domingo, 3 de setembro de 2017

Descrições fenomenológicas 29. Algumas mulheres 2

Pierre Bonnard - Standing Nude (c. 1922-30)

Lentamente, fez saltar um a um os botões do roupão e, com um esgar de desprezo, deixou-o cair. Estava completamente nua. Olhou-se ao espelho. O cabelo apanhado fê-la erguer a mão e passar por ele, como se quisesse certificar-se de que estava no seu lugar. Dois dedos desceram as pálpebras inferiores e ela espreitou para dentro dos olhos. Tudo estava em ordem. Confrontou-se, então, com o corpo. Os seios, nem pequenos nem grandes, o ventre liso, as pernas. Não havia emoção na contemplação de si mesma. Ficou assim por algum tempo, talvez dois ou três minutos. Hirta. Na face, não se descortinava desdém ou reprovação. Ela constatava, apenas. Talvez registasse a sua imagem para memória futura. A luz amarelava o quarto, tocava-lhe a pele e ficava suspensa como uma recordação que, prestes a chegar à consciência, insiste em não transpor o limiar, uma promessa que recusa cumprir-se. Virou-se então de lado. À sua frente, abria-se a porta do quarto. Ergueu os braços e depois deixou-os cair ao longo do corpo. Estava em sentido. Olhou para lá da porta e, de imediato, fechou os olhos. Flectiu as pernas e apoiou as mãos no chão. Observou o espaço em frente e experimentou a flexibilidade dos membros, de todos eles. Assim, ensaiou os primeiros passos. Chegada à porta tentou rosnar. Em vão. Fez novas tentativas, até que da sua boca saiu um som que fez lembrar o rosnido de um cão. Sorriu. Há muito que não sorria. Saiu do quarto e caminhou, a quatro, pela casa. Ouviu-se a porta de entrada a abrir e depois a bater. Passados instantes, ecoou, vindo da rua, um uivo prolongado, tão prolongado como se uma dor sem fim se tivesse abatido sobre o mundo.