sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Escola, religião e cidadania


A minha crónica no Jornal Torrejano.

Por motivos profissionais estou a fazer formação na área da Filosofia da Religião. As reorientações que o programa de Filosofia do ensino secundário está a sofrer implicam, entre outras coisas, que a área dos valores religiosos se torne obrigatória e não seja, como até aqui, uma opção, a qual, por norma, é preterida pela dos valores estéticos. Vão ser as duas obrigatórias. Faz sentido, no contexto em que vivemos, tornar obrigatória, no ensino secundário, uma reflexão filosófica sobre a religião? Do ponto de vista tanto da formação do indivíduo como do cidadão, e é este que aqui interessa, faz todo o sentido.

A religião tornou-se um fenómeno político global. Confinada durante muito tempo, no Ocidente, à consciência do indivíduo, com o advento do Islão na esfera política mundial, tendo-se tornado um dos grandes actores geopolíticos, a questão religiosa deixou de poder ser vista como um mero problema pessoal. Concomitante a isto, está a relação – não poucas vezes conflituosa –, no mesmo território, entre populações secularizadas e de práticas religiosas meramente convencionais e populações de fortes convicções, onde a identidade pessoal é construída a partir da fé professada. Para crentes, agnósticos e ateus, a questão religiosa está de volta e deve ser pensada.

O contributo que a Filosofia, no ensino secundário, pode fornecer no âmbito deste assunto é muito específico. Não pode visar nem a uma catequese nem a uma contra-catequese. Isso é um problema que as diversas Igrejas e movimentos religiosos ou anti-religiosos devem fazer no respectivo âmbito de acção. A Filosofia visa antes fornecer um conjunto de ferramentas críticas, para que os alunos possam avaliar o problema religioso que o actual estado do mundo nos impõe, assim como as suas convicções pessoais, sejam elas quais forem.

Do ponto de vista político, esta missão da Filosofia é da mais alta importância. As questões religiosas, ao lidarem com a relação do homem com o sagrado, têm um enorme poder para desencadear paixões mortíferas. Introduzir na esfera da crença a reflexão racional e crítica não serve para destruir as crenças, para fazer conversões ou promover apostasias. Serve para diminuir as paixões, para que o fanatismo dê lugar ao debate sereno e à análise crítica rigorosa. Trazer a Filosofia da Religião para a formação dos alunos é um contributo para que a cidadania futura se torne melhor, mais racional, mais crítica e menos permeável ao vírus do fanatismo e aos rituais da violência.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Ensaios sobre a luz (14)

Otto Steinert - Structures en fer et en bois, 1949

Pálida, a luz trouxe o Inverno e deixou-o cair sobre a cidade. As folhas mortas, invisíveis, são agora uma recordação na seiva suave dos filamentos de ferro.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

Distopia

Heinz Hajek-Halke, Friedhof der Fische, 1939

A primeira vez que vi esta fotografia de Heinz Hajek-Halke, um dos grandes fotógrafos germânicos, não pensei nem em peixes nem em cemitérios. Ocorreu-me estar perante um ensaio - e a fotografia de Hajek-Halke pode ser vista no âmbito do ensaio -, um ensaio, dizia, sobre um projecto de arquitectura futurista. Como em muitos projectos futuristas, haveria nele a sombra ameaçadora e mortal de uma distopia. Quando descubro o título, Cemitério de peixes, não abandono a percepção de uma arquitectura distópica e, por inferência, a própria distopia. A conexão entre cemitério e arquitectura torna patente que toda a distopia é a construção de um espaço onde a vida está submetida às estruturas da morte e voltada para a morte. Não dessa morte que faz parte da vida, mas de uma morte que, tem no seu núcleo central, a eliminação da vida. Uma morte eterna. Não por acaso, os regimes políticos nascidos de distopias fizeram da morte não apenas um instrumento mas um fim. A distopia é, deste modo, uma anunciação e uma celebração da morte. As grandes cidades são enorme cemitérios.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Micropoemas - Elementos 6

Franz Marc - Animal in Landscape (Painting with Bulls II) (1914)

6. Animal

Animal,
vertigem, vento e voz.

Na noite, uivo selvagem e feroz.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Abandono

Deborah Turbeville - Unseen Versailles - Aurelia Weingarten, 1980

Olha-se a fotografia de Deborah Turbeville e percebe-se, se súbito, que todo o abandono é uma encenação, uma encenação que é uma estratégia para lidar com a desmesura, com o que há de excessivo. O corpo no chão, perdido na decomposição outonal, parece esmagado pela altura do palácio e, no entanto, não é a morte aquilo que vemos, antes um fingir-se morto, uma diminuição de si, como o fazem certos animais, para que o excesso envolvente não dê por aquela presença. O abandono é, então, um longo exercício de auto-defesa, de preservação, de conservação. Um recurso da esperança.

domingo, 12 de novembro de 2017

Ensaios sobre a luz (13)

Kurt Hielscher - Windmills in Dobrogea or Basarabia, Romania-Bulgaria, circa 1930s

Leve, a luz levita e move o vento nas velas do moinho, e logo se dissipa nos dedos que, lentamente, tocam o segredo do cereal.

sábado, 11 de novembro de 2017

Progresso moral da humanidade

Marc Chagall - Abraham and the Three Angels (1958-60)

O psicólogo Steven Pinker tem uma agenda de investigação cujos resultados tendem a contrariar as nossas percepções. Talvez tenha sido sempre assim, talvez a humanidade julgue que o presente é sempre pior e mais problemático que o passado. O presente nunca deixa de servivido sob o signo do apocalipse. Mesmo que isso não seja verdade para todas as épocas, parece ser uma evidência para aqueles que estão vivos hoje e que ainda viveram largo tempo no século passado. O século XX, com o seu cortejo de horrores, tem funcionado como o sinal de que a ideia de um progresso moral da humanidade é coisa destituída de sentido e já lançada para o lixo. No século XX aprendeu-se a dissociar, de forma sistemática, o progresso técnico-científico do progresso moral. O primeiro seria inegável, enquanto o segundo estava num fase de retrocesso. Os campos de concentração nazis e o gulag soviético surgiam como provas irrefutáveis desse retrocesso moral da humanidade. Um cepticismo antropológico tomou corpo e inundou as crenças de muitos, entre os quais me encontro. 

Mas mais importante do que ver as nossas crenças corroboradas é, segundo a lição de Karl Popper, vê-las destruídas. É isso que faz Steven Pinker (ver aqui). Contra as nossas intuições sobre o Zeitgeist, ele afirma que o mundo não se está a desmoronar. Pelo contrário. Nunca o mundo foi tão pacífico como o é hoje. Nunca os homens se mataram menos do que hoje em dia. A análise empírica que Pinker faz em Os Anjos Bons da Nossa Natureza torna patente, ao longo da História, um declínio contínuo da violência. Este declínio contínuo da violência pode não ser uma prova evidente da existência de um progresso moral da humanidade, para falar à maneira de Kant, mas é um sintoma forte desse progresso. Por falar em Kant, o mais importante filósofo do Iluminismo, Steven Pinker prepara-se para lançar um novo livro, em cujo título, Enlightment Now: The Case for Reason, Humanism and Progress, ressoa, quase palavra a palavra, a voz do filósofo de Königsberg. Talvez o cepticismo antropológico esteja errado e as esperanças do século das Luzes não tenham sido em vão. Esperemos.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Reconhecimentos

Charles Émile Jacque - Sheep

Conforme a ciência vai produzindo conhecimento sobre animais não humanos, mais difícil é manter a atitude e a distância que a nossa espécie ostenta perante as outras. A ciência mais do que nos mostrar a existência de uma diferença absoluta, trata antes, sem qualquer objectivo ideológico, por nos mostrar a proximidade entre as espécies animais que partilham o planeta. Esses animais não são meras coisas que estão aí à nossa disposição, mas, surpreendentemente, são, também eles, o nosso próximo. Isso não significa que o homem tenha de deixar de ser omnívoro, mas implica um relação diferente da que existe numa cultura que olha para tudo do ponto de vista da mercadoria. O facto de elas reconheceram a face humana não deixa de suscitar alguma reciprocidade. Em certas culturas tradicionais - talvez na generalidade dessas culturas - não havia as fantasias do vegetarianismo, mas cultivava-se um grande respeito pelo animal. Esse respeito significava - e significa - comprometer o homem numa relação moral com os animais não humanos.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

Micropoemas - Elementos 5

Amedeo Modiagliani - Cypress Trees and Houses (1900)

5. Séculos

Séculos,
ciprestes tocados pelo vento.

O corpo, um astro perdido no firmamento.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Um rolo de feno

Rodney Smith - Don Jumping Over Hay Roll, Monkton, Maryland, 1999

Elegi esta fotografia de Rodney Smith como uma metáfora da vida desde o primeiro momento em que me deparei com ela. Aparentemente, saltar sobre o rolo de feno é uma inutilidade, pois para prosseguir no caminho basta contorná-lo. Quando os indivíduos, as instituições ou as sociedades inventam obstáculos onde eles não existem, manifestam, desse modo, uma vontade de superação, um desejo de ir mais além, uma não conformação com aquilo que está. A vida pulsa dentro deles e anseia por se descobrir na superação do obstáculo. Quando indivíduos, instituições ou sociedades se desviam dos obstáculos que a vida lhes coloca e escolhem o caminho raso, sabemos então que a morte, disfarçada de inteligência, já tomou conta deles. 

terça-feira, 7 de novembro de 2017

Ensaios sobre a luz (12)

Francis Wu - Harvest Summer

A luz desliza das nuvens e é restolho que, descalços, os pés pesados pisam a caminho da solícita sombra da noite.

segunda-feira, 6 de novembro de 2017

Alma Pátria - 38: António Menano - Menina e Moça



Coimbra, Fado de Coimbra. Quais os grandes nomes? Certamente, José Afonso e Adriano Correia de Oliveira, também Luís Goes ou mesmo Luís Piçarra. Mas na arqueologia dessa canção encontramos gente como Augusto Hilário, Edmundo Bettencourt e o grande António Menano, melhor, o Dr. António Menano, ou o fado não fosse de Coimbra. Se o Fado de Lisboa expressa a alma popular portuguesa e, de certa forma, a aristocrática, almas muito mais próximas do que se pensa, o Fado de Coimbra é a expressão intelectual e burguesa da alma pátria. Mas aqui surpreende-se uma alma burguesa estranha à burguesia europeia, pois a saudade e o passado, mas não o futuro e a sua dinâmica dissolvente e progressista, são os elementos ideológicos estruturais. Uma burguesia fatalista, fixada no que foi e saudosa sabe-se lá do quê, explica muito daquilo que ainda somos.

domingo, 5 de novembro de 2017

A vida autêntica

Ernst Ludwig Kirchner - Vita alpestre (1919)

Uma parte do que somos é configurada pelo local onde nascemos e onde se desenrolou a infância. A vida na montanha é mais rude e rigorosa do que na planície ou nas cidades. A montanha é menos propícia ao devaneio. Ela, com os seus perigos e carências, exige frugalidade e uma atenção redobrada à realidade. Quase automaticamente, pensamos que a vida aí é mais autêntica e mais verdadeira. Esta relação, que o espírito faz sem nela reflectir, não deixa de revelar uma crença solidamente plantada no coração dos homens. A vida autêntica e verdadeira é aquela que, pela rudeza das suas condições, exige dos homens um grande rigor e uma não menor frugalidade. Por muito que gostemos do que é fácil e do que é cómodo, sabemos, por um saber ancestral, que a frugalidade e o rigor são o quinhão que nos deve caber.

sábado, 4 de novembro de 2017

Micropoemas - Elementos 4

Ernst Ludwig Kirchner - Girl Under a Japanese Parasol (1909)

4. Raparigas

Das raparigas,
o perfume e a erva.

Do rio, um pássaro a navegar a terra.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

O velho PS

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Aquando da formação do actual governo, não faltaram maus agoiros sobre o descalabro da economia, o descontrolo do défice e a desmedida loucura da extrema-esquerda, isto é, do Bloco de Esquerda e do Partido Comunista. Agora que, como resultado das tragédias provocadas pelos incêndios, o governo enfrenta enormes dificuldades e abre o flanco à espada da oposição, é interessante olhar para as profecias e para a realidade. As profecias, nem uma se confirmou. A economia tem-se portado bem, o desemprego tem vindo a diminuir, o défice está a ser controlado. Também se descobriu que a extrema-esquerda é bastante moderada e responsável e, na prática, tem contribuído para os bons resultados da governação e para a boa imagem do país lá fora.

No entanto, estava sob os nossos olhos o principal problema, aquele que ninguém viu, que é a causa principal das actuais dificuldades de António Costa e motivo de arrufos com o Presidente da República. Esse problema chama-se Partido Socialista, o velho PS. António Costa, em desespero de causa, sua e do partido, teve um golpe de génio, ao fazer o acordo em que se funda o seu governo. No entanto, o seu Partido Socialista não deixou de ser o velho PS, o mesmo que gerou personagens como José Sócrates, Armando Vara e outras pessoas que, apesar de não passarem pelas vicissitudes onde estes se enrolaram, não gostaríamos que pertencessem ao círculo de amizades dos nossos filhos. E aquilo a que me refiro não são a supostas condutas ilegais, mas à ligeireza com que se tratam muitos assuntos públicos, à facilidade com que o aparelho partidário toma conta das instituições para seu gáudio e proveito.

O velho PS não morreu quando Sócrates saiu, até porque ele já existia antes de Sócrates ter chegado, como Guterres bem o sabia. E é esse velho PS que tem grande responsabilidade no que pior se passa neste governo. Toda a história dos incêndios deste Verão – embora a responsabilidade tenha de ser partilhada por outras forças partidárias e sociais – é um retrato cruel, mas fidedigno, desse velho establishment partidário. Ligeireza, facilitação, falta de rigor, e uma visão do Estado como lugar de emprego para os rapazes e as raparigas que começaram a vida a colar cartazes. O PS não é o único, mas é ele que agora governa. O que falhou neste Verão, não foi a economia – graças ao professor Centeno, que não pertence ao velho PS –, não foram exigências desmedidas dos parceiros da maioria parlamentar, que se mostraram sempre rigorosos e responsáveis. Foi mesmo o velho PS. E o problema é que parece não haver outro.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

O que está em jogo

A minha crónica em A Barca.

Um ano terrível de incêndios. E sempre que uma coisa terrível se manifesta, há uma luz que desce sobre a realidade e torna visível aquilo que era invisível, aquilo que ninguém queria ver. Não falo da desorganização dos serviços, não falo da desordem que campeia na floresta. Falo de um país que, apesar de ocupar parte muito significativa do território, deixou de se ver. Ali tudo parece mais arcaico. Em muitos lugares, é a ruína que cresce desmedida. Noutros, a ruína ainda não chegou por completo, mas são habitados por solidões sem fim. Olhamos o país e parece que uma parte desatou a correr por aí fora e foi deixando a outra para trás, até que se esqueceu dela por completo. Os incêndios, para lá das mortes, mostraram um país – isto é, uma parte da população – que foi abandonada à sua sorte, ou antes, à sua má sorte.

Talvez tudo tenha começado pelos anos sessenta do século passado com as grandes vagas de imigração. O país, atolado na guerra e na ditadura, não teve o talento e a capacidade para fomentar pólos de geração de riqueza distribuídos pelo vasto interior. A transição à democracia acabou por fomentar um modo de vida urbano que acentuou a tendência para o despovoamento. Depois veio a grande época dos fogos de artifício, a entrada na CEE. O dinheiro jorrou país fora, mas o resultado foi cavar mais o fosso entre o interior e o litoral, entre as zonas deserdadas e as zonas ricas. Com a crise do défice, os meios que poderiam existir para continuar a disfarçar a realidade desapareceram. Bastou um ano como este e tudo veio ao de cima, com mais de cem mortos pelo caminho e perdas incalculáveis. Os incêndios deste Verão mostraram que, tirada a maquilhagem trazida pelo dinheiro europeu, a face do país não é lá muito bonita de se ver.

Será que o país, todos nós, aprendemos alguma coisa? Será que, depois das emoções esfriarem, ainda nos lembraremos desse país que agora descobrimos? Será que a nossa memória do acontecido persistirá apenas até à próxima desgraça ou até ao próximo derby e ao escândalo de um penalty roubado? Temo que, com as primeiras grandes chuvas, a vidinha tome conta das instituições e dos cidadãos e tudo fique como está. É verdade que se estão a tomar medidas interessantes. O problema, porém, é se essas medidas são uma mudança para que tudo fique na mesma. O que está em jogo não é só como evitar e combater os incêndios. Não é só ordenar a floresta e discutir a vexata quaestio do eucalipto. O que está em jogo é o que vamos fazer com o nosso interior. O que está em jogo é se vamos continuar a abandonar as pessoas desse interior.

quarta-feira, 1 de novembro de 2017

Ensaios sobre a luz (11)

Gustave le Gray - Le Havre, Bateaux quittant le port, 1856

Luz sobre as águas e os barcos, cerzidos ao céu, partem para a terra do esquecimento.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

Catalunha, um certo desconforto

Francisco Iturrino - El paseo. Plaza de Cataluña (1915)

Agora que o problema da Catalunha parece entrar na via da solução – uma solução transitória, como tudo na vida –, vale a pena tentar compreender porque gera uma sensação não só de pura irrealidade mas de um tão grande desconforto. Não se trata de uma questão política, saliente-se. É fácil compreender o ponto de vista das partes. Trata-se antes da encenação, das palavras, das manifestações, das acusações, das fugas. Enfim, da estética do evento, da deplorável estética que dele ressalta.

Num mundo civilizado e esteticamente suportável tudo se passaria tranquilamente. O governo da Catalunha diria: bem estamos cansados deste casamento e queremos o divórcio. Não há razões para continuarmos a viver na mesma casa. Vamos lá fazer as contas. O governo de Madrid consideraria o caso, entre o enfado e a irritação, e proporia que se consultasse o Rei para fazer terapia de casal. As partes desavindas, nas sessões, poderiam insultar-se, embora sem levantar a voz, como se estivessem num filme de Bergman.

A certa altura, o Rei, com cautela e para não interferir na vontade das partes, sugeriria que pensassem bem na situação. Que tal um exame de consciência por parte de quem se quer divorciar? E como quem não quer a coisa, sem gritaria, convocava-se um referendo para, pacata e civilizadamente, os catalães dizerem o que lhes vai na alma. E chegaria o dia em que diriam: foi bom, mas acabou-se. Ou, na alternativa mais provável, reconheceriam que a ligação ainda tem muito para dar.

Tudo isto, porém, sem grande espectáculo, sem palavreado horrendo, sem a chicane do que se quer ir, sem os ataques de fúria do amante atraiçoado, e também, no caso provável de quererem continuar casados, sem cenas românticas na via pública. Num mundo modicamente civilizado, como é suposto a Espanha ser, nada do que se tem passado se deveria ter passado. Casamentos, concubinatos, traições e divórcios são coisas que se devem tratar com discrição. No fundo, ser civilizado é um exercício contínuo de saber manter as aparências e, acima de tudo, o fair-play

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Micropoemas - Elementos 3

Jacques Callot - El duelista de la espada y el puñal

3. Tempo

O tempo,
espada de vento e sal.

Uma estrela na ponta do punhal.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

domingo, 29 de outubro de 2017

A cegueira de Lenine

A. Gerasimov, Lenin on a tribune, 1930

Passou há dias o centenário da revolução bolchevique de Outubro de 1917. Muito do prestígio desse acontecimento está ligado à propaganda. Veja-se, por exemplo, este retrato de Lenine por Alexander Gerasimov, retrato feito treze anos depois da revolução e cerca de seis após a morte do retratado. Envolto na multidão e num mar de bandeiras vermelhas a ondular ao vento (um lugar comum da estética revolucionária), Lenine olha em frente, para o futuro. A expressão facial e até a posição do corpo dizem-nos que ele vai rasgar o caminho para esse futuro, do qual ele - através das suas ideias - será o senhor. Esta hübris, tão comum aos homens, tem sempre o reverso da medalha.

Visto do ano do centenário, por muito que os adeptos achem que não, aquilo que se vê é um Lenine cego. A cegueira que não o deixa ver que os seus ideais, apesar da vitória, não terão grande futuro, por muito que se agitem as bandeiras vermelhas. A cegueira de uma ilusão construída sobre a crença de que o motor da história, se é que a história tem um motor (uma terrível metáfora mecanicista devedora da revolução científica do XVII e aplicada, por analogia, à luta de classes), seria posto em movimento por aqueles que, pela sua natureza, são pura passividade. Ora, toda esta iconografia das massas em movimento, de que o trabalho de Gerasimov faz parte, não é mais do que a expressão de um desejo. O desejo de que elas fossem assim e não como eram e como são, sujeitos passivos à espera de protecção, que podem explodir em raiva e revolta se essa protecção não chega.

sábado, 28 de outubro de 2017

Ensaios sobre a luz (10)

Josef Breitenbach - Nu, 1950s

Subjugado pela luz, o corpo abre-se ao segredo e oculta-se no silvar do excesso de claridade.

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

A estética da espera (3)

Julia Margaret Cameron - The Parting of Lancelot and Guinevere, 1874

A espera é o que medeia entre a consumação e a separação. Ainda há, no rosto melancólico e já ferido dos amantes, uma ténue esperança de que a duração se suspenda e a eternidade os colha ali. Em vão. O afastamento reclama já a sua herança e a espera é o lugar onde as agulhas do tempo tricotam, imperativas, severas, inexoráveis, o tecido do abandono. Uma mão ainda se prende na do amante, mas outra desenha já o caminho da fuga.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

O senhor Platão


Estou a ler o Against Democracy, de Jason Brennan. É muito curiosa a forma como ele divide, relativamente à política, os cidadãos das sociedades democráticas. Hobbits, hooligans e vulcanos. Os hobbits têm um fraco ou nulo interesse pela política. São, perante ela, sujeitos passivos. Os hooligans possuem um interesse vivo, informam-se e sentem o dever de participar, embora a sua capacidade de entender outros pontos de vista, mesmo se são apoiados por uma evidência esmagadora, seja muito limitada ou nula. São os sujeitos políticos activos. Por fim, os vulcanos. Interessam-se pela política, mas são racionais a pensá-la. Aqui a racionalidade é entendida como a capacidade de não aceitar crenças desmentidas pelo factos. Se a realidade desmente a teoria, o vulcano desfaz-se da teoria. É um sujeito racional perante a política. Também é uma raridade.

Esta divisão tripartida dos cidadãos perante a política, apesar da fosforescência das designações, onde se desenha um certo divertimento, ecoa algo muito antigo. Na verdade, não estamos perante outra coisa senão a visão platónica do ser humano, com a alma dividida em três partes. A concupiscente, a irascível e a racional. Todos os seres humanos possuem as três partes, o que os diferencia é a parte que é dominante. Combinando a teoria de Platão com as designações de Brenann, teríamos os hobbits, em que o que domina a alma é a concupiscência, o que explica a sua passividade. A parte irascível domina nos hooligans, daí a sua propensão para a acção política acompanhada pela incompreensão do outro lado. Por fim, os vulcanos não são mais do que os filósofos platónicos, em que a parte dominante da alma é razão. E isso torná-los-ia mais aptos para governar. Como se vê, de um momento para o outro, uma velha teoria platónica, tida como uma curiosidade pelos leigos ou uma relíquia pelos praticantes da filosofia, é reanimada e colocada no centro do debate intelectual. Mais uma vez somos chamados a reflectir sobre o que acontece quando somos governados por hooligans. O senhor Platão nunca passa de moda.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Micropoemas - Elementos 2

Maruja Mallo - Rosa

2. Futuro

Futuro,
uma rosa bravia.

E no fruto a luz que dela caía.


(Micropoemas, 1977/78 e 89)

terça-feira, 24 de outubro de 2017

A estética da espera (2)

René Burri - Party. On the wall a giant Deutschmark, introduced in 1948 and symbol of an economic miracle.  West Berlin, 1964

A espera é já um convite. Melhor, é o território onde o desejo triunfa sobre qualquer obstáculo. Aqui, na fotografia, de René Burri a espera é a antecâmara da acção, a qual desliza dos olhos de ambos os protagonistas e é uma promessa sorridente e despreocupada. O pior porém é a luz que ilumina o desejo descer da gigantesca nota de 100 marcos colada na parede. A relação metonímica que a contiguidade introduz entre desejo e dinheiro lança uma nuvem pesada e densa sobre o que se espera naquela espera.

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Alma Pátria - 37: Madalena Iglésias - Ele e Ela



Se me pedissem uma canção para representar o espírito do Festival RTP da canção, pelo menos daqueles anos que vão desde 1964 a 1974, eu não teria qualquer dúvida de escolher esta. Contrariamente a muitas canções que por lá passaram, tendo algumas ganho, esta não tem mensagem subliminar. É uma coisa inócua e era isso que tanto a RTP como a Eurovisão pretendiam. O conteúdo desejado era a ausência de conteúdo, uma coisa ritmada e bem disposta, de preferência que falasse de amor, mas nada de grandes tensões amorosas. A qualidade textual, e até musical, de muitas canções que apareceram no Festival é apenas a prova da inexistência de um lugar natural onde elas pudessem ter a sua vida. Ele e Ela é, de facto, o espírito da coisa.

domingo, 22 de outubro de 2017

Um paternalismo democrático


Portugal tem uma estranha democracia. Essa estranheza só agora se revelou na sua mais autêntica natureza. Vivemos num paternalismo democrático. Foi Marcelo Rebelo de Sousa que o tornou evidente, embora Cavaco Silva também desejasse, sem êxito, conduzir o regime para aí. Este paternalismo nada tem a ver com a relação do Presidente com as populações, nas horas boas e nas más. Tem a ver com a forma como se relaciona com o governo e a oposição. Age não como um político, mas como um pai, umas vezes brando e outras vezes severo. Castiga ora uns ora outros. Dá reprimendas públicas e, por certo, outras privadas. Curiosamente, todos se comportam como filhos respeitosos e obedientes. Este tipo de relação - absolutamente inaceitável numa democracia adulta - revela muito da natureza das nossas elites políticas. Revela, porém, ainda mais de nós enquanto povo. Nós permitimos que aqueles que nos representam não passem de adolescentes retardados, que precisam de um pai que os ponha na ordem e distribua castigos e recompensas.

sábado, 21 de outubro de 2017

Ensaios sobre a luz (9)

Jack Delano - Foggy night in New Bedford, Massachusetts, 1941

Noite e névoa abrem-se para a ávida avidez com que da terra lenta e leve a luz se ergue.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Micropoemas - Elementos 1

Manuel Narváez Patiño - Arboles (1988)

1. Árvores

Árvores,
a voz do vento ao soprar.

Ramos e folhas a arder ao luar.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

A vida normal

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Há alturas em que o jeito de ser português mostra os seus limites. O ano de 2017 é uma dessas alturas. Não chega a nossa cultura do desenrascanço (palavra horrível com que embrulhamos a incompetência na esperteza saloia). Não chega este ir fazendo que faz mas não faz. Não chega o modo de ser português que alguns cantaram perante os rigores do norte. Não chega esse riso manhoso de quem coça a cabeça e diz: deixa-os poisar! Todos conhecem, ó ironia das ironias, essa expressão, tão ao gosto popular, que resume, melhor que todas as outras, o modo de ser português: deixa arder que o meu pai é bombeiro.

Este ano de 2017 é o resultado de anos, décadas, talvez séculos, de deixa-os poisar e deixa arder que o meu pai é bombeiro. Só que já não há sítio onde poisar e bombeiros que cheguem para tanto incêndio. Eu sei, nós somos boas pessoas, e as boas pessoas odeiam o rigor. Nós somos criativos (deixem-me rir), e os criativos abominam a organização. Nós somos simpáticos, e as pessoas simpáticas detestam a disciplina. Nós gostamos de coisas fáceis. Nada de exigências, vamos lá devagar que é assim que se chega ao longe. Esta atitude de autocomplacência corrói os indivíduos, as famílias, as instituições. Corrói, acima de tudo, o Estado.

Este ano está a ser anormal? Está, mas é nas anormalidades que se vê como a nossa normalidade é doentia, malsã, absolutamente perigosa. A nossa vida normal não passa de uma brincadeira pouco séria. A nossa vida normal entregou o Estado e as instituições ao compadrio, à corrupção, à preguiça, ao branqueamento de comportamentos. As seitas confrontam-se na praça pública, movidas pelo seu desejo de ocupar o poder, e nós, cidadãos, em vez de sermos rigorosos, organizados, disciplinados e exigentes connosco e com quem está no poder, aceitamos tudo desde que venha dos nossos. A nossa vida normal é viver à beira do abismo. Quando há uma anormalidade, como este ano, damos um passo em frente.

Eu gostava que esta hora difícil fosse a hora de um recomeço, um tempo em que tomássemos consciência de que a nossa vida normal é perigosa, muito perigosa e começássemos a ser mais exigentes e rigorosos com as instituições, com os poderes, mas, em primeiro lugar, connosco. Podemos acusar, para salvar a boa consciência, os políticos e as instituições, mas isso seria esquecer que fomos nós que os elegemos (aos actuais e aos anteriores) e que não lhes exigimos nada. A nossa vida normal é passar cheques em branco e depois queixarmo-nos que nos levaram o pecúlio. Será desta que iremos acabar com a nossa vida normal? Ou continuaremos a dizer: deixa arder que o meu pai é bombeiro?

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

Do trono ao altar

Corrado Giaquinto - El sacrificio de Ifigenia (sec. XVIII)

O caso da demissão de ministra Constança Urbano de Sousa é mais um que nos mostra que entre o trono e o altar sacrificial vai o passo de um anão. Por mais secular que seja uma sociedade, o poder tem sempre uma dimensão sagrada. A unção que o governante recebe do deus - do demos, neste caso - dá-lhe o direito à glória do mando. Este direito, porém, tem um preço, torna o governante uma potencial vítima sacrificial. Se as coisas correm mal, o deus exige sacrifícios expiatórios para reconciliação. Dito numa linguagem mais seca: exige uma vítima emissária ou um bode expiatório.

Uma das características da expiação sacrificial é a possibilidade de substituição da vítima. Na economia da expiação, não é essencial que o principal responsável seja a vítima, mas que haja uma vítima que aplaque os furores do deus desavindo com os homens. Constança Urbano de Sousa, já consagrada pela unção do poder, foi a vítima sacrificial - e toda a vítima sacrificial é sagrada -  imolada para tentar salvar o governo de António Costa e aplacar as fúrias. Não esqueçamos que ela foi uma criação política de António Costa, uma espécie de filha. Ao ser imolada, ela é a Ifigénia que permite à armada de António Costa rumar para Tróia. O resto é-nos contado por Homero e por Ésquilo.

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A estética da espera (1)

Ara Güler - Dockworkers waiting to unload ships along the Golden Horn, Istanbul, Turkey, 1954

Um olhar precipitado e superficial para a fotografia de Ara Güler poderia fazer crer que estávamos perante um quadro neo-realista. A indumentária, o cenário e  algumas expressões faciais destes estivadores enquadram-se nessa lógica. Contudo, o que a fotografia nos dá a ver é algo completamente diferente. Na estética neo-realista, os trabalhadores, por norma, são representados em acção. Eles marcham em direcção ao futuro, ao glorioso futuro que os espera. Aqui, pelo contrário, eles não marcham para o futuro, apenas o aguardam. E aguardam esquecendo-se dele, fazendo como se ele não existisse. A espera não é sinónimo de esperança, nem sequer de expectativa. A glória não está no que há-de vir, mas no puro momento em que se espera. Que glória pode haver nesse futuro em que um barco os aguarda para ser descarregado? Os futuros reais são sempre muito mais inóspitos e indesejáveis do que os futuros imaginários e nunca realizáveis. 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Um espelho do país

Paul Klee - Fire Wind (1922)

Há precisamente cinquenta anos, em 1967, umas terríveis cheias devastaram a zona de Lisboa e causaram 700 mortos (ver aqui). A ditadura do professor Salazar tentou esconder a realidade, a oposição ao mesmo professor Salazar tentou tirar partido da catástrofe para minar o regime. Essa é a natureza das coisas. Ora foi a maior catástrofe natural depois do terramoto de 1755, mostrou a fragilidade da sociedade portuguesa, a incúria das instituições, a impotência dos políticos. A questão que devemos colocar é a seguinte: para lá da luta política, nós, portugueses, aprendemos alguma coisa com os acontecimentos de 1967?

O ano de 2017 – um ano em que já se vive em democracia há mais de quarenta anos – mostrou que não aprendemos nada. O governo não pode ocultar a situação mas, porque está no poder, vai tentar minorar a responsabilidade desse poder. A oposição, porque não está no poder, vai tentar tirar partido da situação. Se fosse ao contrário, se governasse a direita ela faria o que faz agora o governo e a esquerda faria o que faz agora a oposição. Essa é a natureza das coisas.

O problema, porém, está noutro lado. A sociedade portuguesa, apesar de terem passado cinquenta anos, apenas esqueceu a catástrofe de 1967 e não aprendeu nada com ela. Bastou um Verão anómalo para tornar patente a velha fragilidade da sociedade portuguesa, a incúria das instituições, a impotência dos políticos. Destes três conceitos – fragilidade, incúria e impotência – o central é a incúria. Ela perpassa por toda a nossa sociedade, do cidadão anónimo ao poder político, passando pelas instituições, sejam elas quais forem.

A incúria nasce da falta de exigência que temos connosco e estende-se à falta de exigência que, enquanto cidadãos, temos com as instituições e o poder político. Para este olhamos segundo o modelo do futebol. Se o poder está na mão dos nossos, tudo se perdoa; se está na dos outros, exigimos que, sem remissão, pague por tudo, mesmo pelo que não tem responsabilidade. Esta forma de encarar a política pelos cidadãos é parte integrante da incúria.

Ao fim de cinquenta anos descobrimos que não aprendemos nada, repito. E preparamo-nos para, mais uma vez, não aprender rigorosamente nada. Sim, assistiremos a uma tremenda luta política em torno dos mortos – já estamos a assistir a escaramuças e a intifadas levadas a cabo por pessoal menor – e a grandes rituais de dor e consternação, de uns porque estão no poder, de outros porque estão na oposição. Isso, porém, é a estratégia que todos – cidadãos, governo e oposição – seguem para evitar olhar a realidade e enfrentá-la. Como as cheias de 1967, também os incêndios de 2017 são um espelho de todos nós, da nossa incúria enquanto cidadãos, enquanto profissionais, enquanto políticos. Olhamo-nos ao espelho e não gostamos do que vemos. Como não suportamos o desgosto, partiremos o espelho. Assim sempre muda alguma coisa, para que tudo fique na mesma.

domingo, 15 de outubro de 2017

Micropoemas - Amor 6

Sarah Moon - Fashion 10, 1998

6. Corpo

No corpo,
o fogo e a senda.

Pele e rumor
a incendiar a contenda.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

sábado, 14 de outubro de 2017

Voto de silêncio

Max Ernst - The Eye of Silence (1943-44)

O mais curioso, quando se escreve sobre política, é a forma como, muitas vezes, os textos são recebidos. Sinto – o que significa que não é um conhecimento mas um pressentimento – que são tomados como afirmações dogmáticas. Quero dizer: exercícios de fé, a partir dos quais se proclama uma crença. Isto condiciona, por certo, a presumida reacção de alguns leitores. Os que partilham a fé que julgam ser a minha e os que não partilham a fé que me atribuem, sendo devotos, assumidos, de outros deuses. Ora se há uma coisa que marca a minha existência é a falta de fé em tudo o que é humano, demasiado humano. E não há coisa mais humana do que opiniões políticas, mesmo, ou principalmente, as que aparentam ser as minhas. Quando uma pessoa precisa de ter uma grande fé, o melhor, para não incomodar terceiros, é entrar para um convento. E mesmo que não seja casto nem pobre, deve sempre cumprir o voto de silêncio.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

É tempo


Nos acontecimentos de Pedrógão Grande revelou-se, da forma mais cruel, uma das grandes limitações da actual solução governativa. Não me refiro à inépcia de um ou outro ministro. Aludo a um dos pontos trazidos à colação pelo relatório da Comissão Independente e que se pode sintetizar na frase citada pelo Público: A instabilidade ocasional provocada pelos ciclos políticos atribuem a esta função [Protecção Civil] desempenhos fortuitos, o que pode gerar (tem gerado), em alguns casos, situações com graves consequências.

Como todos sabemos, os partidos do arco da governação entretêm-se, quando trocam a oposição pelo poder, a substituir por gente sua a gente dos outros. O PS, não sendo o único, tem uma longa tradição neste tipo de distribuição de empregos pela rapaziada. Ora é incompreensível que o BE e o PCP, para além das questões económicas, não tenham tido como um dos pontos centrais do acordo de governo acabar com a situação. Isto não apenas corrói a vida democrática como pode ter efeitos terríveis, como se está a ver. A vida política não pode girar apenas em torno de devoluções de rendimentos.

Se os partidos que têm estado fora da governação – PCP e BE – são impotentes ou não querem, nesta conjuntura propícia, impor um conjunto de reformas que possam acabar com algumas doenças da vida democrática, tantas vezes por eles denunciadas, isso significará que o país continuará a assistir, legislativa após legislativa, a esta troca de lugares, enquanto as instituições se degradam e as pessoas morrem. O PCP e o BE podem ter, neste momento negro da vida democrática (sim, a história de Pedrógão Grande é um momento de grande dor da vida colectiva e uma mancha negríssima e persistente no governo), um papel decisivo em pôr fim a este tipo de manigâncias, nas quais o PS é um dos grandes especialistas. Os eleitores ficariam agradecidos.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

Semelhanças e confissões

Friedrich Engels - Max Stirner

O irmão mais novo de Bruno Bauer, Edgar (1820-1886), passa por ter sido, nos seus verdes anos, o fundador do movimento anarquista na Alemanha. Há quem, inclusive, consiga discernir nos seus escritos de juventude uma justificação teórica do terrorismo. Mais tarde, como acontece com muitos jovens radicais, tornou-se conservador. Interrogo-me, eu que não conheço as suas obras, em que momento da vida teria escutado a confissão de Max Stirner (1806-1856), catorze anos mais velho. Este ter-lhe-á dito que uma vez, inopinadamente, viu a mulher, Agnes Butz (1815-1838), nua e que, a partir daí, nunca mais conseguiu tocar-lhe. O enigma desta história não está na morte do desejo perante o espectáculo da nudez. Talvez o corpo de Agnes fosse demasiado luminoso e, como sabemos, a luz ostensiva é um poder mortal. Enigmático é o motivo que leva Stirner a partilhar a sua experiência de iluminação e morte com alguém que não só é muito mais novo como, por certo, ainda muito jovem. Podemos pensar que há nos homens um pendor para a confissão. Isso, porém, não explica a escolha daquele confessor. Haverá outra possibilidade. Stirner terá estabelecido uma analogia entre o corpo de Agnes, cuja nudez lhe apareceu como uma explosão paralisante, e o espírito do jovem Bauer, tão pronto a dinamitar a ordem do mundo. E todos sabemos como o reconhecimento de semelhanças leva os homens a falar do que prefeririam esconder.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Ensaios sobre a luz (8)

Marcelo Montecino - Untitled, Santiago, 1970

Um excesso de luz e o corpo cede e sonâmbulo soletra o obscuro nome da sombra.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

Micropoemas - Amor 5

Frank Horvat - Rosita, Milano, Italy, 1950

5. Seios

Dos seios,
a seda e o sabor.

Na noite,
a luz, e a cor.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Uma dança mortal

Dora Kallmus - Dancers (Wien, 1922)

Em Espanha assiste-se a uma dança perigosa. O nacionalismo catalão despertou o nacionalismo espanhol. Atrás de ambos vêm as feridas não saradas dos anos 30 do século passado e da guerra civil. Não bastava o aventureirismo de Puigdemont ou a pesporrência de Rajoy, agora veio um valete fazer declarações ainda mais incendiárias ao ameaçar o governante Catalão com um destino idêntico do de Lluís Companys. Este declarou a independência da Catalunha em 1934, tendo sido preso pela própria República espanhola. O problema é que Companys, mais tarde, fugiu, tendo sido capturado pelos nazis, entregue ao regime de Franco e fuzilado em 1940, após um julgamento sumário (ver aqui). Será que estão todos apostados em abrir a caixa de Pandora? Será que estão todos desejosos de chegar a esse momento em que são os acontecimentos que conduzem os homens e não estes aos acontecimentos? Quanto falta para que este pas de deux nacionalista se transforme numa dança da morte?

domingo, 8 de outubro de 2017

Homens de convicções

Utagawa Hiroshige - Ishiyakushi, from the series The Fifty-three Stations of the Tôkaidô Road  (1841-44)

Não há coisa que, no caminho que os homens percorrem na vida, mais os encha de orgulho do que serem reconhecidos como homens de convicções. A fidelidade às convicções é louvada e, mesmo os infiéis contumazes, acabam o dia a queimar incenso ao homem de convicções. Os cemitérios, porém, estão cheios de vítimas dos homens de convicções. Seria mais saudável que apreciássemos os homens pejados de dúvidas. E antes de duvidarmos das convicções dos outros, o melhor seria duvidarmos das nossas. O caminho ficaria mais desimpedido.

sábado, 7 de outubro de 2017

Rui Rio


Rui Rio não agrada a uma parte do PSD, aquela que se integra no que Pacheco Pereira, no Público de hoje, chamou, não sem razão, a alt-right portuguesa. O artigo citado, ainda que de forma indirecta, explica as razões porque toda essa gente, que dentro e fora do PSD apoiou a deriva protagonizada por Passos Coelho, tem medo de Rui Rio. Interessam-me, porém, as razões por que a esquerda deve temer um PSD liderado pelo antigo presidente da câmara do Porto. E existem algumas e ponderosas razões.

Em primeiro lugar, a tendência para reconquistar o centro, que Passos Coelho, no seu (ou dos seus conselheiros) delírio liberal, abandonou à esquerda. Rui Rio pode muito bem, respeitando a história do velho PSD, protagonizar uma política que vise uma sociedade mais equilibrada e socialmente mais aberta, na tradição de Sá Carneiro e de Cavaco Silva, primeiro-ministro. Com Rui Rio o centro deixa de ser uma coutada da esquerda, como é hoje em dia.

Em segundo lugar, Rui Rio, apesar de não ser uma figura com grande peso nacional, tem uma auréola de competência e de resistência a interesses particulares, proveniente da sua estadia na segunda maior câmara do país. Acabou com a promiscuidade entre política e futebol, enfrentou Pinto da Costa, e não deixou de ganhar as eleições no Porto. Tem potencial para criar uma figura de homem vencedor, determinado, independente e inflexível com os interesses particulares.

Por fim, tem uma certa aura, feita de distância, de autoridade e de um certo paternalismo provinciano, que os portugueses têm por costume recompensar nas urnas. Uma aura idêntica à de Cavaco Silva, embora um tudo nada mais cosmopolita e sofisticada. De certa maneira, corresponde a um arquétipo político que teve encarnações, ideologicamente diferenciadas, em figuras como Salazar, Cunhal, talvez Sá Carneiro e o referido Cavaco Silva.

A direita – essa alt-right paroquial e provinciana, apesar da aparência cosmopolita, escorada no Observador – pode não gostar – ou mesmo temer – Rui Rio no PSD. Contudo, será a esquerda que terá mais a perder e a temer se for Rui Rio o futuro presidente do PSD.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Pedro Ferreira


As eleições torrejanas tinham vários ingredientes que as tornavam muito interessantes. Em primeiro lugar, havia que medir o impacto do corte dramático, ampliado na comunicação social local, de António Rodrigues, o antigo presidente, com o PS, bem como o da avaliação negativa da actuação da câmara veiculada no espaço politizado do concelho. Em segundo lugar, testar a pretensão do Bloco de Esquerda conquistar um segundo vereador ou  mesmo a câmara. Em terceiro lugar, observar como a CDU resistiria eleitoralmente à saída de cena de Carlos Tomé. Por fim, observar se o PSD local acompanharia ou não o previsível naufrágio nacional.

O grande triunfador da noite é mais do que o PS o próprio Pedro Ferreira.  O PS obtém, para a câmara, mais de 10 % do que o mesmo PS alcança para a Assembleia Municipal. Pedro Ferreira foi buscar votos a eleitores de todos os outros quadrantes políticos e acabou com uma votação acima dos 50%. A vitória de Pedro Ferreira ultrapassa a ajuda que os bons resultados da governação de António Costa terá dado aos candidatos do PS. Contrariamente ao que se pensava nos círculos concelhios mais politizados, a população reconheceu com muito bom o trabalho da câmara socialista. Por outro lado, Pedro Ferreira mostrou que não dependia de António Rodrigues, um dos perdedores da noite eleitoral. A oposição deste parece ter tido mesmo um efeito favorável a Pedro Ferreira. Uma vitória indiscutível.

O Bloco de Esquerda tem um grande desempenho. Cresce 4,6% na votação para a Câmara e torna-se na terceira força política do concelho. Este excelente resultado foi ensombrado pela expectativa fantasiosa de uma hipotética vitória ou, mais modestamente de ter um segundo vereador. No entanto, deixa ver que o BE está em processo de consolidação no concelho e que a sua cabeça de lista adquiriu um verdadeiro reconhecimento local. Uma desilusão, o resultado da CDU e a perda do mandato na vereação. Carlos Tomé tinha um peso maior que o partido e o seu afastamento teve consequências desastrosas para os comunistas, apesar da qualidade do trabalho autárquico realizado pela CDU e pela sua candidata. Filipa Rodrigues vai fazer falta na vereação.

O PSD torrejano – um partido que em tempos teve pessoas de grande capacidade, reconhecimento e peso no concelho – é uma sombra do que já foi. O naufrágio nacional não explica tudo nestes resultados locais. O PSD deveria aprender com a CDU, malgré tout, e o BE a fazer oposição e a preparar-se para discutir a câmara. A ideia de quem olha de fora é que o actual PSD não passa de um pequeno grupo de diletantes, com pouca preparação política e sem ligação à comunidade. Torres Novas precisa de outro PSD. Por fim, uma palavra para o CDS. Progride 0,9%, ultrapassando os 700 votos para a câmara, fruto do trabalho que tem desenvolvido. No entanto, ainda longe de ter uma presença minimamente consolidada no concelho. A fasquia dos 1000 votos ainda está distante.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

Micropoemas - Amor 4

Jorge Apperley - El espíritu de la viña (1917-18)

4. Ventre

No ventre,
o fogo e a língua.

Na ausência,
a morte e a míngua.

(Micropoemas, 1977/78 e 89)

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Alma Pátria - 36: Hugo Maia Loureiro - Canção de Madrugar



A Alma Pátria continua a explorar o filão do Festival RTP da canção. Hugo Maia Loureiro era, no início dos anos setenta, um dos nomes fortes do Festival. Julgo que nunca ganhou. Em 1970, com Canção de Madrugar, fica em segundo lugar, atrás de Sérgio Borges, Onde vais rio que eu canto. Canção de Madrugar, com música de Nuno Nazareth Fernandes, letra do inevitável José Carlos Ary dos Santos. E é a Ary dos Santos  que se deve a primeira atenção. Ele é extraordinariamente eficaz na construção da letra. Consegue dar densidade a uma canção de amor que, nas mãos de outros, não passaria de uma mera cançoneta. E essa densidade deve-se ao uso exímio da língua portuguesa para obter um efeito onde se revela toda a tensão trágica que habita essa idealização que toma o nome de amor. A música de Nazareth Fernandes e a voz de Maia Loureiro dão pleno corpo à inventividade do letrista. Augúrio de um tempo que despontava no horizonte.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

Mobilidade social

A minha crónica em A Barca.

Todas as comunidades possuem os seus mitos, a partir dos quais constroem uma cultura, fundamento da vida social e da vida política. Poderíamos pensar que as sociedades modernas, seculares e racionalizantes, em que vivemos fossem destituídas dessas mitologias encantadas que encontramos nas sociedades tradicionais. Não é verdade. As nossas sociedades têm uma forte estrutura mitológica cuja função é idêntica à das arcaicas. Um dos mitos mais persistentes das nossas sociedades é composto por uma espécie de triângulo em que num dos vértices se encontra a igualdade, noutro o mérito e, no terceiro, a mobilidade social. O mito diz que numa sociedade em que todos são iguais perante a lei, o mérito dos indivíduos – a sua iniciativa, talento e esforço – será um factor de mobilidade social.

O economista escocês Gregory Clark dedicou-se a estudar milhões de apelidos em várias parte do mundo e a sua evolução social (por vezes, o período estudado chega a ser de 500 anos) e descobriu que a mobilidade social é um processo muitíssimo lento. Em entrevista ao Público, o autor afirma que “as pessoas podem passar centenas de anos até que as famílias que vêm de estratos mais baixos consigam ter a mesma probabilidade das outras em ascender a posições sociais de maior importância. E isto aplica-se a todos os períodos estudados”. Toda a mitologia do mérito, da glorificação da iniciativa e dos esforços individuais, parece cair por terra perante os factos. O estudo de Clark, The Son Also Rises: Surnames and the History of Social Mobility, também mostra que a educação – uma das medicações sociais mais utilizadas para fomentar a mobilidade social – tem um efeito muito residual.

Poder-se-á pensar que grandes e dramáticos acontecimentos políticos, como as revoluções, sejam mais eficazes na produção da mobilidade social. Novo equívoco. Mesmo a Revolução soviética de 1917 foi incapaz de elevar as classes mais baixas a um estatuto social diferente daquele que tinham no tempo do czarismo. Na entrevista ao Público, Gregory Clark sublinha, como hipótese, dois factores que estarão na base do status social: a herança genética do talento e, aliada a ela, uma certa cultura ou tradição familiar. Se as evidências encontradas por Gregory Clark continuarem, em futuras investigações, a ser corroboradas, então um dos principais mitos das nossas sociedades – o da mobilidade social devido ao mérito – cai por terra. Nessa queda, será arrastada a forma como nos últimos dois séculos temos concebido a função e a forma de fazer política. Não sei se é moralmente bom aquilo que iremos encontrar.