quarta-feira, 15 de março de 2017

Os primeiros sinais

Marcel Duchamp - Joven triste en un tren (1911)

Todos os acontecimentos possuem aspectos mais visíveis do que outros. Na história do cancelamento da conferência de Jaime Nogueira Pinto o aspecto visível foi o da criação de uma situação que pôs, objectivamente, em causa a liberdade de expressão. Há nele, porém, um outro aspecto que acabou por passar despercebido. O da entidade promotora da conferência, um grupo denominado Nova Portugalidade. Não vale a pena chamar-lhe fascista ou clamar que é de extrema-direita. Este tipo de linguagem, por mais que apareça ajustada, tem o condão de tornar invisível o que está a germinar. Etiquetar tranquiliza quem coloca as etiquetas, mas impede-o, ao mesmo tempo, de dar atenção ao fenómeno, criando uma boa consciência cívica através do exorcismo discursivo dos espíritos impuros que poluem a democracia.

Neste momento em França os jovens que até há pouco tempo não assumiam publicamente o apoio à Frente Nacional e a Marine Le Pen, fazem-no agora abertamente (ver aqui). Hoje em dia a grande força da Frente Nacional reside na juventude. De nada valeram os exorcismos feitos durante anos, de nada tem valido gritar que é uma organização fascista e de extrema-direita. Pode-se pensar que grupos como a Nova Portugalidade têm apoio muito residual em Portugal. De momento, isso é um facto. No entanto, entre os mais novos começa a desenhar-se um apetite por este tipo de soluções políticas. E não se trata de pessoas que estão na situação descrita por Pacheco Pereira no Público de sábado passado. As novas gerações têm estado, nas últimas décadas, afastadas da política. É possível que esse afastamento esteja a abrir caminho para um tempo em que ela se irá tornar o centro da atenção dos mais novos através de opções ideológicos idênticas às dos promotores da conferência de Nogueira Pinto. E quem está nas escolas, se não for completamente desatento, começa a notar, apesar de dissimulados, os primeiros sinais.