quinta-feira, 23 de março de 2017

Inspiring Future

A minha crónica no Jornal Torrejano.

Assisti há dias, na escola onde lecciono, a uma intervenção da Yorn Inspiring Future que, para além de trazer consigo um conjunto de sessões e workshops, onde 37 universidades e politécnicos tentaram cativar os alunos do 12.º ano, explicou, numa sessão de pouco mais de uma hora, o processo de candidatura. Foi a esta sessão que assisti e foi, para mim, verdadeiramente inspiradora. A candidatura ao ensino superior é um processo burocrático e completamente desinteressante. O animador da sessão, porém, transformou aquilo num espectáculo, que, com os seus dotes de entertainer e de comediante, prendeu os alunos do princípio até ao fim. Quem organiza estas coisas está bem preparado, conhece os auditórios. Sabe adulá-los.
                                                                                                                                                  
Conforme me comprazia e espantava com a capacidade comunicacional ali exibida, uma preocupação nascia dentro de mim. Não se tratava sequer de estabelecer conexão entre o que estava a ver e o célebre livrinho de Guy Debord, A Sociedade do Espectáculo. A coisa era mais prosaica. Ao olhar os alunos na sessão ia-se tornando claro o ideal de professor que, sem ninguém ter consciência disso, se manifestava. Não é o saber, o rigor científico ou sequer a clareza na comunicação que são fundamentais. O essencial é que o professor seja um misto de animador de plateias e comediante. Que saiba transformar os conteúdos lectivos num espectáculo leve, onde a comédia desempenha um papel central. A degradação da profissão de professor teve um ponto alto quando se começou a dizer que os alunos não eram estudantes mas clientes e os professores não passavam de gestores de aprendizagens. Esta tontice, porém, está ultrapassada.

Os alunos continuam a não ser estudantes. Talvez sejam clientes, não de aulas mas de espectáculos. O ideal que deverá agora guiar o professor não é o da ciência e do saber – não são inconvenientes, mas não são o essencial – mas o da capacidade de animar os alunos, de os entreter, de os fazer rir. Depois de morta a figura do professor às mãos dos gestores de aprendizagens, são estes que terão de ceder o seu lugar ao animador-comediante, que não prepara aulas mas espectáculos. Em tudo isto, há apenas dois problemas. Olhando para o corpo docente que existe país fora não estou a ver como é que toda essa gente com idade provecta vai conseguir fazer rir quem quer que seja. Em segundo lugar, a formação de professores está completamente deslocada. Técnicas de animação, preparação de comediantes, colecção de anedotas para teenagers continuam a não fazer parte dessa formação. O que é lamentável, pois falhar-se-á o inspiring future que nos aguarda.

quarta-feira, 22 de março de 2017

Alma Pátria - 22: Os Conchas - Acredita e Be Bop A Lula



Este vídeo pertence a uma apresentação de Os Conchas (José Manuel Aguiar de Concha e Fernando Gaspar) na RTP, em 1960. O Rock'n' Roll estava no auge da sua popularidade nos EUA e as novas gerações europeias ansiavam pela americanização, vista talvez como uma certa libertação dos constrangimentos que a velha Europa impunha. Portugal, apesar da ditadura do Prof. Salazar, não ficou imune. Os Conchas são uma prova disso. Também por cá tivemos o nosso rock’n’roll paroquial, mesmo que nos faltasse, por proibição ditatorial, a imagem de marca da juventude americana, a Coca Cola, que o regime não permitia que se entranhasse. A capa apresentada não corresponde às canções do vídeo. Diz respeito ao primeiro EP gravado pelo duo, mas um EP partilhado com Daniel Bacelar. Duas canções para Os Conchas, duas para Daniel Bacelar. Era equitativo, o vinil estava caro e éramos todos pobres, mesmo os remediados, como se dizia na altura.

terça-feira, 21 de março de 2017

Flashmob e tradição

Papa Francisco (foto daqui)

A mensagem do Papa às jornadas da juventude tem duas notas que sublinham a dificuldade da Igreja Católica nos tempos que correm (ver aqui). A primeira diz que a verdadeira experiência na Igreja não é uma "flashmob". Uma flashmob, como a própria notícia explica, é uma concentração espontânea e de curta duração de pessoas num lugar público. Pretende assim o Papa reafirmar que uma instituição como a Igreja exige compromisso e persistência no tempo. A questão nasce do confronto entre as tendências existentes naquilo que Zygmunt Bauman classifica como sociedade líquida, a nossa, e tudo o que pressupõe a solidez que permite enfrentar o desgaste do tempo. A nossa sociedade deixa-se retratar, na verdade, como uma flashmob, onde pessoas e coisas se manifestam por instantes e desaparecem do espaço público. Liquefazem-se e correm a dissolver-se na indiferenciação dos oceanos. A crença religiosa dificilmente se poderá desligar do destino que atinge todo o resto da realidade social.

E isto é dramático para a Igreja Católica. O drama está expresso na seguinte passagem: temos de aprender a fazer com que os eventos do passado se convertam numa realidade dinâmica, para reflectir sobre ela e obter ensinamentos e um sentido para o nosso presente e o nosso futuro. A Igreja Católica, ao contrário das Igrejas protestantes, vive da tradição, dessa conexão entre o passado remoto e o futuro por vir. Se tudo, porém, se dissolve em encontros espontâneos que logo se desfazem, as próprias condições de manutenção de uma tradição desaparecem. Mesmo nos países de maioria católica há uma espécie de triunfo do protestantismo e da sua negação da autoridade da tradição. Não por acaso, se assiste, nesses países, à propagação de Igrejas evangélicas. De certa maneira, elas estão intimamente ligadas ao espírito do tempo, à vida líquida em que se transformou a existência nas actuais sociedades ocidentais. Evocar uma longa linha e continuidade, entre um passado longínquo e os dias de hoje pouco sentido faz para quem vive no e para o instante. E é isto que, nos dias de hoje, parece atormentar o Vaticano.

segunda-feira, 20 de março de 2017

Voltar a casa

Ken Howard - Going Home (1997)

A cultura ocidental é marcada por dois acontecimentos - ainda que possam ser apenas acontecimentos narrados - que sublinham a importância da casa. No Antigo Testamento, a terra prometida dá-nos a ver o lar como uma promessa a realizar. Na Odisseia narra-se as aventuras de Ulisses no retorno a casa. Seja como promessa, seja como retorno, a casa é o centro estruturante da cultura ocidental. Mesmo num tempo em que os valores do nomadismo parecem tomar a dianteira aos do sedentarismo, a casa - e a casa é também a metáfora para os elementos estruturais de uma cultura - ainda oferece o ponto referencial ao qual se volta sempre.

domingo, 19 de março de 2017

O Rumor das Ruas - 9. Por esses dias, cantavas

Lorenzo Bonechi - Figura su paesaggio (1990)

9. Por esses dias cantavas

Por esses dias, cantavas.
A boca visível
pousada na água,
o vestígio de vidro
surrado na sombra,
o sargaço do medo
tolhido no espelho
quebrado da vida.

Falavas do futuro.         
Sobre ti avançava,
oculto no fumo,
nas rosas azuis
esculpidas na parede,
na dor do olhar
preso na paisagem.

Abraçado nessa voz,
um cântico erguia-se
e o braço inclinado
para os dias de Abril,
procurava a água
que das nuvens
no solo da memória
em silêncio aluía.

(O Rumor das Ruas, 1978)

sábado, 18 de março de 2017

Descrições fenomenológicas 22. Estender a roupa

Ana Peters - Homenaje C.D.F. (1995-98)

Ao fundo, um muro miserável enrugado pelo tempo, lancetado pelo desvario de quem nele fendeu a cor de tijolo com traços brancos, já amarelados pelo devir, que dão a ler não se sabe qual indisposição de espírito, desejo frustrado ou amor talvez nunca consumado. O próprio passar dos anos trouxe consigo uma ânsia de grafitos manifestada em manchas de humidade, vestígios de antiquíssimo reboco, agora quase desaparecido, símbolos escavados no barro cozido que, vítima de violências esquecidas, foram nascendo com a queda de pequenos pedaços daquele muro, tão alto que parece simbolizar uma fronteira entre dois mundos, os quais, por um decreto providencial, têm a estrita obrigação de viver separados, sem que palavras possam entre eles serem trocadas, sem que os olhares de um lado possam contemplar os do outro. O que está para além não se pode daqui divisar, nem sequer há qualquer pista que o deixe suspeitar. Do lado de cá do muro, ergue-se um estendal para secar roupa, um arame zincado suspenso de dois postes de ferro oxidado, sem a comodidade de umas roldanas, fio baço e cansado que, havendo alguma coisa estendida, é erguido, ao centro, por uma cana grossa e alta, com uma fenda no cimo, na qual o arame fica preso, enquanto, com o peso da roupa, o poste improvisado hesita entre deixar-se arquear até se estilhaçar ou enterrar-se no chão de terra batida, um chão habitado por restos de lixo, plásticos, beatas de cigarro, um chapéu de chuva de varetas partidas. Umas mãos finas e esguias prendem, com molas de plástico descolorido, peças de vestuário ao arame. Essas mãos prolongam-se nuns braços também eles finos, presos a uns ombros brancos, tão bancos e tão leves. A mulher, de negro, veste um elegante vestido que deixa ver grande parte das costas e se ajusta ao corpo, dando-lhe um contorno voluptuoso, a cintura fina que se abre, sem desmedida, nas ancas e desliza pelas pernas, que o vestido descobre bem acima do joelho, as quais se terminam dentro de uns sapatos, também eles negros, de salto tão alto, que imaginamos as pernas de uma deusa, vinda do passado e perdida naquele lugar sem nome. E as mãos, que tão bem se deixam ver, sem destreza, vão cingindo ora um casaco ora uma camisa com o plástico que as prenderá ao arame. No intervalo, o corpo desce, colhe no alguidar a próxima peça, e ergue-se, num ondular de seara batida pelo vento, num volteio de onda que se ergue no mar, para se desfazer em terra, enquanto o cabelo se sobressalta, abrindo-se e fechando-se sobre o pescoço. E nesse vai e vem, o alguidar fica vazio e a roupa suspensa, como o corpo hirto de um enforcado, brilha contra o muro grafitado pelo tempo, corroído de memórias e de pobrezas, espantado pela sombra de uma deusa que ali se perdeu, esquecida de como voltar ao Olimpo, desprezada na incongruente elegância de um corpo que a não resgatou da corveia de cada dia.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Liturgias das redes sociais

Pat Steir - Abstraction, Belief, Desire (1981)

Viajar numa rede social como o facebook não deixa de ser uma experiência instrutiva. Estamos perante uma espécie de voz do povo ou, melhor, dos diversos povos que habitam por aqui. As postagens políticas são mais instrutivas do que os artigos de opinião e as declarações dos próprios agentes políticos. Muitas dessas postagens - e não interessa a cor ou a inclinação do postador -, mesmo quando têm alguma elaboração, não representam mais do que a expressão do desejo, esse desejo de confirmar a crença que se possui. São postagens rituais cuja finalidade é aumentar a fé na própria crença política. E como, por norma, e não há norma sem excepção, as pessoas acabam por se aproximar dos que possuem a mesma fé, gera-se um círculo religioso em que as crenças e os desejos de uns fortalecem as crenças e os desejos dos outros, através de uma liturgia marcada pelo momento do post e pelo momento dos comentários. Deste ponto de vista, cada post é, na verdade, uma acto litúrgico, uma acção piedosa. Estes exercícios excluem sempre duas coisas, embora, os oficiantes nunca o reconheçam. Excluem a realidade, a qual é reduzida pela acção do desejo e da crença em mera abstracção, e excluem qualquer tentativa de colocar-se no lugar do outro, de tentar perceber a lógica e as razões do outro lado. O outro é sempre ou corrupto ou idiota, na verdade um não humano. E um homem que se preza não se põe a falar com coisas que não fazem, apesar da aparência, parte da nossa distinta espécie. Também aqui o ecumenismo parece ser uma utopia. Entre fés não há diálogo possível.

quinta-feira, 16 de março de 2017

A ameaça

Juan Genovés Candel - Amenaza (1969)

As principais figuras da política europeia rejubilaram com os resultados das eleições holandeses de ontem. Estas reacções de júbilo, porém, não deixam de ser sintomáticas da situação em que se vive. Em cada acto eleitoral parece estar suspensa uma guilhotina que ameaça cortar a cabeça do projecto europeu. Aquilo que um dia pareceu ser uma caminhada triunfal para uma Europa unida tornou-se numa marcha titubeante, marcada por sobressaltos sem fim, na qual qualquer minúscula sombra é sentida como uma ameaça potencialmente devastadora. O júbilo das reacções é apenas o negativo do temor que habita o coração da Europa.

quarta-feira, 15 de março de 2017

Os primeiros sinais

Marcel Duchamp - Joven triste en un tren (1911)

Todos os acontecimentos possuem aspectos mais visíveis do que outros. Na história do cancelamento da conferência de Jaime Nogueira Pinto o aspecto visível foi o da criação de uma situação que pôs, objectivamente, em causa a liberdade de expressão. Há nele, porém, um outro aspecto que acabou por passar despercebido. O da entidade promotora da conferência, um grupo denominado Nova Portugalidade. Não vale a pena chamar-lhe fascista ou clamar que é de extrema-direita. Este tipo de linguagem, por mais que apareça ajustada, tem o condão de tornar invisível o que está a germinar. Etiquetar tranquiliza quem coloca as etiquetas, mas impede-o, ao mesmo tempo, de dar atenção ao fenómeno, criando uma boa consciência cívica através do exorcismo discursivo dos espíritos impuros que poluem a democracia.

Neste momento em França os jovens que até há pouco tempo não assumiam publicamente o apoio à Frente Nacional e a Marine Le Pen, fazem-no agora abertamente (ver aqui). Hoje em dia a grande força da Frente Nacional reside na juventude. De nada valeram os exorcismos feitos durante anos, de nada tem valido gritar que é uma organização fascista e de extrema-direita. Pode-se pensar que grupos como a Nova Portugalidade têm apoio muito residual em Portugal. De momento, isso é um facto. No entanto, entre os mais novos começa a desenhar-se um apetite por este tipo de soluções políticas. E não se trata de pessoas que estão na situação descrita por Pacheco Pereira no Público de sábado passado. As novas gerações têm estado, nas últimas décadas, afastadas da política. É possível que esse afastamento esteja a abrir caminho para um tempo em que ela se irá tornar o centro da atenção dos mais novos através de opções ideológicos idênticas às dos promotores da conferência de Nogueira Pinto. E quem está nas escolas, se não for completamente desatento, começa a notar, apesar de dissimulados, os primeiros sinais.

terça-feira, 14 de março de 2017

O Rumor das Ruas - 8. Olho-te e apenas

Maurice Denis - Orpheus and Eurydice (1910)

8. Olho-te e apenas

Olho-te e apenas
vejo a madeira
de onde
rasgo as tábuas
para cerzir
de negro
o negro coração.

(O Rumor das Ruas, 1978)

segunda-feira, 13 de março de 2017

A invisibilidade

Pablo Picasso - La comida del ciego (1903)

O artigo de Pacheco Pereira (ver aqui) sobre as possibilidades da emergência de movimentos populistas em Portugal chama atenção para o grande abandono (é o título do artigo) que os partidos votaram uma franja significativa da população. É aí, como acontece nos EUA e na Europa, que movimentos fora do establishment político encontram a força propulsora para os seus projectos políticos. Não é isso que me interessa aqui, embora concorde com o teor do texto, mas a cegueira que acomete os protagonistas políticos. Esta cegueira dos actores políticos, uma cegueira que não deixa perceber as tempestades que se vão avizinhando, é interessante porque, olhando a história, parece inevitável. 

Podemos dizer que as ideologias, com os seus universos formatados, impedem a visão do realidade. E isso faz sentido. No entanto, podemos fazer uma interpretação diferente e de cariz mais metafísico, digamos assim. E se uma parte da realidade social fosse, na verdade, invisível, mesmo para os olhos melhor treinados? Essa invisibilidade seria uma espécie de garantia da não perenidade das coisas. Uma realidade social que fosse completamente visível seria mais facilmente domesticável e as mutações mais raras. A invisibilidade de uma parte da dinâmica social seria assim a condição de possibilidade da eclosão do novo (independentemente da valoração que se faça desse novo). Se meditarmos a tragédia Édipo Rei, de Sófocles, não é isso que encontramos? 

sábado, 11 de março de 2017

Alma Pátria - 19: Conjunto António Mafra - Sete e pico



Não consegui determinar a data da primeira edição desta cantiga do Conjunto António Mafra. Um tom brejeiro e uma certa crítica dos costumes não afastaram este grupo das emissões da Rádio portuguesa. Estamos perante um outro lado da Alma Pátria, o qual vai ganhar desenvolvimento em canções de teor brejeiro, ainda mais ao gosto popular, depois do 25 de Abril de 1974. O que os autores deste tipo de música nunca pensaram é que ela iria, já bem depois do 25 de Abril, em versões com linguagem de teor sexual bem mais explícita, tornar-se a música de grandes camadas de universitários, mostrando claramente que a degradação do gosto e da educação estética não está ligada à formação académica ou à sua falta. Portanto, o post de hoje mostra uma espécie de ponte entre o antes e o depois.

sexta-feira, 10 de março de 2017

Thomas Bernhard


A minha crónica no Jornal Torrejano.

A obra do escritor austríaco Thomas Bernhard é daquelas que colocam com mais acuidade a relação entre a biografia pessoal e a obra de arte. É verdade que o princípio, presente na hermenêutica de Paul Ricœur, que nos ordena ler uma obra como se nada soubéssemos do seu autor continua válido. A arte de Bernhard vale por si mesma, muito para além das circunstâncias pessoais e sociais do autor. Quem ler, porém, obras como “Extinção. Uma derrocada”, “Perturbação”, “O náufrago” ou “O sobrinho de Wittgenstein. Uma amizade”, não deixa, ao ser confrontado com o ressentimento com a Áustria e os austríacos que inunda as páginas daquelas obras, de perguntar o que na vida do autor gerou tal reacção. O génio de Bernhard está em ter transformado o ressentimento em obra de arte, uma obra de arte violenta e sem contemplações com a hipocrisia dos austríacos.

Bernhard é marcado por dois acontecimentos. A ilegitimidade do seu nascimento (nasce em 1931, filho natural de uma criada e de um carpinteiro, que nunca chegou a conhecer) e a tuberculose pulmonar que o leva a um grande período de internamento num sanatório e a estadias bastante prolongadas na Polónia e em Portugal, em busca de um clima mais adequado à sua saúde. A patologia – seja a social, como nascer fora da norma católica, ou a física, como a tuberculose – torna-se num ponto de observação sobre a realidade social que envolve o autor. O talento está em transformar um observatório meramente subjectivo – as patologias de que se é vítima – num dispositivo de observação e análise da realidade com valor universal.

Um estado patológico permite perceber melhor e mais exaustivamente a doença que está presente nas pessoas e na sociedade. É a partir daí que incessantemente Thomas Bernhard expõe cruamente a falsidade presente nas instituições e nos sujeitos. O cerne da desmontagem está na relação que o autor estabelece entre um espírito nacional-socialista – que permitiu o anschluss e cujo anti-semitismo não teria chegado a desaparecer no pós-guerra – e a cobertura católica com que o próprio Estado (durante muito tempo nas mãos dos socialistas) e a sociedade se travestem. A partir do abandono originário e da morte sempre próxima, tudo aos olhos do escritor parece ridículo e a caminho da destruição ou da extinção. Ridículo e destruição que as suas personagens, também elas patológicas, exibem ou, melhor, proclamam em longos monólogos, que denunciam o solipsismo do autor e, na verdade, um autismo social inultrapassável. Seja como for, Thomas Bernhard é um dos grandes escritores da segunda metade do século XX.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Lentidão

Giacomo Balla - Automóvil a la carrera (1913)

Não foi só o silêncio que as sociedades modernas aboliram. Foi também a lentidão. O mundo moderno assenta no triunfo da velocidade, no império rapidez, na tirania do dinamismo. Os vagarosos ritmos da natureza tornaram-se para os seres humanos anátema. A lentidão paga-se com o desterro para um mundo de párias. Os velhos filmes do Far-West, essa imagem de marca da indústria sediada em Hollywood, trazem na figura do duelo entre pistoleiros a metáfora da morte da lentidão. A vida depende da rapidez. Quanto mais rápido se for maior é a probabilidade de sobreviver. A metáfora, porém, não sublinha apenas a rapidez, ela mostra o objectivo: sobreviver. E sobreviver, a mera luta pela sobrevivência, é o que resta num mundo de onde, sem apelo, a lentidão foi proscrita.

quarta-feira, 8 de março de 2017

O Rumor das Ruas - 7. Se fosses sal

Jesús Valle Julián - Mujer iraní

7. Se fosses sal

Se fosses sal
ou sombra suada,
acenderia velas
e archotes de argila
para iluminar
o musgo que cobre
de veludo
a pele da tua face.

(O Rumor das Ruas, 1978)

terça-feira, 7 de março de 2017

Liberdade e estupidez

Lyonel Feininger - Euphoric Victory (Siegesrausch) (1918)

A triste história do cancelamento de uma conferência de Jaime Nogueira Pinto na FCSH (ver aqui) merece dois considerandos. O primeiro diz respeito aos princípios. A liberdade de expressão é um bem que deve ser preservado independentemente da ideologia daquele que pretende exprimir-se. É inaceitável, em regime democrático, que as próprias opiniões anti-democráticas não possam exprimir-se. E isto é uma questão inegociável. Pode-se não gostar de Jaime Nogueira Pinto nem dos organizadores da sua conferência. Pode-se mesmo achar que nem Jaime Nogueira Pinto nem os organizadores são defensores das liberdades democráticas. Isso é irrelevante. Desde que aquilo que se diz não fira a lei (e no caso de ferir são os tribunais a julgar o facto e não as associações de estudantes ou outras), as pessoas têm o direito de ter as posições que muito bem entendem. Uma democracia que não permitir o contraditório tem pouca confiança em si e nos seus princípios. Pessoas que temem uma conferência possuem, apesar da exaltação, fraca fé nos seus próprios princípios e crenças. Como disse, a liberdade de todos se exprimirem é um bem inegociável.

O segundo considerando diz respeito aos objectivos estratégicos dos estudantes proibicionistas. Se esta eufórica e exaltada gente pretendia combater as opiniões de Jaime Nogueira Pinto, então seguiu o pior dos caminhos possíveis. Conseguiu, talvez por uns instantes, fazer do conferencista um pequeno mártir da liberdade. E isso, tendo em conta o passado político de Nogueira Pinto, é um feito notável. Os estudantes conseguiram transformar uma conferência irrelevante, perdida numa sala de uma faculdade, num acontecimento comentado na comunicação e nas redes sociais. Além do desrespeito por um dos vértices da democracia, a liberdade de expressão, a acção foi estrategicamente estúpida. A não ser que o objectivo seja criar um clima de temor nas franjas políticas a que os organizadores da conferência e Jaime Nogueira Pinto pertencem. Se o objectivo é este, então o caso ainda é mais grave e mais estúpido, pois abala mais fortemente os fundamentos da democracia e, como qualquer um poderá perceber, pode ajudar a dar corpo a movimentos políticos que não têm tido terreno para proliferar. Não há nada que mais ajude a crescer os qualquer movimento político do que a vitimização e o martírio. Os estudantes conseguiram uma vitória eufórica, ao ser anulada a conferência. É pena que tenha sido a vitória da estupidez e não da razão.

segunda-feira, 6 de março de 2017

O sacrifício de Isaac

John White Abbott - Landscape with Abraham and Isaac

A história do sacrifício de Isaac pelo seu pai, Abraão (ver Génesis 22:2 e seguintes), como todas as narrativas bíblicas pode ser tomada em diversos sentidos. Uma leitura religiosa dirá que se está perante um teste à fé de Abraão, à capacidade deste responder a uma exigência absoluta de Deus sem hesitar ou ser tomado pela dúvida. Uma leitura diferente, não religiosa, pode ser feita do episódio. Do ponto de vista civilizacional, podemos estar perante a simbolização do momento em que os sacrifícios humanos, uma prática generalizada, perdem sentido. O absoluto da fé substitui o absoluto da morte. 

É evidente que esta transformação civilizacional tem um preço e esse preço está expresso na própria narrativa. Trata-se de substituir a morte da vítima a imolar pela fé absoluta em Deus. Esta fé é, desse modo, um holocausto, onde as dúvidas, pretensões e desejos do indivíduo são entregues em sacrifício. A derrota da barbárie nasce da subjectivação e espiritualização do sacrifício. Já não se trata de imolar uma vítima exterior, mas de auto-imolar-se, como forma não apenas de agradar a Deus mas também de permitir que os homens vivam uns com os outros. Nenhuma sociedade é possível se os seus membros não tiverem interiorizado a necessidade de uma auto-imolação mínima. 

domingo, 5 de março de 2017

Acédia

Pieter Bruegel the elder - Acedia

Talvez tenha sido Evagro de Ponto (século IV depois de Cristo) quem colocou a acédia na lista dos pecados mortais. Faria parte de um conjunto de oito males que podem atingir aquele que se dedica à vida espiritual. Posteriormente, esta lista foi reduzida a sete por Gregório Magno (século VI), tendo a acédia sido retirada e, porventura, fundida na preguiça. Esta conduta tida como viciosa compreendia a desatenção e o descuido relativamente a si mesmo e um desinteresse pelo mundo, o que conduziria ao não cumprimento dos deveres, fossem estes de ordem espiritual ou de ordem mundana.

A acédia é, mais do que a posterior preguiça, uma conduta viciosa, digamos assim, interessante. Se olharmos para os outros pecados capitais (gula, avareza, luxúria, ira, inveja e orgulho ou soberba) descobrimos que eles nascem de uma hipervalorização do ego, de um excesso de sentido com que este é investido. A acédia, pelo contrário, marca um desinteresse por si mesmo. Ela encontra-se numa experiência limite, na qual o mundo e a própria pessoa perderam o sentido. Pode-se sempre olhar para  a acédia como uma patologia do foro psicológico, tipo depressão. Isto significaria transformar um pecado numa doença do foro psicofisiológico, mas tanto a sua interpretação religiosa como a médica acabam por desviar o olhar da experiência que a acédia representa.

Ela pode ser pensada como um desinvestimento deliberado do indivíduo na tarefa de dar significação tanto ao mundo como a si mesmo. Esta interpretação acentua o carácter activo que estaria na origem da acédia. No entanto, a acédia também pode resultar de uma compreensão – súbita ou mediada por longa reflexão – da insignificância de si e do mundo, uma revelação de que nada tem, objectivamente, sentido e o sentido que se atribui às coisas e a si-mesmo não passa de uma presunção pessoal e/ou colectiva, mas sempre uma presunção. Esta revelação pode ser de tal modo assombrosa que o indivíduo se torna incapaz de levar a sério as tarefas de dar sentido a si e ao mundo e acreditar nesse sentido que ele atribui. Descoberta a grande ilusão, o indivíduo pode já não ter energia para investir naquilo que fica para além do sentido e da significação.

sábado, 4 de março de 2017

Alma Pátria - 18: Paulo de Carvalho - Corre Nina



Retornamos ao Festival RTP da canção, agora à edição de 1970. Paulo de Carvalho interpreta Corre Nina. Já não estamos perante o tipo de canção que marcou o país na década anterior. Parece aberto o caminho para uma nova geração já não de cançonetistas mas de cantores. Os tempos estavam a mudar. Apesar de tudo, a substituição do Professor Salazar pelo Professor Caetano representou, em alguns aspectos, uma tímida, muito tímida, abertura. A canção em causa, apesar disso, é francamente desinteressante e pouco adequada à voz do intérprete. Aliás, Paulo de Carvalho sempre foi um mistério. Uma das vozes mais interessantes da música portuguesa, mas que falhou uma grande carreira. Não é que não tenha tido êxitos, mas nunca houve uma continuidade no tipo de música que fez, a criação de uma imagem de marca. Seja como for, representa um dos homens que anunciavam, no campo da música popular, os novos tempos.

sexta-feira, 3 de março de 2017

O Rumor das Ruas - 6. Um véu de vidro

Carlos Botelho - Lisboa e o Tejo; Domingo (1935)

6. Um véu de vidro

Um véu de vidro
na chaga viva
e quase louca,
se o sol semeia
árduas rugas
nas ruas de Agosto.

(O Rumor das Ruas, 1978)

quinta-feira, 2 de março de 2017

Amor à menoridade

Egon Schiele - Criança dormindo (1910)

Depois do drama dos sms e emails do ministro Centeno, temos agora a tragédia da não divulgação das transferências para paraísos fiscais do ex-secretário Núncio. Não é que estas coisas sejam desprovidas de importância. Não o são e devem ser escrutinadas. O problema é que, neste pobre país, o debate político se centra todo ele neste tipo de casos. Vive-se da excitação dos diversos coros de indignados que pululam por aí em apoio da suas seitas, servidos pelas câmaras de eco que são os órgãos de comunicação e as redes sociais. Não há um debate sério sobre o país e sobre os caminhos que devemos trilhar. E nisto descobre-se um amplo consenso entre o governo e a oposição, entre a esquerda e a direita.

Uma explicação para o fenómeno seria fazer notar a baixa preparação das diversas elites políticas que têm por missão disputar o poder e ganhar o direito a pastorear – extorquindo ali, distribuindo acolá – o rebanho da paróquia. É uma explicação plausível, mas haverá uma outra que, sem anular esta, permite esclarecer mais e melhor o facto. Trata-se pura e simplesmente de não haver nada de verdadeiramente sério para discutir. A liberdade de acção dos agentes políticos portugueses é tão diminuta que, na verdade, quase nada os separa. Resta-lhes os casos e o exercício fútil da indignação perante os pecados do outro lado, como forma de chegar ao poder ou de o manter.

Este tipo de exercício político, contudo, não pode ser interpretado como uma espécie de resignação perante a ausência de liberdade para confrontar propostas diferenciadas sobre o país. Ele é também uma prática deliberada de ocultação da ausência de liberdade e de poder do país. Nem a direita nem a esquerda estão interessadas – verdadeira e efectivamente interessadas – em enfrentar essa ausência de liberdade e o défice de poder, pois nenhuma delas sabe o que fazer para reconquistar essa liberdade e, pior do que isso, não saberia o que fazer se tivesse essa liberdade de traçar autonomamente um caminho para o país.

Aplica-se ao caso aquilo que Kant disse em 1784 dos homens em geral: Porque a imensa maioria dos homens (inclusive todo o belo sexo) considera a passagem à maioridade difícil e também muito perigosa é que os tutores de bom grado tomaram a seu cargo a superintendência deles. Um povo com quase 900 anos de história, tocado pela senilidade e pouco habituado à liberdade e à responsabilidade que lhe é inerente, entregou-se, temendo os perigos da maioridade, à tutela dos poderes europeus, que assim nos administram as contas e superintendem a vida e a morte. O baixo nível do debate político português, o exacerbar dos casos e os uivos de indignação são manobras de diversão para esconder a nossa menoridade, para ocultar o nosso amor a essa menoridade.

quarta-feira, 1 de março de 2017

Mudar mais uma vez


A minha crónica em A Barca de Março de 2017.

No próximo ano lectivo, nos anos iniciais de ciclo, vamos ser confrontados com novas reestruturações da orgânica educacional. Está em discussão o Perfil de saída dos alunos à saída da escolaridade obrigatória, Perfil para o Século XXI, e estão previstas alterações curriculares e o que mais se verá. Quem está na docência há mais de trinta anos já nem se pergunta se o que vem aí é bom ou mau. O problema é bem mais profundo do que as hipotéticas virtudes ou possíveis vícios de uma nova intervenção na estrutura da educação. Ao fim de tantas experiências, os professores mais velhos – e hoje em dia quase todos os professores são bem antigos – estão vacinados contra a veia reformadora que atinge os ocupantes da 5 de Outubro.

Na verdade, nunca se sabe por que razão aquilo que vai ser posto de lado é abandonado. Não há avaliação séria de nada. A única coisa que parece clara é que a política educativa é meramente conjuntural. Mudam as maiorias governativas e a educação é vítima de uma reestruturação que parece querer mudar tudo, de ponta a ponta, mesmo quando os ministros – e os secretários de Estado – evitam falar de Reforma da Educação, uma expressão gasta e com má reputação. Por norma, os resultados destas aventuras são sempre bastante estimulantes. As escolas tornam-se espaço de mil reuniões e os professores vêem crescer a burocracia a que têm de dar seguimento para mostrar que aplicam com vigor as alterações estipuladas. Este é o principal efeito do espírito reformador dos governantes – de qualquer cor política – dentro das escolas. Os professores assistem a isto resignados e à espera que venha o próximo gabinete ministerial que trucidará estas políticas e trará novas, com os mesmos resultados.

As consequências do espírito reformista dos dirigentes políticos da educação são dignas de registo. Depois de tantas reformas e reestruturações, depois de tanto dinheiro gasto em escolas novas, conseguimos ter uma educação a funcionar para o século XIX. O principal problema não está naquilo onde os políticos podem mexer. A questão centra-se na cultura das escolas. Esta cultura é muito mais resistente do que os ministros e os governos. Ela está assente em longas tradições e em organizações escolares estruturalmente burocráticas e conservadoras, que são reforçadas pela própria estrutura material dos edifícios escolares (mesmo os das escolas novas), pela formação docente, pela necessidade de prestação de provas imposta pelo Ministério e pelo afã reformador desse mesmo Ministério, o qual, com tantas alterações, gerou uma cultura de resistência docente, cujo resultado é mudar tudo para que tudo fique na mesma. É o que irá acontecer mais uma vez.