segunda-feira, 31 de julho de 2017

O equívoco venezuelano

Símon Bolivar

Percebe-se que governo e oposição tratem com delicadeza a questão venezuelana. São muitos os emigrantes portugueses e os luso-descendentes nesse país. Do ponto de vista do debate de ideias à esquerda, a questão venezuelana é um elemento de demarcação. Desde o início e por muito que seja verdade que Hugo Chávez ganhou os processos eleitorais e plebiscitários em que participou, a chamada revolução bolivariana tinha todos os ingredientes para se tornar numa tragédia mascarada de farsa, como o é agora (ver aqui). Pode ser cómodo culpar os inimigos do costume – isto é, o imperialismo americano –, mas todo o processo estava inquinado desde o início. Populismo, caudilhismo militar, voluntarismo, culto da democracia popular e pouco interesse pelos aspectos formais da democracia representativa. Isto era mais que suficiente para indicar que o que se estava a passar, apesar de alguns resultados interessantes, estava longe de representar um efectivo movimento de emancipação das pessoas. Caminhava-se, enquanto houvesse petróleo caro, para um assistencialismo de esquerda. As tentações assistencialistas, muitas vezes disfarçadas como direitos sociais, têm como consequência tornar os pobres dependentes do poder. Uma política de esquerda no século XXI deve visar a que os indivíduos desenvolvam a sua autonomia e a sua capacidade de gerirem por si mesmos a sua vida e não a promover utopias revolucionárias que se tornam, de imediato, em caridade de Estado e uma ameaça para a liberdade. Desde o início que a chamada revolução bolivariana foi um equívoco. E este equívoco transformou-se com o tempo numa tragédia.