos fora do arco do poder, apresentam esses partidos como uma verdadeira alternativa ao actual estado de coisas. Contudo, a experiência feita no século XX e já no XXI exige uma outra abordagem do problema. Exige ao mesmo tempo o reforço da cidadania independente da esfera do poder e a limitação cada vez maior do poder e daqueles que o detêm. Não basta substituir uma elite política por outra. A alternativa não está aí. Por que motivo uma nova elite política seria diferente da anterior?

A questão central é o do reforço da atitude crítica dos cidadãos, da sua organização livre fora da tutela política, e de um esforço contínuo para limitar apenas ao que é essencial a acção das elites políticas. O poder, como sublinhava Paul Ricœur, é o lugar do mal. Quanto maior for o campo de acção desse poder, maior a possibilidade do mal crescer. Por isso, seja quem for que o detenha, tem de ser limitado, cada vez mais limitado, tanto no tempo de presença nos órgãos executivos como no âmbito das suas prerrogativas e capacidades de agir. É esta aprendizagem que estamos a começar a fazer, uma aprendizagem que visa aumentar a independência das pessoas perante o poder e, ao mesmo tempo, a exigência de uma cada vez maior limitação deste.

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Apontamentos para uma arte poética

Rafael - La poesía (1508-11)

[Recuperação, a propósito de um post anterior, de três textos do meu antigo blogue averomundo, retirado de circulação.]

O poeta Paul Celan afirmou que o poema é uma forma de “manifestação da linguagem” e, por isso, é na sua “essência dialógico”, dirige-se a alguém. Como se sabe, o fazer poético, esse produzir de um texto que se dirige a alguém, estrutura-se pela suspensão da semântica vulgar, pela abertura de novos espaços de sentido. Isto faz-se a partir de duas estratégias. A primeira, mais corrente, é a utilização das chamadas figuras de estilo, nomeadamente da metáfora. A linguagem renova-se, ao ampliar o conteúdo dos significantes, e dá a ver o mundo de uma forma que, devido ao desgaste, o uso vulgar da linguagem é já incapaz. A segunda, menos usual, implica uma certa desgramaticalização da frase poética. Esta desgramaticalização é uma suspensão da sintaxe corrente, ou uma reconstrução da sintaxe em novos moldes. Sublinharia, porém, que a poesia, enquanto forma de tecer textos e apesar da renovação que impõe da forma como habitamos e vemos o mundo, não deixa de reforçar essa forma de ver o mundo, naquilo que é a sua essência, a de compreender o mundo como um nexo de relações de causa e efeito. Estas são apresentadas de uma forma mais sedutora, devido ao efeito das figuras de estilo, e são, de certa forma, reforçadas, pelas novas formas de aproximação sintáctica, mas é ainda o nexo causal que é mostrado, pela poesia, como verdadeira essência do mundo.

Nós percebemos o mundo como uma cadeia de causas e efeitos, como um contínuo de ligações entre fenómenos, mas será que o mundo é efectivamente assim? A relação causal existirá efectivamente? Por exemplo, David Hume, embora não a negando, diz que nós não temos qualquer experiência da conexão causal entre fenómenos. Apenas nos habituámos a esperar que certa coisa aconteça quando uma outra acontece ou aconteceu. A ligação causal seria então o resultado de uma idiossincrasia psicológica da espécie humana. Mas o que tem a poesia a ver com tudo isto? Em primeiro lugar, poderemos pensar que aquilo a que David Hume chama um hábito se relacione com a estrutura sintáctica das nossas línguas. A sintaxe ordena os elementos dentro da frase. Esta ordem, porém, não é uma ordem que pertença ao mundo, mas à língua. Diferentes línguas ordenam os elementos no interior da frase de formas diversas. Essa ordenação linguística acaba por ser uma forma de compreender o mundo. Eu olho para o mundo a partir da sintaxe da língua que falo. Podemos perguntar, de forma mais radical, se a conexão causal que compreendo no mundo não será o efeito global da sintaxe que uso para descrever o mundo. Pode não haver ordem no mundo, ordem entre os fenómenos, mas a sintaxe impõe-na, cria-a. Em segundo lugar, podemos perceber que a poesia, apesar de suspender, por vezes, certos usos sintácticos correntes, não atinge o núcleo central da percepção causal dos fenómenos mundanos ou psicológicos. Ela não suspende a sintaxe, refunda-a, o que significará que ela refunda a forma de compreender a conexão causal que nos parece existir no mundo. A poesia, mesmo aquela onde a gramaticalidade usual é questionada, acaba por reforçar essa nossa percepção do mundo como uma evidente relação de causas e efeitos.

A poesia, mesmo quando suspende a gramaticalidade usual, reforça a nossa percepção do mundo como uma evidente relação de causas e efeitos. Mas se a nossa visão do mundo como uma cadeia de conexões causais tem a sua raiz num hábito psicológico, como defende David Hume, não deveria a poesia visar um "para além" do hábito? A consumação da essência da poesia não seria permitir que a linguagem dissesse esse outro mundo que se oculta no hábito, hábito que nos obriga a associar os fenómenos em infinitas cadeias de causas e efeitos? Mas que mundo seria esse onde não existisse uma ligação entre os fenómenos? Esse mundo não é perceptível por nós, pois contraria a formatação psicológica com que apreendemos a realidade envolvente e mesmo a nossa realidade subjectiva. Se conseguirmos imaginar uma utilização poética da linguagem para além daquela que fazemos, poderemos pensar então numa poesia não-causal. Mas esta poesia teria de re-inventar a sintaxe, descativando-a das conexões causais. Esse seria um primeiro passo, para logo de seguida instituir novas formas de conexão não causais. Ou, no limite, marcar uma nova forma de discurso no qual estivesse ausente toda e qualquer conexão, para além da continuidade temporal e da contiguidade no espaço.