sexta-feira, 14 de julho de 2017

Da infância sem fim

Toni Schneiders - Fykesunds bru im Hardanger Fjord, 1959

A espécie humana é muito cansativa na sua previsibilidade. Basta dar um pouco de atenção a uma determinada personagem para que, sem grande surpresa, se consiga antecipar comportamentos. Fundamentalmente, os que são negativos. É preciso um certo refinamento para dissimular com eficiência o desejo de praticar o mal. E refinamento é coisa que está ao alcance de poucos. Para certas pessoas, a ânsia da maldade é tão grande que não conseguem deixar de semear sinais e pistas por todo o lado. E o mais interessante é que o fazem com uma infantilidade quase comovente. O que não é de todo um prejuízo para os outros. Seria bem mais grave que à propensão para o mal se aliasse a maturidade. Por norma, essas pequenas personagens maldosas que cirandam por aí são imaturas, uma espécie de crianças perdidas num mundo cheio de ameaças imaginárias, ameaças nascidas da sua incapacidade de crescer e tornar-se adulto. Ora a quantidade de adultos que, na verdade, nunca cresceram é desanimadoramente muito maior do que se pode pensar. A ideia kantiana de que o Iluminismo é a saída do Homem da menoridade choca com essa realidade. Nem as mais intensas luzes da razão têm o poder de fazer amadurecer parte significativa do género humano, de fazê-la atravessar a ponte que liga a infância ao estado adulto.