quarta-feira, 31 de outubro de 2012

A irrupção do novo

Salvador Dali - Nacimiento del Nuevo Mundo (1942)

Em tudo o que se está a passar, na enorme confusão que se desenhou na sociedade portuguesa, há uma coisa que escapa tanto a governantes como a governados. Essa coisa poderia ser chamada a irrupção do novo. Há períodos na história em que a substituição de gerações se faz de forma ordeira e pacífica. Essa tonalidade amena leva-nos a ver esse modelo como aquele é que natural e bom. No entanto, há períodos em que a história parece acelerar-se e a irrupção do novo faz-se de uma forma mais dura e violenta. Faz-se pela expulsão do velho, das antigas gerações que ainda não são suficientemente velhas para abandonarem os lugares que ocupam, mas como o espaço escasseia e não há lugar para a substituição benigna, o novo toma a figura da turbulência e da violência. 

A forma como essa expulsão violenta se dá não está definida. Pode ser através de uma revolução política como aconteceu em 1974 ou pode ser através de uma crise económica e financeira como a que está a ocorrer. Aquilo a que estamos a assistir é a turbulência da eclosão do novo. E isso está a acontecer com uma violência inaudita perpetrada sobre o velho. A tendência das pessoas, fundamentalmente das que são afectadas, é não perceberem assim os acontecimentos. Em primeiro lugar, porque são atingidas e vêem o acontecimento pelo lado sombrio da injustiça que sentem na pele. Em segundo lugar, porque há uma tendência para se ver a irrupção do novo como um bem, como o triunfo de um novo mundo, que seria melhor e mais livre do que o anterior. Ora este novo mundo que está a irromper parece ser bem pior do que aquele que tem vigorado. 

Ora nada está escrito na natureza que impeça que a irrupção do novo seja injusta para o velho mundo. Também nada está inscrito na natureza das coisas que imponha que a novidade seja um bem. Essas são as nossas ilusões. Há uma mecânica na história que traz, inevitavelmente, estas convulsões. A exuberância da vida que não tem lugar para dar vazão à energia acumulada e a senectude rígida daquilo que ocupa ainda os espaços sociais existentes são um chamariz para a turbulência que está a suceder. Aquilo que está acontecer não é uma luta de gerações, é qualquer coisa mais profunda do que isso. É algo de não humano que se manifesta, como uma necessidade, na sociedade humana. 

Contrariamente ao que se possa pensar, este carácter de necessidade natural inscrito nesta turbulência não desculpa a governação do país - esta e as anteriores. Poder-se-ia pensar que como a turbulência da irrupção do novo se manifesta como uma força da natureza, o governo não seria responsável pelo mal que vai acontecer a muitos de nós. Puro engano. O dever dos governos - se eles não fossem ocupados por gente intelectual e politicamente desqualificada - seria compreender estes processos naturais, antecipar as situações, e organizar a vida social de forma a evitar as situações violentas da irrupção do novo. Como isso não foi feito e não está a ser feito, só podemos esperar uma tremenda desgraça, a qual espreita já no horizonte. Não vai ser bonito aquilo que vem aí, seja o que for.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Cruz negra

Kazimir Malevich - Black Cross (1920)

Quanto mais tempo os nossos actuais governantes andarem com a bandeira de Portugal na lapela, mais perto estaremos de andar com uma reprodução deste quadro de Malevich às costas.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Refundações e reavaliações

André Masson - El convento de los capuchinos en Céret (1919)

Quando, no outro dia, Passos Coelho falou de refundação, muita gente gozou com a palavra e com a expressão. Contrariamente ao que é habitual, levei Passos Coelho a sério. Estava a falar claro sobre aquilo a que veio. Toda a sua política, para além das contingências da dívida, tem um fim claro, e ele agora foi enunciado. A refundação é, em primeiro lugar, uma reavaliação das funções do Estado. Não pense o leitor que reavaliação significa evitar que o Estado interfira na economia favorecendo empresas privadas, nacionalizando bancos falidos e outras malfeitorias do género. Reavaliar as funções do Estado significa encontrar uma estratégia que permita acabar com o Sistema Nacional de Saúde, a Escola Pública e a protecção social. Significa como tornar os pobres mais pobres e encontrar nichos de mercado para uma certa casta de empresários nacionais incompetente e incapaz de competir. O problema é o de como entregar, a essa gente e de forma lucrativa (para o Estado e para os empreendedores), essas funções sociais. Todos sabemos o que os privados farão com o dinheiro que o Estado lhes porá nas mãos. Não será preciso descrever o cenário dantesco que o primeiro ministro sonha com a sua reavaliação mais a sua refundação. Muitos dos que têm servido de forma honrada o Estado e a comunidade bem podem começar a procurar um convento que os acolha.

domingo, 28 de outubro de 2012

Meditações taoistas (1)


Aquele que possui em si a plenitude da virtude
é como uma criança recém-nascida:
os insectos peçonhentos não o picam,
os animais selvagens não o esfacelam,
as aves de rapina não o arrebatam.
Lao Tse, Tao Te King, LV

Ao abandonar a casa paterna, Jeremias vogou pelo mundo, teve ambições e desejos, amou, perdido no restolho das searas desfeitas, mulheres extraviadas, enlouquecidas pelo setentrião. Assim se fez homem. Da casa do pai, sentiu, nos dadivosos dias de inverno, uma lembrança fugaz quando um raio de sol lhe tocou os cabelos. Caminhou como um homem caminha, os pés assentes na terra, os olhos presos a uma ilusão. Noites houve em que parecia sucumbir, mas a alvorada vinha de imediato iluminá-lo com a promessa de novas esperanças e ilusões.

Passaram dias e anos. O medo da dor e da morte cravou-se-lhe como um espinho no coração. Agarrava-se, por essas alturas, à pele frágil que o amor das mulheres lhe enviava, aos lugares do mundo onde o reconheciam. Descobria sempre a solidez do homem maduro que a vida dele fizera. Quando, em chuvosa noite de Outono, a serpente lhe armadilhou o caminho, nada do que tinha aprendido lhe serviu para coisa alguma. A morte visitava-o e, encurralado, entregou-se ao jogo da seu próprio fim. Como uma criança gritou: "uma serpente não pode deixar de ser uma serpente. Cumpre a tua função!" Uma súbita luz tomou conta de Jeremias e ele sentiu os primeiros afagos da sua mãe. Era agora um menino frágil e indefeso, aberto aos perigos que a morte à vida trazia. A serpente, porém, enrolou-se sobre si e um silvo lamentoso ouviu-se por todo o oceano.

Jeremias voltou então ao lugarejo onde nascera. Por vezes, descia à cidade e como uma criança sonâmbula olhava os abutres e as hienas que por lá vogavam. Siderado, sorria e na inocência redescoberta pensava: "a hiena não pode deixar de ser uma hiena e o abutre deve procurar cadáveres. É a sua natureza!" Protegido por essa sabedoria, voltava à casa que o vira nascer.

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Descobri uma série de textos, exactamente seis, escritos no ano de 1999, designados meditações taoístas. Constam de uma epígrafe retirada do Tao Te King, de Lao Tse, e um texto da minha autoria que pretendia ser uma glosa feita a partir do ponto de vista das tradições ocidentais. Há duas coisas que não consigo recordar. Não sei se estes textos foram publicados, na época, no Jornal Torrejano. Também não me recordo por que não passei de seis, pois encontrei o início do sétimo. Verei, no decurso da sua publicação aqui, se continuarei, passados treze anos, a série ou não.

sábado, 27 de outubro de 2012

Um país de levitadores

Egon Schiele - Levitazione (1915)


Aborrece-me esta inclinação de certas pessoas, no nosso quintal à beira-mar, para a levitação. Muita gente acha que o caminho do árduo trabalho e do esforço é coisa horrível e pesada. Não temos propensão para a matemática nem para a engenharia mecânica. Mas como pertencer à camada de baixo é aborrecido e entediante, uns portugueses - mais espertos que os outros - descobriram um método infalível de ascender no firmamento social da pátria, a levitação. Uma pessoa senta-se, fecha os olhos, descontrai o corpo e, por um milagre, suspende a lei da gravidade. Quanto mais sobe mais levita, e quanto mais levita menos a gravidade se lembra do levitador. O êxito da levitação é tão grande que proliferam instituições organizadas para a sua aprendizagem. Certos partidos políticos especializaram-se no assunto. Mal alguém se inscreve na congregação, sente-se de imediato mais leve, como se alguma  coisa o desligasse já da terra, como se descobrisse a mentira da física newtoniana. Mas se o candidato for mais exigente, sempre pode acumular a inscrição partidária com um curso de uma universidade especializada em fenómenos paranormais. Por fim, poderá escolher um estágio no parlamento ou num ministério, o que lhe permitirá chegar - sempre em levitação - ao sétimo céu, aquele onde uma administração de peritos em levitação espera por ele. A vocação de Portugal? Ser um país de levitadores.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Falhámos

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Independentemente da apreciação das elites governantes que nos têm saído em sorte – e a minha apreciação é muito negativa –, precisamos de tomar consciência de que falhámos dolorosamente. Em todo o lugar onde a voz do povo se faz ouvir, há um clamor contra a elite política. Este clamor é perigoso, não tanto porque pode prenunciar o desejo de uma solução política ditatorial, mas porque é uma desresponsabilização das próprias pessoas, é a criação de uma ilusão sobre o lugar onde reside o mal, é eleger um bode expiatório.

Por muito iníquos e incompetentes que os políticos tenham sido, a verdade é que os elegemos. À direita e à esquerda, ninguém exerceu um cargo político sem que uma maioria de nós o tenha caucionado e apoiado. A contínua degradação da classe política não mereceu, da parte do povo português, mais do que um encolher de ombros e o comentário habitual ”são todos iguais”. Achámos, durante décadas, após a oferta da democracia, que o bem comum, a gestão da coisa pública, os interesses da comunidade não nos diziam respeito, que haveria alguém que cuidaria de tudo isso, sem que nos tivéssemos de preocupar, a não ser em votar de quando em vez. Não percebemos, e parece que não queremos perceber, que fomos cúmplices na degradação da res publica. Não pecámos pelos actos, mas pelas omissões.

Mas não foi só aí que falhámos. A forma como deixámos degradar, ou como colaborámos activamente, as instituições sociais – os sistemas de saúde, de ensino, de protecção social – mostra o pouco respeito que temos tido por aquilo que é comum. A própria relação com o Estado é perversa. O Estado é visto, muitas vezes, como um inimigo que há que enganar ou uma espécie de vaca pouco sagrada, cuja teta há que espremer até mais não poder. Não quisemos, nem parece que queiramos, perceber que o Estado é a forma como a comunidade se organiza para viver em paz pública e toma decisões que visam o bem comum. Que precisamos de o defender não porque ele tenha que nos dar alguma coisa, mas porque sem ele a vida não seria possível.

Esta terrível crise pode ser uma oportunidade para compreendermos onde falhámos, para percebermos que o nosso destino comum depende de nós e não apenas dos políticos eleitos, que devemos ser muito exigentes com quem elegemos. Uma pátria organizada em Estado confere direitos, mas em contrapartida exige um conjunto de deveres. Ser patriota – e não há país viável sem um mínimo de patriotismo – não é andar com a bandeira às costas se joga a selecção. Ser patriota é cuidar muito atentamente do bem comum, das instituições da república. Este é o nosso dever fundamental.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O olhar de Apolo

Ernst Ludwig Kirchner - Barche a vella nella tempesta (1912)

Quando tudo balança, quando o mar tempestuoso abre brechas no mundo e ameaça deglutir o sentido que as coisas arrastam consigo, quando o perigo mais sedutor se abre à frente dos homens, é preciso olhar o horizonte com a serenidade de Apolo. Não para convocar os poderes que amainam tempestades, mas para tecer o véu que torna sublime o mais terrível acontecer. Será tudo isto cansaço ou estarei a tornar-me um trágico?

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Suspender a lei

Francisco de Goya - Sueño de la mentira y la inconstancia (1797-99)

O que é interessante em tudo isto é a falta de pudor. O deputado Frasquilho, homem forte dentro do PSD, acha que este aumento de impostos, o maior de que há memória, não está na matriz ideológica do partido, mas que este vai aprovar o orçamento de Estado por uma questão de interesse nacional. O grau de cinismo desta gente é desmedido. Estão a dizer que a política que fazem - que escolheram fazer e cujas consequências são as que todos sabemos - não é a deles, que eles jamais fariam tal coisa, mas uma potência metafísica lhe impôs tão terríveis opções. Por enquanto a potência metafísica ainda não é Deus. O culpado da maldade do governo - esse conjunto de seres inimputáveis - é do Tribunal Constitucional que acha que a lei fundamental do país é para ser cumprida. 

Frasquilho deveria ter vergonha do que diz. Eu sei que é tempo perdido, mas recomendo-lhe vivamente a leitura do Críton, de Platão. Quando a Sócrates, após a sua condenação à morte, lhe é proposto uma fuga com êxito assegurado, ele recusa veementemente. Explica que as leis são para cumprir, mesmo que determinem uma sentença injusta, pois sem o cumprimento das leis a vida não é possível. O que se depreende das palavras do deputado Frasquilho é que vivemos num país onde cumprir a lei lesa os interesses do país. Estará ele a apelar a uma Maria da Fonte, a uma patuleia contra o Tribunal Constitucional e a lei? Depois da suspensão da democracia da dr.ª Manuel Ferreira Leite, deveremos suspender a lei? Ao PSD, desde a sua fundação, nunca faltou talento para a acrobacia.

terça-feira, 23 de outubro de 2012

O bezerro de ouro

Emil Nolde - Danza alrededor del becerro de oro (1910)

Na Idade Média toda a vida estava organizada em torno da salvação da alma. Uma concepção política teocrática e uma estratificação social de aparência inamovível. O fim da Idade Média representou, na prática, aquilo que Nietzsche chamou, no século XIX, a morte de Deus. O homem tinha-se, então, a si mesmo como objecto. Renascimento e humanismo, querela dos modernos contra os antigos e vitória da modernidade, iluminismo e emancipação da razão, liberalismo e liberdade da acção, socialismo e valorização do comum sobre o individual. Todo este conjunto de coisas, quando não outras piores, foi ocupando o homem, e dando-lhe um sentido para viver, depois de Deus ter morrido ou ter-se retirado para um sítio menos poluído. Mas todos os substitutos de Deus foram caindo, caindo, reduzindo-se a nada. O que resta, hoje em dia, que dê sentido à vida das sociedades e do homem? Apenas o dinheiro. Acabámos com as procissões e as devoções para passar a dançar freneticamente à volta do bezerro de ouro. 

segunda-feira, 22 de outubro de 2012

Cientistas condenados

Carmen Calvo - Ciencia (1999)

Seis cientistas foram condenados a seis anos de prisão por terem subestimado os riscos do terramoto de Áquila, em Itália (2009). Esta é uma notícia preocupante, que representa a revivescência de uma cultura sacrificial muito arcaica. Podemos perceber o desespero que a morte de 309 pessoas pode provocar. Contudo a condenação dos cientistas é completamente absurda. Ninguém, hoje em dia, tem a pretensão de que o conhecimento científico seja infalível. Pelo contrário, o século XX descobriu a natureza conjectural da ciência. Na condenação do tribunal italiano não há apenas o desconhecimento da natureza da actividade científica, há ainda uma crença implícita de que a ciência tem a capacidade mágica de prever o futuro e as linhas em que ele se pode desenvolver. O facto de os cientistas terem subestimado o perigo da actividade sísmica da zona não nos diz nada sobre uma conduta viciosa de natureza criminal. Indica-nos apenas que os modelos utilizados eram epistemologicamente desadequados à realidade. E esta desadequação dos modelos pode não se dever à incúria, mas ao próprio carácter revisível, controverso e conjectural da ciência. Deve-se ao facto de ela ser o produto do homem, um ser falível e imperfeito. Um cientista não é um profeta que vê o futuro. Confundir erro científico com conduta criminal é um terrível e absurdo equívoco. Mas não é o mais grave. O mais grave é a necessidade de encontrar um bode expiatório para sacrificar na ara da justiça e, assim, acalmar as potências infernais que desencadeiam acontecimentos que nos podem matar. Este julgamento, por outro lado, diz-nos muito do que é a vida larvar das comunidades, vida essa que se oculta sob o verniz de um racionalismo mal digerido. Diz-nos muito do carácter mitológico que subjaz nas próprias práticas de justiça.

domingo, 21 de outubro de 2012

Ars critica e ars cogitandi

Giorgio de Chirico - The Vexations of the Thinker (1915)


Aquilo que venho fazendo, neste blogue, em torno do romance, mas não só, está longe de se inscrever no que habitualmente se chama crítica literária. Não pretendo julgar as obras que leio. Certamente que numa tradição kantiana, também as obras estéticas, nomeadamente o romance, deverão comparecer perante o tribunal da razão, para aí ouvirem o veredicto desta. Recuso, porém, essa ars critica. Não só não tenho formação para juiz, mesmo de coisas literárias ou de quaisquer outras, nem penso que a estratégia crítica - que se foi complexificando ao longo dos tempos - seja, hoje em dia, a mais pertinente para ler as obras com que nos deparamos.

Na ars critica, o juiz instala-se num plano que se supõe superior ao do artista e ao da própria obra, munido de um saber teórico sobre a actividade que vai julgar e de um código penal, que remete para o jogo das censuras e das recompensas. Mesmo que o juiz fosse a razão pura - e nunca vimos nenhuma razão não encarnada num corpo com sentimentos e interesses - haveria, da minha parte, grande relutância para aceitar os seus veredictos, pois o seu hipotético desinteresse no acto de julgar é o sintoma de um julgamento enviesado. Daí que não profira nos textos que vou escrevendo sobre as obras que tenho estado a ler qualquer juízo de gosto, qualquer opinião sobre se um romance me agrada ou não. Evidentemente, uns agradam-me mais do que outros. Acontece mesmo uma coisa paradoxal. A opinião privada que formulo quando acabo de ler uma obra altera-se, por vezes, pelo simples facto de escrever sobre ela. Isto torna claro para mim que não há leitura efectiva se não houver escrita. Isto significa, como há muito se sabe, que a leitura é um momento de mediação entre duas escritas.

Recuso a ars critica, pois prefiro-lhe uma ars cogitandi. Tomo a obra que leio não como objecto que vou julgar, mas como aquilo que dá que pensar. Em vez do juízo crítico com a sua dimensão sentencial, prefiro o ensaio pensante, o assumir de uma posição de diálogo com a obra, o abrir de um campo de experiência do pensamento. A razão, neste caso, não transporta qualquer verdade universal como modelo de um juízo, mas exerce-se numa dimensão de pura modéstia, marcada pela procura, pela conjectura e pelo diálogo com o que foi efectivamente escrito. Não se trata de bondade moral da minha parte, mas da procura de um caminho em que possa ser surpreendido e assim tenha um cúmulo de prazer. Um caso, na aparência, de puro utilitarismo.

Na verdade, uma razão crítica só pode ser adversa à surpresa, pois esta retirar-lhe-ia a autoridade jurídica e mostrar-lhe-ia a ilegitimidade da sua função ao tornar patente que há algo que está fora do critério que funda o juízo crítico. Ora a arte é aquilo que transcende o critério, o modelo dado, a matriz disciplinar onde o crítico se move. Perante o inusitado de um objecto estético, a única atitude que me parece aceitável é o corpo a corpo, isto é, o confronto entre o pensamento que emana da obra e o meu pensamento, que se descobre nesse corpo a corpo, que se articula em categorias transitórias de acordo com o vento que sopra em cada objecto estético. Eu sei que o rigor do juiz, quero dizer do crítico, tem um alto valor social, pode liquidar e consagrar carreiras (quando se é juiz nos sítios que importam e não num blogue de província como este), mas eu não passo de um cata-vento, movido pelos ventos que sopram daquilo que leio. Mas ser cata-vento - coisa do maior desprestígio social - é o destino daquele que quer pensar, coisa que o tempo e o espúrio casamento da filosofia com a universidade obscureceu, num tempo em que o filósofo, para além de um produtor de papers, se tornou num animador das pequenas multidões, pernósticas e impudentes, ávidas de espectáculos do espírito.

sábado, 20 de outubro de 2012

Teolinda Gersão, A Cidade de Ulisses


Durante e após a leitura do romance de Teolinda Gersão, A Cidade de Ulisses, perguntava-me, com certa perplexidade, qual a tensão essencial que percorria a trama romanesca. Há várias tensões que alimentam a narrativa. A tensão amorosa entre os protagonistas, os pintores Paulo Vaz e Cecília Branco, ou entre Paulo e o pai, ou entre este e o mundo, representado pela mulher e pelo filho. Há também a tensão entre o desejo de Paulo e de Cecília – o princípio de prazer – e a vida dada nas condições em que ela decorria na cidade de Lisboa e no país – o princípio de realidade. Essas tensões, contudo, são frágeis perante uma outra, de carácter civilizacional, que ao reflectir sobre a obra foi surgindo e ganhando contornos precisos. O que é marcante neste romance é a tensão aguda entre o mundo encantado do mito e a realidade social, política e existencial marcada pelo desencantamento que racionalidade introduz na vida moderna, segundo Max Weber.

Um romance que tem por título A Cidade de Ulisses inscreve-se de imediato no território da mitologia. De facto, toma o nome de uma história mítica, a pretensa fundação de Lisboa por Ulisses, é percorrido por uma apertada teia de referências míticas e é, na parte final, uma redescrição de um dos mitos fundamentais de Portugal. Contudo, essa ambiência mítica, de carácter encantatório, está em tensão com descrições completamente prosaicas tanto da cidade de Lisboa como da história, longínqua ou recente, de Portugal. Esse prosaísmo é dado por uma linguagem que parece provir do género do comentário político, na qual se dão a conhecer ao leitor as possibilidades da pátria e as decepções que as elites políticas, inexoravelmente, acabam por espalhar no tecido social, ou numa certa elite estrangeirada – outro dos mitos nacionais, o dos estrangeirados –, que no romance está presente através de Paulo e Cecília.

Toda a relação entre Paulo e o pai se inscreve na trama edipiana trazida à luz pela psicanálise. Teolinda Gersão, porém, retoma um outro mito, o da morte de Ulisses pelo seu filho Telégono, um filho que teria por mãe Circe e não Penélope. Também neste mito, o parricida casa com a mulher do pai, mas neste caso não com a própria mãe. A tensa relação de Paulo Vaz com o pai, um militar que representa a imagem soturna e mesquinha do Estado Novo, não conduz ao assassinato deste. Na trama romanesca, há um deslocamento do homicídio do pai para o filho. Quando Cecília anuncia que está grávida, a reacção violenta de Paulo leva a que caia e acabe por perder a criança. Este deslocamento do crime contra o pai para um crime contra o filho tem por consequência a perda da mãe, o afastamento de Cecília e o fim da relação amorosa. É como se emergisse um complemento à lei trágica de natureza edipiana: o filho que mata o pai recebe por mulher a mulher do próprio pai, mas o pai que mata o filho está condenado a perder a mãe deste. Paulo nem matou o pai nem ficou com a mulher que amava.

Esta trama trágica que envolve o narrador-protagonista, uma trama que decorre toda ela em assuntos de índole privada – as relações com o pai e com a mãe, as relações com Cecília – está em tensão, como se disse acima, com considerações sobre a vida pública e a história do país. Mas esta tensão tem um carácter estranho. Parece funcionar como um cenário onde decorre a acção, mas que, no fundo, não toca essencialmente nos agentes. É um cenário – Lisboa, Portugal – que serve como pano de fundo da acção, mas não se reflecte no carácter das personagens, por muito que amem Lisboa e o seu pitoresco ou deplorem as oportunidades perdidas da pátria. Eles são, na verdade, estrangeiros, mesmo que um dia tenham tido o projecto comum de pintar a cidade de Lisboa. São figuras nómadas a quem o sólido mundo desencantado da modernidade deixou de interessar. Habitam-no, mas esse mundo é puramente fantasmático, uma presença evanescente que  o nomadismo pós-moderno deixou de suportar.

Depois da separação, Cecília sai de Portugal. Apesar dos esforços de Paulo, ela corta definitivamente com ele. Casa e tem filhos. Mais tarde regressa com a família a Lisboa, sem que, para além de um ou outro encontro social, retome a ligação amorosa com Paulo. Cecília acaba por morrer de acidente. Ora é aqui que Teolinda Gersão redescreve um dos mitos fundamentais da nossa cultura, o de Pedro e Inês. Se Paulo era um pintor reconhecido, Cecília era uma artista secreta, cujo trabalho mal tinha sido visto. Coube a Paulo Vaz organizar a exposição do trabalho de Cecília, a que foi dado o nome A Cidade de Ulisses. Paulo é, agora, Pedro que coroa uma Inês morta. Esta coroação, post mortem, não significa apenas o reconhecimento do talento até aí privado de Cecília ou a libertação de Paulo para uma nova vida, mas uma reafirmação do papel central do mito nas sociedades desencantadas em que vivemos. Perante a decepção e o desencantamento da vida pública, resta a cada um a sua mitologia pessoal, a ordenação da vida segundo arquétipos que a tradição legou e que, em épocas como a que vivemos, são a bússola que permite que a existência encontre um sentido. Mas este sentido que o mito dá apresenta sempre um carácter ambíguo. Paulo, acabada a organização da exposição, retorna para Sara, a sua actual mulher. Um fim feliz? Na aparência, pois o leitor não pode deixar de se interrogar sobre que ameaça se esconde no facto de só morta a rainha poder ser coroada.

Teolinda Gersão (2011). A Cidade de Ulisses. Porto: Sextante Editora.

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Ensino público e rankings


A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Foram publicados os rankings nacionais dos exames de 6.º, 9.º, 11.º e 12.º anos. Acentuou-se o predomínio das escolas privadas nos lugares cimeiros e o consequente recuo das escolas públicas. Estes rankings dizem pouco, se dizem alguma coisa, sobre a qualidade do trabalho levado a efeito numas e noutras. São, contudo, um excelente retrato do país em que nos estamos a tornar e das políticas públicas de educação.

O predomínio das escolas privadas vem confirmar a velha tese do sociólogo Pierre Bourdieu sobre o papel do ensino na reprodução das desigualdades. Os rankings mostram não apenas essa profunda desigualdade social que mancha Portugal, como tornam manifesto que esse desigualdade se está a reproduzir de forma cada vez mais profunda. As elites sociais perceberam há muito a importância de uma boa escolarização dos seus filhos e apostam muito nessa escolarização. O colégio privado, fundamentalmente nas grandes cidades, é ao mesmo tempo o sinal de um interesse parental pelo ensino e um emblema de distinção social, o lugar onde crianças e jovens se irão relacionar com as crianças e jovens das famílias que interessam. É o lugar onde as futuras alianças se começam, secreta e inconscientemente, a construir. É um lugar de distinção e assim de exclusão.

Uma política pública deveria ter como finalidade manter a coesão da comunidade, estabelecer laços sociais entre as diversas classes, proporcionar uma crescente igualdade de oportunidades. O que acontece é que a política pública de educação em Portugal tem feito exactamente o contrário. Tornou a vida dos professores do ensino público um calvário burocrático, desviou-os da sua missão educativa, ao mesmo tempo que permitiu uma cultura laxista por parte dos alunos, tendo mesmo, muitas vezes, incentivado esse laxismo através de uma atitude de facilidade, da pouca exigência e da falta de rigor. Se há alguma coisa que os rankings deste ano tornam claro é o pesado erro que foi a política educativa de Sócrates e de Lurdes Rodrigues, cujas consequências se começam a tornar agora claras.

No desconcerto em que o país vive haverá pouca disposição para dar atenção ao ensino e à escola pública. Contudo, não apenas a coesão social do país como o seu desenvolvimento estão fundados nessa escola pública. Ou o país e os governantes olham com muita atenção e rigor para o ensino público ou a sua degradação será irremediável. As consequências dessa degradação não serão menos devastadoras do que aquilo que se está a passar na economia. É isso que os rankings, sub-repticiamente, estão a dizer. 

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Luz e sombra

Salvador Dali - Sombras en la noche que cae (1931)


Há uma clara relação, nesta velha Europa, entre a luz e a transparência na vida social. Nos países do centro e norte da Europa, onde a luz é escassa e os dias são soturnos e sombrios, a vida das instituições  é transparente, tal a luz que sobre elas é derramada. Nos países do Sul, com especial ênfase no nosso, há uma luz radiosa e os dias, quase todo o ano, são brilhantes e luminosos. Mas esse excesso de luz é insuportável para as instituições sociais, pois cobrem-se todas elas de pesadas e densas sombras e tudo que nelas se passa é opaco e avesso a qualquer luz.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

O espírito alemão

Pedro Fernandéz Cuesta - Espíritus más o menos enfermos

«Espírito alemão» - desde há dezoito anos uma contradictio in adjecto. (Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos. Máximas e Dardos, 23.

A Alemanha não tem espírito? Não há um espírito alemão? A quem falou Fichte nas Cartas à Nação Alemã? Nietzsche não tem razão. Claro que há um espírito alemão, um espírito para o qual o próprio Nietzsche se preparou e que abraçou ao enlouquecer. Deveríamos antes falar da patologia espiritual alemã. A Reforma luterana, o espírito prussiano, a ideologia alemã, os ditirambos nacional-socialistas, o desprezo actual dos bebedores de cerveja pelos países que amam o vinho. Tudo sintomas de uma longa doença espiritual. Temo que não haja purgação possível.

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Um triste destino

Marc Chagall - The Dance (1950-51)

Este artigo do filósofo Peter Singer toca naquilo que, em última análise, separa o mundo islâmico do mundo ocidental. Por importante que seja a questão israelo-palestiniana ou o sentimento de humilhação histórica perante o desenvolvimento e a dominação ocidental, é a questão da mulher que joga um papel decisivo. A decadência e a degradação moral que muitos muçulmanos descortinam no modo de vida ocidental residem no simples facto de as mulheres ocidentais serem livres e iguais aos homens perante a lei. 

A história, comentada por Singer, da proibição, no Irão, da frequência de certos cursos (onde se inclui o de Literatura Inglesa - terão medo que elas leiam O Amante de Lady Chatterley?) por mulheres é apenas mais um episódio de uma questão central para os homens muçulmanos. Contrariamente ao que muitas pensariam, as revoluções árabes dos últimos tempos têm resultado numa maior opressão da mulher e numa eliminação dos seus direitos. Peter Singer tem toda a razão em lembrar o cerrado boicote à África do Sul racista e sublinhar que, perante a ausência de "amplos boicotes às universidades do Irão, ou a outros produtos iranianos, como havia contra o apartheid na África do Sul", ainda não levamos a discriminação sexual tão a sério quanto a racial. 

Tem toda a razão, mas será praticável um boicote ao Irão? Um boicote ao Irão por motivos de discriminação sexual teria de ser estendido à quase generalidade dos países muçulmanos. Ora nem as necessidades de petróleo do Ocidente nem a presença dos interesses ocidentais nos mercados dos países islâmicos permitem tal coisa. A terrível situação da mulher muçulmana, para além das declarações de princípio circunstanciais e um ou outro protesto por alguma crueldade mais manifesta, não comoverá quem quer que seja com poder no Ocidente. Por causa das mulheres, o mundo muçulmano rejeita a nossa cultura. Por causa dos interesses, o Ocidente abandona as mulheres muçulmanas à sua sorte.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Os dois mundos

Francis Picabia - Le Double Monde (1919)

Uma sociedade como a portuguesa é um lugar onde estão presentes dois mundos muito diferenciados, socialmente afastados e com pouca disponibilidade para encontrar pontes entre eles, para além daquelas que a vida, com as suas necessidades, impõe. A arte de governar está toda ela em estabelecer pontes, em cerzir aquilo que a desconfiança social rasga, em soldar os laços que os interesses de casta e os egoísmos de classe partem. Quando um governo como o actual, movido pela ignorância do que é a sociedade portuguesa e pela abstracção de uma ou duas ideias mal assimiladas, toma claramente partido por um dos lados, quando decide humilhar e empobrecer até ao paroxismo aqueles que são já pobres e humildes, está a trair a missão que lhe foi confiada, governar para manter a coesão da comunidade. Está a aprofundar a divisão da sociedade em dois mundos, está a cortar os poucos laços que existem entre eles. 

O curioso, porém, é que, de um momento para o outro, o governo  descobre-se isolado, descobre que nem aqueles para quem supostamente governa estão do lado dele. O governo movido por uma ideologia superficial pensou que bastaria fazer tilintar os sinos do individualismo, para que recolhesse à sua volta todos aqueles que seriam a encarnação do homem-novo liberal, dinâmico e empreendedor. Está a descobrir, com amargura e ressentimento, que o instinto gregário, que ele tenta destruir, é mais forte e que aqueles dois mundos que são diferentes - e por vezes antagónicos - quando a comunidade está decisivamente em perigo unem-se, pois pressentem que o instinto gregário que funda a comunidade é essencial para que todos, e os diferentes mundos a que pertencem, possam sobreviver. Um governo que deliberadamente quis aprofundar a divisão entre os dois mundos que coexistem na sociedade, acaba por os unir na rejeição desse mesmo governo. Ficou acompanhado por meia dúzia de avençados pagos escandalosamente. Ninguém, nos dias que correm, tem já qualquer consideração pela trupe que nos governa. A sua remoção do poder não gerará estados de alma ou sequer um franzir de sobrolho.

domingo, 14 de outubro de 2012

Sinais do fim

Marc Chagall - Los comediantes (1968)

Qual o grande e inequívoco sinal do fim de um regime político? A elite dirigente não se distinguir já de uma trupe de comediantes.

sábado, 13 de outubro de 2012

Da situação: 1. um caminho sem saída

Emilio Tadini - Aporia (1979)

Uma aporia é uma dificuldade, uma dificuldade insolúvel. No grego clássico, de onde o nosso termo português veio, uma aporia pode significar um impasse, a falta de recursos, uma perplexidade, uma dúvida. Pode também significar um caminho sem saída. Esta ideia, a de um caminho sem saída, é a que me interessa, embora as outras significações não sejam de desprezar no contexto daquilo que escrevo. Se nós, ao caminhar, constatamos que entrámos num caminho sem saída, o que fazemos é voltar para trás e tomar outra direcção. Aquilo que é possível no espaço não o é no tempo. O caminho que fazemos na nossa vida, mesmo quando nos leva a um beco sem saída, não é susceptível de ser vivido às arrecuas, o que significaria que desvivíamos o que tínhamos até então vivido. Isso não é possível. Nem para os indivíduos nem para as comunidades. Portugal não pode desviver, apagar da história, o que foram todos estes anos de desnorte político dinamizado pelos dinheiros da Europa.

E no entanto Portugal, todos nós, estamos perante uma aporia. Não apenas de uma aporia enquanto dificuldade, dúvida ou perplexidade. Estamos perante um caminho sem saída e não podemos voltar para trás. São as situações aporéticas as mais interessantes, pois são as que exigem mais do talento de um povo e do génio dos seus indivíduos. Este beco sem saída em que estamos metidos é dado pelo cruzamento de duas necessidades antagónicas: pagar a dívida segundo a imposição dos credores e desenvolver a economia, segundo os interesses da comunidade. A aporia está em que pagar a dívida, tal como nos está a ser exigido, implica não desenvolver a economia, mas sem o desenvolvimento desta não há pagamento possível dessa dívida. É aqui que um povo necessita do seu talento e do génio dos seus governantes. Este tem sido comprovadamente nulo. 

O que a situação exige é um deslocar do ponto de vista com que o problema tem sido focalizado pelos troikanos (sejam os ultra-troikanos do governo, sejam os troikanos light do PS oposição) e pelos anti-troikanos (que se lixe a troika, queremos as nossas vidas de volta). Em primeiro lugar, o problema tem uma natureza cognitiva e não económica. Só a partir da clara determinação do que se está a passar, podemos encontrar um caminho. A aporia exige então que pensemos, que meditemos sobre aquilo que nos está a suceder para o caracterizar devidamente. O senso comum, tão esclarecido pela comunicação social, dirá que o que se está a passar é a crise do défice. Mas o problema será mesmo o défice público e a dívida? Ou será outro? Será um problema económico ou o problema terá outra natureza, uma natureza não-económica? Isso será pensado num próximo post. Mas há coisas que parecem claras: a consideração económica do problema, seja do ponto de vista dos pró-troikanos ou dos anti-troikanos, conduz-nos a uma aporia, coloca-nos num caminho sem saída. Também parece claro que é necessário descrever melhor o que se está a passar para desfazer a aporia e encontrar um caminho. Essa descrição melhor implica que se tome um outro ponto de vista. (A continuar).

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Jogos florais do senhor Seguro


No momento em que Portugal é confrontado com um dos orçamentos de estado mais destruidores da economia, da vida das pessoas, do sentimento de equidade, A. J. Seguro decidiu entregar-se aos jogos florais. Para desviar a atenção, aproveitando a vaga de populismo e de ódio à classe política, propõe a redução dos deputados da nação. Medida que pouparia meia dúzia de euros, que alegraria as caixas de comentários dos jornais on-line e as conversas nos táxis das grandes cidades, mas que teria efeitos perversos para o país e a democracia.

O parlamento não é apenas o sítio onde se faz a lei. Com aquele discurso mole ou inflamado, com a retórica e a aparente agressividade, está no lugar da violência física. Se não houver parlamento onde as partes se confrontem através do discurso, incluindo a violência verbal, nós temos a violência das ruas, a violência da guerra civil, a violência dos ditadores e dos perseguidores políticos. O parlamento, sublinho de novo, está no lugar da violência política nas ruas.

Para que o parlamento cumpra essa sua função, contudo, é preciso que as facções principais da comunidade estejam representadas. O truque floral de A. J. Seguro tem apenas uma finalidade: acabar com a representação parlamentar do CDS-PP, do BE e do PCP. Pretende entregar quase todo o parlamento ao pessoal do PSD e do PS. Os partidos que levaram o país para a bancarrota terão agora uma espécie de seguro de vida para continuarem, sem o controlo parlamentar dos outros, as suas políticas que todos sabemos onde levaram.

Mas o principal problema nem sequer é esse. A medida fomentaria o aparecimento de extremos, à direita e à esquerda, que fariam ouvir a voz da rua, isto é, a violência, como aconteceu no final da Monarquia, na I República, nas guerras civis do século XIX. São Marias da Fonte, Patuleias e Formigas Brancas que o A. J. Seguro quer?

Há muito por onde cortar na classe política, que não nos eleitos. A lei deveria proibir que os eleitos levassem o pessoal do partido para as instituições. Os servidores públicos de carreira deverão ser independentes e servir o poder eleito, qualquer que seja, com lealdade e sob risco de expulsão do serviço público. Só na gente dos partidos que abarrota o poder central, regional e local, pouparíamos vários parlamentos. Depois seria a frugalidade nos carros, nas despesas, nos prerrogativas que os eleitos se julgam merecedores. Apenas a frugalidade nórdica. Isto seria interessante, mas Seguro confunde o serviço à nação com os jogos florais de uma associação recreativa. Para nossa desgraça, também ele terá um futuro à sua frente.

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Em aditamento ao artigo pode-se ver com proveito o vídeo abaixo. A Suécia, um claro exemplo de frugalidade nórdica. Este vídeo deveria servir de reflexão ao destrambelhamento do PS - de Zorrinho a Assis - com a questão dos carros para o grupo parlamentar. Será que ainda não perceberam que as pessoas já não suportam mais os supostos direitos que os seus representantes se atribuem a si mesmos? É verdade que há muito ressentimento na vox populi, mas também é verdade que as elites políticas se acham acima do comum dos mortais e que, como tal, devem viver segundo as exigências de uma concepção do poder enquanto espectáculo. Esquecem-se que já ninguém quer ver a peça.

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Questões de moral

Salvador Dali - Construcción blanda con judías hervidas (Premoción de la Guerra Civil) (1936)

Este artigo de Ana Sá Lopes, no ionline, sobre a perspectiva de Paul Krugman acerca da crise do défice, deve ser cruzado com este post de Medeiros Ferreira, no Cortex Frontal, onde recorda o artigo do economista alemão Hans-Werner Sinn, no Le Monde  de 1 de Agosto pp, no qual é aventada a possibilidade dos países sob resgate correrem riscos de entrar em guerra civil devido às condições que lhe são ditadas para continuarem no euro. Para completar e por falar em guerra civil, dever-se-ia ainda ler o artigo de Manuel Loff, no Público de hoje (link disponível só para assinantes) A Espanha da Transição acabou.

Do ponto de vista filosófico, a discussão pode ser muito interessante. A política alemã é motivada por um juízo moral negativo e, por isso, visa punir a "irresponsabilidade" orçamental dos países em dificuldades ou, pelo contrário, a Alemanha segue uma conduta pura e simplesmente egoísta e predadora dos mais fracos? No primeiro caso, a desgraça - onde se poderia incluir a guerra civil - seria uma forma sacrificial de lavar com o sangue a moral ofendida e restabelecer a aliança com os deuses nórdicos. No segundo, a questão é mais fria e racional. A desgraça dos países é economicamente interessante para a Alemanha e politicamente útil para a senhora Merkel. 

Dilemas filosóficos à parte, aquilo que se percebe é que a Alemanha tem todo o interesse político e económico nesta situação dos países do Sul da Europa. O pânico auto-induzido dos mercados, alimentado pelas políticas de austeridade adoptadas, leva-os não só a emprestar dinheiro a juros proibitivos aos países em dificuldade como a pagar à Alemanha para receber esse mesmo dinheiro como empréstimo. Que interesse pode ter a Alemanha e a senhora Merkel, em particular, que a vida na Europa do Sul retorne à normalidade, se a crise permite financiamento a juros negativos? Não valerá isso o risco de guerra civil num país da periferia? Longe de haver uma classe política inculta e ignara, o que existe é um frio cálculo de possibilidades. O moralismo da retórica alemã serve para cobrir a imoralidade das suas políticas. Como se sabe, a política não se confunde com a moral e a Alemanha só parará quando pressentir que as suas opções a poderão prejudicar. Do ponto de vista dos povos do sul, contudo, é claro que qualquer apoio à política alemã configura um acto de traição nacional. E que coisa mais abominável pode haver do que a traição? Ou será que até a traição a um povo passou a ter valor moral?

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O nosso super liberal

Jacson Pollock - Masked Image (1938-41)

Esta história da Tecnoforma é ilustrativa do que é Portugal. Aquilo que me interessa não são as teias das juventudes partidárias ou as possíveis irregularidades perante a lei. Por certo, não haverá irregularidades. Mas nem tudo o que é legal tem valor moral. Muitas vezes a própria lei consagra práticas que a boa vontade do homem comum reconhece de imediato como contrárias à lei moral. O que me interessa é compreender como os nossos campeões da luta contra o Estado só o são quando lhes convém. Passos Coelho, agora apresentado como o primeiro-ministro mais liberal de Portugal, como o campeão da luta contra a presença do Estado seja lá onde for, ainda há poucos anos era consultor e depois administrador de uma empresa que vivia, em parte significativa, dos fundos desse próprio Estado, ao fornecer formação para as autarquias. Um liberal ter-se-ia recusado a participar nesse verdadeiro atentado contra os contribuintes e tê-lo-ia denunciado como imoral. O programa Foral envolvia cem milhões de euros e tinha a origem no governo socialista de Guterres. Nessa altura, contudo, Passos Coelho ainda não deveria ter descoberto as virtudes do pensamento de Friedman, Hayek e von Mises, nem ter descoberto os malefícios do socialismo. 

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Errar as contas

Edgar Degas - Examen de danza (1874)

A senhora Lagarde do FMI brinca sorridente com a vida das pessoas. Descobriu que as previsões do FMI, seita que ela lidara com evidente prazer, estavam erradas e que as consequências das políticas impostas aos países têm efeitos muito mais negativos do que tinha sido dito. Errar as contas não é um mero problema que não se resolve num exame de uma cadeira de licenciatura. Errar as contas é condenar milhões de pessoas à miséria, ao desemprego e a uma morte mais precoce. Como é que toda esta gente é ininputável?

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

A natureza do filósofo

Salvador Dali - Filósofo recostado (1938)

Para viver só, há que ser um animal ou um deus - diz Aristóteles. Falta o terceiro caso: importa ser um e outro ao mesmo tempo - filósofo. (Nietzsche, Crepúsculo dos Ídolos: Máximas e Dardos, 3)

Uma das coisas mais absurdas do senso comum escolar, naquilo que se refere à filosofia, é a apresentação do filósofo como um modelo de humildade e de sociabilidade. Nada há de mais indecoroso do que a fábula de S. Sócrates. Isto é não perceber o essencial da actividade filosófica, aliás retratada já muito bem, na época dos pré-socráticos, pelo carácter intratável de Heraclito de Éfeso. A filosofia nasce do espírito de revolta contra a tradição e da arrogância perante a verdade, dada na convicção de a alcançar através da construção de teorias argumentadas. Nietzsche quase tem razão, mas mais teria se dissesse que o filósofo é um animal solitário que tem a presunção de ser um deus. A filosofia não passa de um subtil e distinto exercício de arrogância instintiva, travestido de racionalidade.

domingo, 7 de outubro de 2012

A questão catalã

Juan Miró - Paisaje catalán: el cazador (1923-24)

A questão catalã merece a máxima atenção por diversos motivos. O efeito destabilizador na Península Ibérica será imediato, mesmo que não se chegue a um outro episódio de guerra civil em Espanha, o que está longe de assegurado. Os efeitos em Portugal poderão ser devastadores e imprevisíveis. Há, contudo e para além da preocupação paroquial ao nível peninsular, uma outra perspectiva que merece atenção  Uma hipotética independência da Catalunha - movida não apenas pelo sentimento independentista, mas também pelo egoísmo com que olha a sua contribuição para as outras regiões de Espanha - pode ter um efeito detonador noutros países. Tanto a Lombardia, em Itália, como a própria Baviera, na Alemanha, poderão encontrar nesse hipotético exemplo catalão um suplemento de alma para iniciarem processos idênticos, movidas por razões egoístas semelhantes. Isto para não falar na questão belga.

Durante décadas, de forma mais ou menos insidiosa, a União Europeia jogou - e continua a jogar - um jogo perigoso que visava - e visa - desgastar os velhos Estados-Nação. Nessa estratégia, o reforço dos poderes infra-estaduais teve um papel importante. Tudo parecia ir bem enquanto o dinheiro abundou, pois comprava-se a paz e a unidade política com os fundos europeus. Agora que o dinheiro escasseia, os egoísmos nacionais vêm ao de cima e encontram, subitamente, eco nos egoísmos regionais e autonómicos (entre nós na forma de opereta dirigida por AJ Jardim, mas também já sinalizada por LF Menezes no norte). A convicção de muitos federalistas da necessidade de corroer o Estado-Nação pode conduzir, num daqueles volte-face em que a História dos homens é pródiga, à proliferação de múltiplos Estados-Nação e à fissura de unidades políticas que, até há pouco, pareciam sólidas. Na verdade, nada disto é, do ponto de vista da História, uma novidade. Aliás, o fazer e refazer das unidades políticas e das comunidades soberanas é o comum da vida histórica da humanidade. Só o trauma de duas guerras mundiais poderá ter criado a ilusão de uma mapa-mundo político quase inamovível. Mas o facto das transformações do mapa serem o comum não quer dizer que sejam desejáveis e não contenham perigos a que, por um privilégio histórico, temos sido poupados.

sábado, 6 de outubro de 2012

Vladímir Korolenko, O Músico Cego


O Músico Cego, um romance do escritor ucraniano-russo Vladímir Korolenko (1853-1921), é uma meditação sobre a vontade humana e a conquista da autonomia, onde se cruza a mutação ontológica e o espírito da música. Piotr nasce cego. Do ponto de vista da espécie, nascer cego é um mero acidente, pode ocorrer ou não. Contudo, do ponto de vista do indivíduo, ser cego é a sua condição ontológica, o resultado de uma mutação para a qual a espécie não o equipou inteiramente.

Na economia do romance, esta cegueira não refere apenas um estado natural de Piotr, mas simboliza e, ao mesmo tempo, reforça a ausência do pai. Não que este não estivesse presente, mas a sua absorção nas actividades profissionais, na administração da propriedade, e a sua natureza bondosa, mas não interveniente, em nada contribuem para moldar o temperamento do novo membro da família. Ausência de visão e ausência da figura do pai deixam a criança aos cuidados protectores da mãe e de um tio, irmão da mãe, um velho militar estropiado na guerra. É este que encara o problema da educação do sobrinho. Não apenas a educação no âmbito dos saberes, mas também a educação da vontade e da autonomia pessoal, uma educação viril que lhe permita subsistir num mundo natural e social guiado, em primeiro lugar, pela visão. Uma educação que permita contrabalançar o excesso de protecção, fundado no afecto e na sentimentalidade, proveniente da mãe.

Especialmente dotado e sensível, Piotr cresce exercitando-se na configuração do mundo através dos outros sentidos, os quais, na ausência da visão, se tornam muito mais receptivos, ampliando a sua capacidade de fornecer informação e de gerar orientação. Esta sensibilidade pode, aos olhos do tio, Maksim, tornar-se o principal problema. Entre tio e o sobrinho há mais do que uma relação familiar e afectiva, há uma dolorosa partilha de uma condição ontológica (uma congénita e outra adquirida) que os distingue da norma. A experiência existencial de Maksim tem um papel central na educação que pretende para a criança. Brigão e desordeiro, um terror nas redondezas enquanto jovem, revolta-se contra os austríacos e alista-se nas hostes de Garibaldi. Até ficar estropiado, é um homem de acção, um ser telúrico e viril. É a tensão entre a experiência de uma vitalidade transbordante e o estado pós-mutilação física, com a consequente redução do poder vital, que fornece o horizonte onde moldará a educação do sobrinho. A questão central é a da sua autonomia, da sua independência num mundo que não está feito para ele.

Aquilo que poderia ser um motivo de ensimesmamento e de fechamento para a realidade,  por parte de Piotr, a sua sensibilidade para a música, vai ser a alavanca utilizada pelo tio para educar a sua vontade e disseminar nele as virtudes viris da autonomia. A música entra na vida de Piotr através das velhas melodias populares ucranianas. É o espírito de um povo que vai ser recebido, através da música de um servo, pelo jovem cego e que lhe vai moldar o ânimo. Mesmo quando começa a receber uma educação musical erudita, esta vai casar-se com a tradição popular. A música não é apenas uma arte nem o exercício de uma sensibilidade refinada, é também uma forma de captar a realidade, de a redescrever e de se relacionar com ela. É mais do que isso, é um princípio de cura e de mutação ontológica. No espírito da música são veiculadas as virtude viris e a capacidade de autonomia que o tio Maksim tanto deseja inculcar no sobrinho.

A vontade livre e viril, na ausência de uma figura parental que a molde, nasce de uma música com tonalidades patrióticas, na qual o espírito da música e o espírito do povo se fundem na criação da subjectividade de Piotr, que, dessa forma, metamorfoseia o estado degradado da sua condição natural numa vantagem na relação com o mundo e a sociedade. Não será difícil, por certo, encontrar num romance aparentemente tão simples e, na aparência, quase destituído de problemática política (há apenas a revelação passageira, mas não acidental, das preferência de Maksim por Garibaldi, o unificador e libertador de Itália) uma meditação nacionalista, sobre uma Ucrânia cega para o seu poder e virtude, uma Ucrânia também ela tocada pelo sentimento de autonomia e de independência.

Vladímir Korolenko (2010). O Músico Cego. Arbor Litterae. Tradução do russo de Nina Guerra e Filipe Guerra.

sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Espectros silenciosos


Esta mulher, que interrompeu o discurso de Cavaco Silva, resumiu o estado a que se chegou: "Ninguém me ouve, ninguém me acode porquê?" Há muito que as pessoas deixaram de ter voz. Com a nossa entrada na União Europeia (CEE, na altura), cada um de nós foi-se tornando um fantasma, um espectro cada vez mais silencioso. Não que a voz nos fosse tirada. Fomos nós que, progressivamente, abdicámos dela. Havia quem falasse por nós, que fizesse do silêncio de cada um a grossura da sua voz. Cavaco foi o primeiro, com a sua vaidade insuportável e uma demagogia sem limites. Foi ele que deu o exemplo.  Os outros apenas seguiram e, por vezes, intensificaram o mestre. Luísa Trindade não se enganou no interlocutor. Foi com ele que o descalabro começou, para não mais parar. 

Mas o grito desta mulher é duplamente terrível. Em primeiro lugar, é o grito de um povo desesperado, sem voz, abandonado à sua sorte. Em segundo lugar, é também uma confissão de impotência, uma terrível impotência: Quem me acode? Quem nos acode? Como é que nove séculos de história produziram um povo que espera ainda por alguém que o salve? Como é que a nossa iniciativa e orgulho foram destruídos até chegarmos a isto? Como é que durante nove séculos nunca aprendemos que só nós nos podemos salvar? Como é que, em cada acto eleitoral, julgámos eleger um salvador? Como é que entregamos sempre ao salvador de momento a missão de remir os nossos males? No grito daquela mulher, está a sua dor, mas também o retrato de um país, o retrato de cada um de nós, mesmo daqueles que se julgam muito modernos e empreendedores. A terrível pergunta "ninguém me acode porquê?" tem a mais terrível das respostas: não há ninguém ou nada para acudir seja a quem for, estamos reduzidos a espectros silenciosos. Os laços foram e estão a ser destruídos. Ninguém nos pode acudir, a não ser nós mesmos.

O perigo do abismo

A minha crónica semanal no Jornal Torrejano.

Um dos principais problemas da crise resulta dela ser objectivamente boa para a generalidade dos actores políticos e sociais. Ela é má para os cidadãos comuns, para os trabalhadores e para a generalidade das empresas, embora não para todos os empresários. Perante este quadro, as pessoas descrêem dos actores políticos e desconfiam, não sem razão, que estes têm muito mais a ganhar com a crise do que a perder.

Uns aproveitam a crise para impor uma agenda de interesses particulares que, numa situação normal, seria impensável. Neste caso, os actores políticos  não evitam mesmo o sacrifício do seu nicho de mercado eleitoral em troca dos ganhos daqueles a quem eles, efectivamente, representam. Esta atitude está escorada na crença de que não há qualquer alternativa, mas uma alternância de grupo dirigente. O novo poder continuará a mesma política, servindo os mesmos amos, enquanto o grupo que sai do poder, vai descansar, engordar o pecúlio eleitoral, para retomar o serviço quando chegar a nova hora de alternância.

Outros vêem na crise a grande oportunidade de aumentar a sua influência política, de saírem do apertado limiar a que uma situação normal os condena, de ganharem espaço político, de imporem a força da rua, os seus slogans e palavras de ordem. Caso os deuses enlouqueçam por completo, não deitarão fora a oportunidade de nos impor a bondade dos seus préstimos e de implantarem a utopiazinha que lhes anima a alma.

Na verdade, a resolução equilibrada, sensata e negociada da crise não aproveita a ninguém na esfera dos partidos políticos, e ninguém, na verdade, a quer. Tudo o que vemos – com a excepção daqueles happenings, por vezes gigantescos, que são as manifestações dos movimentos sociais espontâneos – não passa de um exercício cínico, onde os interesses das pessoas são imolados aos interesses das várias elites em confronto.

A crise ao oferecer a possibilidade das partes maximizarem os lucros políticos coloca a comunidade à beira do colapso, deixa as pessoas sem uma horizonte de esperança, essa grande ilusão necessária à vida. Por outro lado, para que uma comunidade exista há um consenso mínimo necessário. O que se está a assistir é que a voragem provocada pela maximização dos ganhos políticos se aproxima perigosamente da destruição desse consenso mínimo. Ainda não é visível, mas a brecha já tomou conta dos alicerces da casa. Este é o grande perigo, o perigo de um abismo que acabará por ser preenchido por algo nada recomendável.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Perversão governamental

René Magritte - El principio del placer (Retrato de Edward James) (1937)

Existe neste governo uma estranha forma de perversão. A psicanálise ensina que o crescimento é marcado pela substituição, na ordenação da vida, do princípio do prazer pelo princípio de realidade. Tornar-se adulto é adequar-se à realidade, abandonando o delírio que a busca de prazer implica. A perversão governamental reside em ter travestido o princípio de prazer em princípio de realidade. Quando toma as medidas que toma, o governo invoca o princípio de realidade, clama a necessidade de ajustamento ao real. A verdade, porém, é que estas medidas são tomadas porque dão prazer a quem as toma e não porque sejam adequadas à realidade (que elas próprias destroem). Mesmo que a realidade resista a essas medidas, e mostre que nem uma das previsões delirantes efectuadas estava certa, o prazer de humilhar um povo, o prazer de restabelecer velhas hierarquias, fala mais alto no coração dos governantes, acicatando-lhe o desejo. De certa maneira, aquilo que se passou ontem no discurso de Vítor Gaspar foi uma orgia e terá, por certo, provocado intensa fruição no campo governativo. Estamos no domínio da pura patologia.

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

terça-feira, 2 de outubro de 2012

A dança das bacantes

Giuseppe Cominetti - Lascivious Dancers (1917)

Se imaginarmos a situação em que se vive como um acto de dança, aquilo que descobrimos é que as partes - aquelas que activamente tomam parte no jogo e não os espectadores -, com a forma lasciva com que se entregam ao acto, excitam-se mutuamente. Inebriadas pela excitação, a racionalidade apolínea que deveria dirigir os actos vai desaparecendo, sendo substituída, cada vez mais rapidamente, por uma embriaguez dionisíaca. As bacantes agitam o tirso e a dança torna-se cada vez mais frenética. Não tarda que o filtro das feiticeiras faça o seu efeito.

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

O endeusamento da mudança

Manuel Rivera Hernandez - Metamorfosis, mutación (1961)

Por um pequeno truque, José Mário Branco transformou, há muitos anos, o soneto de Camões, Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades, numa espécie de hino à bondade da mudança. O truque está em colocar entre as estrofes camonianas dois versos que funcionam como refrão: Mas se todo o mundo é composto de mudança / Troquemos-lhe as voltas que ainda o dia é uma criança. O texto de Camões está repleto de dialéctica, mas de uma dialéctica ainda não iluminista. A mudança é apresentada, por norma, como contrária à esperança, como aquilo que converte em choro o doce canto. José Mário Branco vai sublinhar a ideia de que o mundo é uma criança, ainda está na sua aurora e que, sendo assim, é possível dirigir-lhe a mudança. Não se pode dizer que há uma completa perversão do texto de Camões. Os últimos dois versos do soneto (Outra mudança faz de mor espanto / Que não se muda já como soía) mostram que há uma mudança na própria mudança, que ela estava a ter uma transformação qualitativa, o que a abriria, podemos imaginar, para a própria esperança.

Camões está à porta da modernidade, já não pertence a um tempo onde a tradição via no fluxo das mudanças o princípio do mal, mas também não era ainda um iluminista, que via na mudança um progresso em direcção ao bem. José Mário Branco canta ainda embalado pela crença iluminista no poder da vontade humana e no progresso. O que estamos dolorosamente a aprender desde há um século, com especial ênfase nos últimos tempos, é que a mudança pode ser contrária à esperança, e no lugar de um bem trazer o mal sob novas figura. O endeusamento da dialéctica da mudança tornou-se para mim, com o passar do tempo, um enigma. Dir-se-á que os homens clamam mudança porque têm esperança que ela traga o bem e o justo. Mas isso não é verdade. 

A experiência mostra-nos que as mudanças acabam sempre, com o passar do tempo, por se tornar grandes decepções, como se a realidade fosse impotente para satisfazer a esperança. Resta-me uma explicação: os homens endeusam a mudança porque não têm outro remédio. Queiram ou não, as coisas mudam, e mudam sem conotação moral. Contrariamente ao que diz a canção de José Mário Branco, o mundo muda mas poucas são as nossas possibilidades de lhe trocar as voltas, pois ele não é uma criança, mas uma velha rameira. A esperança com que os homens investem a mudança, mesmo se mil vezes decepcionados, é o ópio que usam para tornar a dor da mudança suportável. Só isso.