sábado, 2 de setembro de 2017

O lugar da vingança

A minha crónica em A Barca.

Por influência do Iluminismo e de pensadores como Hegel e Marx – ecoando ainda a perspectiva cristã – a História, nos últimos dois séculos, gozou de uma fama que está longe de ser justificada. Ela seria o caminho que nos conduziria, progressivamente, à boa sociedade, a um mundo de paz perpétua, de entendimento entre os homens e de harmonia com a natureza. Esta consideração optimista sobre o devir da humanidade, porém, está longe de se adequar, por pouco que seja, à realidade. Na verdade, a História é o lugar da violência, mas de uma violência que, contrariamente ao que pensava Marx, não conduz a lado nenhum a não ser a mais violência. E não conduz a lado nenhum porque, no cerne da História, nós encontramos a memória.

Dois exemplos recentes. O atentado de Barcelona. Ele faz parte não apenas de um conflito contemporâneo, mas de uma longa história de violências, de conquistas, de reconquistas, de colonizações e de crueldades. Há, por exemplo, grupos islâmicos a reivindicar a Península Ibérica como território do Islão. A cada instante se acusa o cristianismo pelas Cruzadas, embora se esqueça que o Norte de África cristão foi, muito antes das Cruzadas, convertido ao Islão pelo argumento da violência. Há a tragédia da colonização. Por muito que queiramos rasurar a memória, ela volta. Um segundo exemplo está ligado aos acontecimentos dos EUA, às marchas da extrema-direita e ao derrube de estátuas erguidas pelos confederados derrotados na Guerra Civil americana. Supremacistas brancos e anti-esclavagistas continuam em guerra pelas suas memórias. Nada está esquecido. Por vezes, adormece, mas, logo que há oportunidade, a memória da história americana volta com a sua carga de violência.

Ver na História o caminho para a paz perpétua e para a boa sociedade foi, aliás, uma estranha estratégia da própria memória violenta, para que, em nome da paz, a violência se expandisse. O que é razoável esperar é que, de um momento para o outro, sejamos envolvidos num conflito. O que é razoável desejar é que os períodos pacíficos sejam, tanto quanto possível, longos. Para isso é necessário não ter quaisquer ilusões sobre a bondade da História. A vitória de uns é sempre o ressentimento de outros, numa escalada sem fim. Conflitos que parecem dirimidos e resolvidos podem ser reactivados de um momento para o outro, muitas vezes sem que se perceba bem porquê. A História não é mais do que o balançar entre a glória e o ressentimento. Nela, nessa História tão incensada, nada se esquece, nada se perdoa, tudo espera a hora da vingança.