sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Descrições fenomenológicas 30. Algumas mulheres 3

Rothko, N.º 5, 1964

Foi assim que a vi pela última vez. Um fundo negro, de um negro mais espesso que a noite, onde o rosto fulgurava na púrpura da escuridão. Não falava com ninguém, pois não havia quem dela se aproximasse. Olhava, com os olhos azuis, demasiado azuis, para um ponto indefinido. Os lábios deveriam ter incendiado muitas paixões, mas agora não havia neles nada que cantasse, nem sequer a promessa de um amor de ocasião. Estavam fechados, como fechada estava a face. Não havia sombra de desafio, nem uma nuvem de desilusão. As narinas, por vezes, abriam-se ligeiramente para deixar passar o ar. Nessas alturas, as pálpebras tremiam e o brilho dos olhos diminuía, mas logo se recompunha. Quem a via poderia pensar que esperava, mas nada o indicava, pois nela não ardia a tocha do desejo. A mão direita saiu da obscuridade e pousou no pescoço. Os dedos finos e compridos, belos como os olhos, eram agora ramos que nasciam do corpo. Os anos ainda não tinham passado por eles. Seguravam, na sua palidez, o fulgor que se desprendia do silêncio do rosto.