sábado, 4 de fevereiro de 2017

A rosa do perfeito silêncio

Piet Mondrian - White Rose in Glass (1921)

Num texto de Michel Leiris sobre o envelhecimento e a morte descobri que o seu avô, um alto funcionário da terceira república, tinha sido discípulo de Augusto Comte, o filósofo do positivismo, e venerável da loja maçónica A Rosa do Perfeito Silêncio. Fiquei fascinado. Não com o avô de Leiris ou com o positivismo de Comte, muito menos com a maçonaria. O que me fascinou foi a denominação da loja. Não conheço – nem me interessam – as motivações maçónicas que conduziram a tal nomenclatura, mas ela poderia ser a evocação de um verso. Um verso que, inopinadamente, desse a ver que o fruto do perfeito silêncio seria a rosa. É da meditação desta ligação que me senti empurrado já não para o fascínio mas para a perplexidade. Esta traduz-se numa questão: e se a rosa, a verdadeira rosa, apenas nascesse desse silêncio perfeito?

Num mundo onde o silêncio é ruído, ainda que por vezes um ruído surdo, um rumor, as rosas, quaisquer rosas, são apenas simulacros de rosas. Todas as que desfilam perante os nossos olhos são o fruto do tumulto que enche a vida e por isso são rosas que o não são. Talvez sejam projectos de rosa, expressões de algum desejo, artifícios de um qualquer imperativo, mas não são rosas. E será que posso falar no plural? Será que poderão existir verdadeiras rosas? Ou não será a verdadeira rosa única? O nome da loja maçónica – ou esse verso que foi tomado por designação – talvez indicie essa singularidade. E aqui a perplexidade transforma-se em assombro: como é fácil platonizar. A verdadeira rosa não é nenhum dos simulacros com que lidamos no dia-a-dia. Ela é aquela que se revela quando em nós se fizer silêncio. Não o grande silêncio mas o perfeito silêncio. Talvez por isso Platão dizia que filosofar é aprender a morrer e a estar morto.