terça-feira, 11 de julho de 2017

A desmedida


Volto a um dos meus temas políticos preferidos, o da educação do homem político. A raiz de toda a educação do candidato a homem político deveria ser a tragédia grega. Ela forneceria ao aspirante a político a possibilidade de uma meditação sobre os limites do homem e da sua acção. O resto - aquilo que hoje em dia parece ser fundamental - é mera informação e treino nas artimanhas dos jogos partidários. A tragédia tem o papel de nos dar a ver as consequências da desmedida (hübris). A némesis, a vingança dos deuses - isto é, da realidade - não deixará de ocorrer sempre que a desmedida se faz sentir na acção política.

Veja-se o caso do governo de António Costa e a desmedida - o optimismo e o contentamento exibido como uma humilhação dos adversários - com que ele se vinha comportando nos últimos tempos. A humildade que deveria ser a tónica de um governo assente num partido que perdeu as eleições e numa coligação inabitual foi, com os resultados do campo da economia, sendo substituída pela irresistível tentação de gerir a res publica como se o governo fosse constituído por heróis divinos acima dos mortais. A vingança dos deuses não se fez esperar e mostrou que a política não é só economia. Um fogo terrível, um roubo caricato e umas contas a ajustar com a justiça tornaram de imediato patente a natureza humana - demasiado humana e demasiado portuguesa - do governo.

Quer os políticos o creiam ou não, nada há pior para a sua carreira do que a desmedida. Muitas vezes, a hübris parece ser uma condição necessária para atingir os objectivos e triunfar sobre a concorrência. Na verdade, é uma artimanha para perder o herói. Sabemos também que a virtude da humildade não é coisa que tente os egos inflacionados daqueles que se dedicam à vida política. O contacto com o poder retira-lhes o discernimento dos seus limites e leva-os, como se isso fosse a coisa mais natural, a desafiar os deuses - isto é, a realidade. A factura muitas vezes não se faz esperar e mostra que os encargos de tal ousadia não compensam o prazer de se sentir deus por alguns instantes.